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A esquerda e a resistência na retaguarda de Putin

O Movimento Socialista Russo diz que o regime de Putin está num processo de “fascização” e explica o que é militar na esquerda anti-guerra atualmente neste país numa entrevista feita por João Woyzeck.
Movimento Socialista Russo. Foto do Twitter.
Movimento Socialista Russo. Foto do Twitter.

A brutal guerra de agressão contra a Ucrânia também está a transformar de forma duradoura a sociedade russa. Os meios de comunicação ocidentais informam sobre a lei russa dos meios de comunicação que estabelece as narrativas oficiais sobre a guerra como o único discurso público existente. Mas como interpretar a censura e o encerramento dos meios de comunicação social que eram críticos face ao governo bem como a detenção e, em parte a condenação de ativistas anti-guerra? Expressa um processo de transformação radical da sociedade russa? Que perspetivas resultam disto? Falámos com membros do Movimento Socialista Russo e perguntámos-lhe como a esquerda revolucionária da Rússia classifica a crise atual e que tarefas se colocam.

O MSR defende um socialismo revolucionário democrático e assume posições ecossocialistas. O seu propósito é construir um movimento de massas baseado na solidariedade de classe através da confluência de ativistas de esquerda, sindicalistas, feministas e ecologistas com vista a lutar por instaurar uma alternativa com capacidade de atração face ao regime de Putin, que assegura a liberdade, com base na propriedade pública e na autogestão política. Com esta finalidade, o MSR colabora de forma próxima com novos sindicatos, pratica o ativismo mediático e intervém em atos de protesto e projetos culturais e educativos.

A alteração do ponto de partida do ativismo crítico

A 4 de março de 2022, a Duma e o presidente russo Vladimir Putin promulgaram uma alteração significativa do Código Penal (art. 207.3) e da Lei da Ordem Pública (art. 20.3.3.). Deste modo, passaram a ser puníveis a difusão pública de afirmações que o regime considera falsas sobre a chamada operação militar especial (incluindo o uso de palavras como guerra, invasão, agressão), o suposto desacreditar público das forças armadas russas (incluindo através de ações de protesto públicas não coordenadas), bem como a reivindicação de sanções contra a Rússia. A condenação prevista vai de uma multa de até 700.000 rublos até aos três anos de prisão. Se estes atos forem cometidos aproveitando o seu cargo e por inamizade ideológica –não fica muito claro o que o regime entende por isso –, a condenação pode chegar aos dez anos de prisão ou a uma multa de três milhões de rublos.

O serviço estatal de supervisão de meios e comunicações, Roskomandzor, ameaça os meios de comunicação social que difundam informações contrárias à doutrina oficial com o encerramento ou com outras medidas legais. Os meios de comunicação social que não se deixam intimidar são encerrados sem quaisquer outros procedimentos. A 27 de fevereiro aconteceu uma verdadeira onda de encerramentos (Current Time, Krym.Realii, The New Times, a revista estudantil digital DOXA, Taiga.Info, etc.). O regime também não deixou de fechar grandes meios de comunicação social independentes como a Radio Moskwi e a emissora de televisão Doshd. Disseram que difundiam apelos de grupos extremistas (!). Depois de repetidas ameaças por parte do Estado também deixou de ser publicada a Novaya Gasieta. Entretanto foram fechadas mais de 1.500 páginas de internete.

A dominação totalitária do discurso público também ocorre no sistema educativo: as escolas secundárias receberam manuais para realizar, a um de março, uma aula sobre a operação militar especial, enquanto que as universidades e escolas superiores organizam regularmente apresentações de orientação geopolítica da juventude estudantil.

Canais de Telegram críticos do governo como o OVD-Info – que depois do encerramentos de meios de comunicação social e de redes sociais críticas como o Instagram constituem as últimas fontes de informação russas independentes – relatam buscas domiciliárias sem aviso prévio (que visam intimidar ou recolher informação), detenções e denúncias por se participar em ações de protesto, despedimentos, ou a expulsão da universidade dos ativistas anti-guerra. Para além disso, a lista de supostos agentes estrangeiros – pessoas da vida pública molestadas pelo Estado como jornalistas ou historiadores – alarga-se continuamente. A 16 de maio, o OVD-Info já registava 15.443 detenções relacionadas com ações contra a guerra desde que esta começou.

