Porque é que, apesar de serem supostamente proibidos, os grupos de ódio proliferam nas redes sociais? Como se difundem as suas mensagens? Que estratégias podem as redes sociais implementar para combater este fenómeno?
Estas foram algumas das perguntas que originaram um estudo publicado na passada quarta-feira na revista científica Nature por uma equipa liderada por Neil Johnson, da Universidade George Washington, e que incluía membros de várias outras instituições, como a Elliot School de Relações Internacionais da mesma universidade e os departamentos de Física e de Ciência Computacional da Universidade de Miami.
Johson é membro do Instituto sobre Dados, Democracia e Política, especialista em sistemas complexos e Ciência de dados. Com a sua equipa dedicou-se a quadrilhar aquilo a que chamaram “auto-estradas” do ódio nas redes sociais.
O objeto inicial do estudo “Resiliência escondida e dinâmicas adaptativas da ecologia do ódio global online” foram particularmente os grupos de ódio e as suas dinâmicas em duas redes sociais: o Facebook e a menos conhecido Vkontakte, rede muito popular na Rússia.
A análise matemática foi uma das ferramentas que permitiu mapear as relações entre grupos, dos principais aos mais secundários, compreender as vias de difusão de mensagens, as formas de recrutamento destes grupos e analisar a sua resiliência.
Tudo começou com a análise de um dos grupos de ódio. Depois foi desenrolar os fios à meada. Foram-se encontrando grupos altamente relacionados, viu-se como ultrapassavam as barreiras de plataformas (utilizando o Instagram, Snapchat e WhatsApp), geográficas e mesmo de línguas.
E analisou-se a sua resiliência, nomeadamente as suas estratégias de adaptação quando são banidos online, mudando de plataforma ou voltando à mesma através das “portas das traseiras”, outro país ou até outra língua, o que lhes permite rapidamente recuperar milhares de seguidores.
Pretendia-se com este estudo “ajudar as plataformas de redes sociais e as autoridades na sua batalha contra o ódio online”. Para Johson, em explicações dadas ao site da sua faculdade, “o ódio destrói vidas, não apenas como vimos em El Paso, Orlando ou na Nova Zelândia mas também psicologicamente através da retórica e do bullying online”. É preciso por isso “olhar para porque é que é tão resiliente e como pode ser melhor abordado.”
Estratégias contra o ódio
Segundo estes investigadores, parte do sucesso dos grupos de ódio reside precisamente na forma como se reconstroem. No sumário do estudo escreve-se que estas redes “rapidamente se religam e auto-reparam a um nível micro, de uma forma que mimetiza a formação de ligações covalentes em química.”
Por isso, as estratégia que as redes sociais deveriam implementar não se podem reduzir a tentar resolver o problema na sua própria rede: “o nosso modelo matemático prevê que policiar dentro de uma única plataforma (como o Facebook) pode tornar as coisas piores, gerando eventualmente “piscinas negras” ao nível global nas quais o ódio online irá florescer.”
Neil Johnson utiliza a analogia do herbicida para se fazer compreender: “não importa quanto herbicida se deite num jardim, o problema voltará, potencialmente mais agressivo. No mundo online todos os jardins da vizinhança estão interconetados de uma forma altamente complexa.”
O estudo serve assim ainda para sugerir estratégias de intervenção que as redes sociais poderiam implementar em conjunto: a redução do poder dos grupos maiores através da eliminação dos grupos menores que se alimentam deles, o banir aleatório de pequenas frações de utilizadores de forma a interferir na rede global, o colocar os grupos maiores uns contra os outros, ajudando os grupos de combate ao ódio a relacionar-se diretamente com os grupos de ódio, a criação de grupos intermediários que se envolvam com os grupos de ódio ajudando a salientar as suas diferenças ideológicas e fazendo-os questionar-se.
Sendo estratégias globais, os problemas anteriores do combate aos grupos de ódio, que passavam pela partilha de informação sensível de utilizadores ou outros dados que poderiam constituir segredos comerciais deixam de se colocar, dizem os investigadores que também adiantam estarem, com base no mapa construído, a desenvolver um software que pode ajudar a combater o fenómeno.