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Estagnação com deflação, o décimo momento da crise

Tudo parece indicar que começou em força o décimo momento da crise iniciada em agosto de 2007. A consequência de uma contração do consumo poderá provocar uma recessão económica no mundo emergente. Em conjunto significa a generalização global da crise. Estamos num cenário semelhante a 1934, com o otimismo de que a crise já passou e o desastre às portas. Por Oscar Ugarteche e Ariel Noyola Rodríguez.
Tudo parece indicar que começou em força o décimo momento da crise iniciada em agosto de 2007.

Tudo parece indicar que começou em força o décimo momento da crise iniciada em agosto de 2007, que implicou múltiplas falências bancárias e custos orçamentais massivos nos Estados Unidos. Isto foi seguido por ajustamentos de consumo que impactaram sobre o crescimento da economia da Zona Euro e britânica. A injeção de liquidez da banca central para evitar uma deflação levou num primeiro momento a um auge de preços no mercado de commodities e gerou uma crise de duas velocidades: os de preços congelados e os de preços que cresciam porque as suas exportações tinham preços altos.

Os programas de estímulo monetário da Reserva Federal (Fed) e do Banco da Inglaterra desde 2009, do Banco Central Europeu (BCE) desde 2012 e do Banco do Japão desde 2013, acabaram por dotar a banca de investimento de uma maior alavancagem e, com isso, favoreceram as apostas especulativas nos mercados de rendimento variável (commodities, ações, taxas de câmbio e imobiliário). Daí se explica que a recuperação dos mercados de valores não tenha levado à recuperação do mercado de trabalho em lado nenhum. O que fez foi sustentar artificialmente um nível de preços em ligeiro crescimento num contexto de contração do consumo nas economias dos chamados países desenvolvidos.

A decisão de Ben Bernanke de terminar com o programa da Fed em maio de 2013 pôs em cima da mesa a fragilidade da recuperação económica global e revelou o unilateralismo norte-americano na sua tomada de decisões para benefício próprio, sem cuidar dos efeitos sobre o resto do mundo. Durante o seu discurso no Clube de Imprensa Nacional em Washington em meados de janeiro deste ano, a diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, converteu-se na primeira autoridade mundial a alertar para os “riscos de deflação” nas “economias avançadas”. Isto é verdadeiro para os Estados Unidos mas em especial para a Zona Euro, com uma inflação interanual de 0,80% em dezembro de 2013, abaixo do objetivo de 2% fixado pelo BCE, e em que os dados oficiais mostram deflação para praticamente metade da Europa desde maio. O Japão mal consegue sair da sua deflação de longo prazo iniciada nos anos noventa.

Com expectativas de redução de preços no futuro, o consumo presente contrai-se com um efeito multiplicador negativo sobre a procura agregada. O investimento reduz-se e a banca mostra-se mais renitente a emprestar. Por outro lado, precipita-se a falência de bancos e empresas e aumenta a centralização de capital (Veja-se A. Graña, “O mundo em deflação?”). Os dados antes da deflação mostram que em 2013 desapareceram 269 instituições financeiras europeias (EUbusiness, 21/01/2014) e 767 norte-americanas entre dezembro de 2010 e setembro de 2013 segundo o FDIC, a agência de seguros de depósitos desse país.

Por outro lado, de acordo com o relatório Perspetivas da economia mundial do FMI atualizado em janeiro de 2014, as economias emergentes crescerão 5,1% em média durante o ano em curso arrastadas pela China que crescerá 7,5 por cento. Como já é habitual, as estimativas do Fundo estão sobreavaliadas. Os indicadores do Metals Futures Market de janeiro último mostram uma baixa de preços de 11 por cento. A descida iniciada no ano 2011 acentuou-se com o anúncio do início do fim do programa de estímulos monetários em maio, que foi concretizado em dezembro de 2013 e começou a ser implementado em janeiro. Os preços das matérias primas são determinados em parte pela procura real, mas a procura financeira também joga um papel importante.

O que se está a ver portanto é o fim da tripla arbitragem de taxas de juro, taxas de câmbio e preços de ativos financeiros, que ocorre desde que as taxas de juro se tornaram negativas no ano 2003 e acentuaram a sua queda desde 2009. O fim da tripla arbitragem implica o impacto inverso sobre as taxas de câmbio das economias emergentes, a taxa de inflação nessas economias e as taxas de juro. A consequência de uma contração do consumo poderá provocar uma recessão económica no mundo emergente. Em conjunto significa a generalização global da crise. A interrogação que se coloca é: até quando permanecerá o continente asiático à margem desta dinâmica.

"A cooperação monetária internacional rompeu-se […] Os países industrializados teriam que desempenhar um papel na restauração disso [a cooperação entre os bancos centrais], não podem lavar as mãos e ajustar" disse Raghuram Rajan, atual governador do banco central da Índia e ex-funcionário do FMI numa entrevista à Bloomberg TV (Citado por Larry Elliot, The Guardian, 30/01/2014). A verdade é que não lhes interessa. Enquanto as taxas de juro nas economias dos chamados países desenvolvidos continuem negativas em termos reais, subirão nas economias emergentes; assim asseguram a transferência de riqueza enquanto tentam conter o inevitável pelo menos a curto prazo. Estamos num cenário semelhante a 1934, com o otimismo de que a crise já passou e o desastre ad portas.

Artigo de Oscar Ugarteche(economista peruano e coordenador do Observatório da América Latina – Obela) e Ariel Noyola Rodríguez(membro do projeto Obela), publicado em obela.org e alainet.org. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Economista peruano. Trabalha no Instituto de Investigações Económicas da UNAM, México. Coordenador do Observatório Económico da América Latina (OBELA - obela.org) e presidente de ALAI (alainet.org)
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