O MSR exige atualmente a libertação da ativista Aleksandra Skogilenka. Em prisão preventiva, tem sido objeto de contínuos maus-tratos. Pode ser condenada a até dez anos de prisão, tudo isto apenas por ter colocado etiquetas de preços com lemas contra a guerra em vários escaparates. Para o regime de Putin, isto é motivo suficiente para acusá-la de difundir noticias falsas sobre o exército russo, guiada pelo seu ódio político.

As detenções massivas e as cargas policiais violentas contra manifestantes anti-guerra por parte das brigadas anti-distúrbios e da unidade especial OMON, dependente do Ministério do Interior, impedem de facto as concentrações massivas. Apesar disto, nos canais de Telegram dissidentes circulam centenas de fotografias de ações individuais, nas quais os valentes ativistas expõem nas praças públicas uma folha de papel ou um cartaz com frases como “Putin demissão”, antes de serem detidos pelas forças de segurança.

Neste contexto cabe mencionar a Resistência Feminista contra a Guerra (FAR), que no dia 8 de março colocou ramos de flores amarelas e azuis ou o verdes (o símbolo do protesto contra a guerra) em monumentos de guerras anteriores de várias cidades russas ou que a 3 de abril colocou mais de 250 cruzes en memória das 5.000 pessoas civis assassinadas na cidade ucraniana de Mariúpol. Assim, a FAR é um bom exemplo de como se pode romper o isolamento imposto, compensando a ausência de concentrações massivas com a coordenação de ações visuais de protesto. Uma vez que as pessoas já não se podem juntar na Rússia, muitas concebem formas criativas diversas de apresentar publicamente posições críticas face à guerra e ao governo: há quem coloque nos supermercados etiquetas de preços que em vez de números mostram informações sobre a guerra. Por exemplo, a FAR escreve lemas contra a guerra ou informações sobre esta em notas de banco que circulam de mão em mão. Por todo o lado se veem laços verdes, pendurados em ramos de árvores ou grades e cercas. A colocação ou ostentação de laços verdes tornou-se num verdadeiro flashmob, uma tendência que se tem alargado espontaneamente e que surge repetidamente em qualquer parte de forma independente.

Estas ações descentralizadas de protesto, independentes e silenciosas não enchem o espaço físico, mas conquistam o espaço público para o discurso crítico face ao governo. Quisemos saber como se alterou a vida dos ativistas progressistas e críticos do governo desde 24 de fevereiro e que perspetivas se abrem a partir da análise da situação dentro do regime autocrático de Putin. Esta entrevista com o Movimento Socialista Russo é uma tentativa de conhecer a resistência na retaguarda russa.

Evolução da sociedade

O que esperam as pessoas que são críticas do regime de Putin na Rússia? Uma retirada da Ucrânia, uma derrota na guerra? Existe um ambiente de novo começo ou de compasso de espera para um futuro melhor?

Não vejo otimismo no que diz respeito a uma possível retirada ou a uma derrota. Pelo contrário, predomina muito mais um estado de espírito negativo, por muito que uma possível derrota ou uma retirada pudesse colocar em causa a continuidade do regime.

É certo que regimes autoritários costumam colapsar depois de derrotas militares sérias. Contudo, para aproveitar as possibilidades criadas pelas derrotas militares é preciso que no próprio país existam algumas estruturas organizativas e recursos de oposição.

Para além disso, os regimes autoritários tendem a tornar-se especialmente violentos quando veem a sua existência ameaçada ou se acham à beira do colapso. A Rússia vive, desde há algum tempo, uma onda crescente de medidas repressivas. Se o regime sofrer uma derrota na guerra ou se se vier a ver obrigado a retirar-se, isto muito provavelmente fará com que passe a olhar para o próprio país como contendo mais ameaças e intensifique a repressão.

Ao mesmo tempo, desde há anos, o regime trata sistematicamente de suprimir a oposição organizada que poderia aproveitar esta crise para avançar. É certo que a coincidência da derrota militar, das sanções, das tensões no seio da elite e da pressão da oposição podia provocar uma certa instabilidade política, de forma que possa parecer possível uma mudança de regime. Mas mesmo que isto acontecesse, o mais provável era que o regime respondesse com uma repressão ainda mais brutal. Não nos devemos esquecer que qualquer que fosse o resultado de uma retirada, as pessoas compreendem claramente que o regime já infligiu um prejuízo enorme tanto na Ucrânia como no próprio país. Este já aconteceu e nem sequer uma mudança de regime, ainda que parecesse provável, poderia revertê-lo.

 

Alguns observadores críticos do governo, entre eles o MSR, temem que a Rússia se possa tornar num Estado fascista. Podem descrever as tendências que consideram fascistas?

Na nossa opinião, a Rússia está a entrar agora numa fase de fascização. Os crimes de guerra que foram conhecidos depois da retirada das tropas russas de Bucha devem ser vistos talvez através de uma nova luz mais sombria. Na revista russa RIA Novosti [1] que pertence à empresa pública Rossiya Sevodniaguing, Timofei Sergueitsev, um estratega político e colunista russo, já deu mais um passo na elaboração do discurso sobre a guerra de agressão contra a Ucrânia.

Sergueitsev não apenas oferece uma narrativa alternativa para justificar o ataque como um ato de libertação da Ucrânia mas também justifica os crimes de guerra cometidos. Concretamente, diz que a maior parte da população da Ucrânia são nazis, pelo que já não se trata de libertar a população ucraniana dos seus opressores nazis. Uma verdadeira desnazificação “será também, inevitavelmente, uma desucranização”. Assim, a narrativa da desnazificação já não serve apenas para justificar uma agressão militar mas também para desumanizar a população ucraniana.

Para responder à pergunta: quando falamos de fascização da Rússia não devemos pensar tanto no fascismo clássico das décadas de 1920 e 1930 na Alemanha e Itália. É útil analisar os processos em curso no regime à luz do conceito de pós-fascismo, tal como o define Enzo Traverso. Segundo ele, não se trata de um movimento de massas a partir de baixo e de fora da política institucional que tenta tomar e derrubar o Estado. O pós-fascismo carece de uma base de massas significativa e também do impulso disruptivo. Trata-se de uma fascização a partir de cima e do interior da política institucionalizada.

De facto, o regime russo não mantém nenhuma ligação com um movimento auto-organizado da população. Pode-se mesmo observar como este oprime organizações extra-parlamentares de extrema-direita que apoiam a guerra de agressão contra a Ucrânia porque teme que possam escapar ao seu controlo.

 

Dizes que não se trata de um regresso ao fascismo clássico. Porque não falas simplesmente de autoritarismo? Ou, dito de outra forma, quais são as características específicas da evolução pós-fascista na Rússia que a diferenciam de outros regimes autoritários?

Sem dúvida encontramos características como as que Enzo Traverso descreve: defesa de valores tradicionais imaginários, o regresso a um Estado nacional protecionista contra o globalismo, uma espécie de darwinismo social impregnado de liberalismo económico. Ao mesmo tempo, este mesmo regime também é ideologicamente muito eclético e não oferece nenhuma ideologia estruturada. As raízes intelectuais do atual regime constituem um aspeto importante e complicado que requerem uma resposta detalhada.

É claro, porém, que também pode ajudar-nos a definição que Karl Polanyi deu do fascismo clássico para entender o pós-fascismo do regime de Putin. É, de certo modo, um reflexo do capitalismo ameaçado. Polanyi qualificou o capitalismo como fascismo latente. Segundo ele, este encerra uma contradição interna na medida em que a promessa igualitária de direitos políticos equitativos entra em contradição com os privilégios de classe que um sistema baseado no lucro pessoal comporta. Sobre este pano de fundo, a fascização do regime russo não se apresenta como uma rutura repentina, mas como uma agudização dramática da existência de um sistema político dominante na Rússia desde meados da década de 1990. Devido ao isolamento social interno e internacional do regime, tal como por causa do fracasso da guerra relâmpago de conquista que tinha projetado, o regime encontra-se na defensiva, o que por sua vez reforça a sua idiossincrasia reacionária. A própria guerra é por seu turno fruto do facto de que a transição da Rússia pós-soviética para mercado livre e a conseguinte atomização da sociedade provocaram crises internas e o regime teve de desviar este conflito social para o exterior através de agressões militares.

É importante assinalar que o regime tem uma forte conotação reacionária e contra-revolucionária. Está a converter-se num sistema que se propõe oprimir totalmente a sociedade e liga a destruição de todas as formas de auto-organização social na Rússia (sindicatos, movimentos de base, organizações de esquerda, etc.) com uma agressão militar desde o exterior.

No âmbito cultural também se percebe que nos encontramos numa nova fase ou face a uma mudança de intensidade. Até agora, dentro da democracia tutelada de Putin, podiam existir espaços que eram de alguma forma controlados e limitados. Na Duma, havia partidos do bloco presidencial que não estavam necessariamente de acordo em tudo com Putin ou com o partido Yedinnaya Rosiya (Rússia Unida). Também havia espaços sociais limitados onde a sociedade civil se podia articular livremente. O que vemos agora é a transição de uma forma autoritária de exercício do poder para uma forma totalitária: qualquer opinião diferente da propaganda oficial é criminalizada.

 

Através de Polanyi e Traverso falas da resposta reacionária a partir de cima de um sistema que está a fracassar. Em que medida esta fascização afecta outros âmbitos da sociedade russa?

Na teoria política clássica, em particular em Hannah Arendt, existe uma descrição interessante dos traços próprios do totalitarismo que se pode aplicar à Rússia atual. Arendt destaca que no totalitarismo não apenas há uma politização da sociedade – converter toda a gente em fiéis nazis –, como também, e sobretudo, uma despolitização da sociedade. E se observarmos a Rússia atual, chama a atenção que cada vez mais cidadãos evitam qualquer debate sobre a guerra, procuram reprimir as suas próprias objeções, manter-se à margem de qualquer conversa séria, em profundidade ou potencialmente controversa com colegas de trabalho ou vizinhos. A propaganda do regime não quer fazer com que as pessoas se envolvam politicamente mas meter-lhes medo de qualquer discussão profunda.

 

A propaganda russa tem sido precisamente um slogan mediático no ocidente. Como funciona esta propaganda russa?

Para compreender a propaganda do Kremlin há que saber que não se trata apenas de um trabalho de persuasão direta. A persuasão direta é possivelmente o aspeto menos eficaz e menos importante já que a receção de conteúdos requer um compromisso cognitivo ativo. Por seu turno, nas autocracias o impulso de se envolver ativamente é infinitamente mais fraco, uma vez que a experiência básica que acontece nelas é que o envolvimento político não influencia em nada a vida e não traz nenhuma mudança. A propaganda produz desvantagens políticas mas também vive das desvantagens políticas.

Daí que a propaganda não apenas trata de convencer mas também de gerar o cinismo político. Dado que a participação política de qualquer modo não serve para nada e a política é entendida como um trabalho de manipulação, as pessoas despolitizam-se. Esta passividade da população russa corresponde ao modo de atuar do governo. O Estado dedica-se mais a desmobilizar que a mobilizar. Em parte, não vê igualmente com bons olhos os movimentos de base auto-organizados que apoiam a narrativa oficial pois são difíceis de controlar. Com a sua propaganda, o regime não pretende tanto implantar o seu próprio critério nas cabeças dos cidadãos quanto dissuadi-los de qualquer ação política, mostrando também, se for preciso, do que o Estado é capaz do ponto de vista repressivo.

O regime não aspira a convencer as pessoas normais mas a reforçar a convicção dos ativistas que atuam em apoio ao Estado ou simpatizam com a doutrina oficial. O Estado intervém apoiando os ativistas que, por exemplo, criticam a Nato ou o Ocidente com esquemas mentais coerentes, complementando ressentimentos difusos ou ideias imaturas com uma narrativa concreta e facilitando os instrumentos retóricos para se poder argumentar.

O consenso social predominante é particularmente importante na formação da opinião. Ou seja, constroem-se os limites do que se pode expressar socialmente, da opinião socialmente desejada na sua interação com outras posições e a admissibilidade sugerida deste modo. As sondagens de opinião que se publicam repetidamente para demonstrar a popularidade de Putin ou o apoio generalizado à guerra de agressão revelam, por exemplo, que alguém defende uma opinião que supostamente mais ninguém partilha e dissuade as pessoas críticas face ao governo de expressar-se abertamente, ou empurram as pessoas inseguras numa determinada direção.

Se observarmos os meios de comunicação da propaganda do Kremlin, veremos que se trata de uma metodologia híbrida, uma combinação de redes sociais modernas baseadas na internet com formatos de notícias tradicionais como jornais e televisão. Na internet também se observam os efeitos indiretos da propaganda de que falámos. Assim, os bots não são utilizados para um trabalho de persuasão direta, pois por si só são relativamente fáceis de identificar como bots, mas melhoram, por exemplo o ranking de determinadas posições nos motores de pesquisa. Fazem com que a narrativa favorecida pelo Estado seja acessível com maior rapidez.

Os trols também não pretendem convencer as pessoas nas redes sociais mas dedicam-se a difundir comentários positivos sobre a narrativa oficial. Por outro lado, os trols dissuadem as pessoas de expressar a sua própria opinião; intimidam para que não se critique o discurso oficial. Neste trabalho de manipulação encaixa perfeitamente o motor de pesquisa Yandex, muito utilizado na Rússia. O Yandex adia sistematicamente determinadas percentagens de buscas, de forma que é muito mais improvável encontrar com rapidez informações sobre manifestações ou críticas ao Estado do que, por exemplo, no Google.

A preeminência de certas narrativas nas redes virtuais gerada desta forma coincide com a informação que aparece nos meios de comunicação tradicionais. Outro aspeto importante da propaganda russa é uma espécie de efeito de sincronização: diversos meios (redes sociais, imprensa, programas de televisão, etc.) transmitem (de maneira aparentemente independente) a mesma narrativa. Esta coincidência supostamente casual em diferentes canais confirma aos olhos de muitas pessoas a credibilidade da opinião oficial. Em psicologia falaríamos de coerência como heurística: se uma coisa é afirmada em todos os canais, então deve ser correta. Precisamente, as pessoas que não veem com olhos críticos o com ceticismo os conteúdos que se transmite, ou que também não sabem onde podem encontrar informações alternativas, qualificam a credibilidade em função do grau de standardização de certas posições ou narrativas.

Organização e ativismo

Quando Serguéi Zukásov e muitas outras candidaturas independentes à Câmara de Moscovo foram descartadas em 2019, o MSR saiu à rua para protestar contra a chamada democracia tutelada.

Sobre o ativismo prático do MSR, o que mudou desde 24 de fevereiro? Como se organizam e mobilizam agora?

O nosso objetivo atual é entrar em contacto com organizações de trabalhadores, estudantis e de defesa dos direitos humanos. Acreditamos que esta descentralização reforçará a segurança do MSR e, ao mesmo tempo, ajudará os nossos ativistas a empreender um verdadeiro trabalho de organização.

 

Segundo notícias que circulam nos países ocidentais, desde as imponentes manifestações massivas de 6 de março há cada vez mais ações individuais ou piquetes, em que uma pessoa ou um grupo muito reduzido mostram cartazes mas vez menos manifestações massivas. Isso reflete uma atomização do movimento anti-guerra?

Não se pode confundir descentralização com atomização, uma vez que esta última tem uma conotação negativa. Há, de facto, menos reuniões e estruturas organizativas que pretendem coordenar o movimento anti-guerra. Contudo, todos os dias nos chegam toneladas de notícias de todas as regiões da Rússia, de muitas universidades e empresas e de histórias individuais de resistência. Atualmente, o mais importante é que se tornem públicas. Para favorecer a divulgação das ações criou-se um canal de Telegram socialista titulado NIEVOINA [НЕВОЙНА em russo, NÃOGUERRA], que informa sobre estas ações descentralizadas. Por muito que as ações não estejam coordenadas, existe uma sensação de comunidade, de resistência coletiva. Basta ver como as pessoas reagiram ao ato anti-guerra da então redatora do Primeiro Canal da televisão, Marina Ovsiannikova. Foi um ato individual mas despertou um sentimento de solidariedade em milhões de pessoas.

 

Existe atualmente algum tipo de solidariedade ou cooperação ativista com grupos ou pessoas progressistas na Ucrânia?

Estamos em contacto permanente com os nossos camaradas ucranianos do Movimento Social e emitimos declarações conjuntas e organizamos atos em comum. Membros do nosso movimento residentes na Europa Ocidental ajudaram a encaminhar donativos para a esquerda ucraniana. Para além disso, difundimos os seus textos e artigos no Facebook, uma vez que isto tem uma importância decisiva para eles e para o mundo.

 

Uma pergunta que se colocam muitas pessoas pacifistas e de esquerda é como se pode ajudar o povo da Ucrânia? O que aconselham?

Diferentemente de 2014, a direita já não desempenha um papel tão central na guerra atual, que se tornou numa guerra do conjunto da população, e as pessoas da esquerda anti-autoritária da Ucrânia, Rússia e Bielorrússia lutam em comum contra o imperialismo russo. Para além dos donativos, é preciso potenciar a visibilidade da esquerda anti-autoritária da Ucrânia e Bielorrússia que está a lutar de armas na mão. Devemos entrevistá-los para que sejam escutados. No que diz respeito à esquerda ocidental, propomos que se avancem as seguintes reivindicações: apoio a todas as pessoas refugiadas na Europa independentemente da sua nacionalidade, cancelamento da dívida externa da Ucrânia e sanções aos oligarcas russos.

 

Na Europa Ocidental e Central quase só se ouve falar de Navalny e Jodorkovski no que diz respeito à oposição russa. Que peso têm as ideias e organizações progressistas e de esquerda, inclusivamente as marxistas? Onde os grupos de esquerda podem achar o seu lugar específico dentro da oposição e o distingue a esquerda?

As ideias marxistas têm uma oportunidade histórica de experienciar um renascimento na Rússia. Os preços aumentam e os despedimentos deixam centenas de milhares de pessoas abandonadas, sem sustento. A situação atual pode também ser vista sob uma perspetiva de classe: uma parte considerável dos soldados russos vem de regiões pobres, para eles o exército é a única maneira de ascender na escala social.

O papel dos marxistas consiste em cooperar com os sindicatos e levar a cabo um amplo trabalho de agitação. O MSR quer denunciar que esta guerra será paga, como sempre, pelos sectores mais empobrecidos. Publicamos muitas notícias no nosso canal de Telegram e concebemos táticas de agitação visual em todo o lado.

Ao mesmo tempo, consideramos que devemos estreitar laços com pessoas de esquerda de todo o mundo, incluindo a Ucrânia, os EUA, a Espanha ou a Grã-Bretanha. Entendemos agora que estes laços são decisivos, dado que a grande maioria da comunidade internacional responsabiliza Putin pela agressão e pela guerra. É uma mudança positiva e oferece uma boa oportunidade para a esquerda russa de pressionar o governo.

Porém, não devemos esquecer que a elite capitalista estrangeira colaborou com Putin durante vinte anos, e é tarefa da esquerda global pressionar os governos em todos os lugares. Na prática, as organizações de esquerda podem pressionar os governos para que fechem as contas de 20.000 multi-milonários russos, como recentemente propôs Thomas Piketty.

De igual forma, as organizações de esquerda deveriam elaborar a sua própria visão das relações internacionais e da arquitetura de segurança internacional, encaminhada para assegurar um desarmamento nuclear multilateral (vinculante para todas as potências nucleares) e a institucionalização de respostas económicas internacionais a qualquer agressão imperialista no mundo.

Política internacional

A guerra de agressão contra a Ucrânia deu lugar a uma reavaliação por vossa parte do papel geopolítico do governo de Putin e da Nato?

Vimos o imperialismo de Putin em ação. Nas décadas de 2000 e 2010, as ações do Estado russo na cena mundial seguiam três vetores diferentes. Por um lado, Putin institucionalizou e consolidou a integração da elite económica russa na economia mundial. Por outro lado, a direção russa tratou de assumir o papel de um centro imperial regional que controla as antigas repúblicas soviéticas, entre outras coisas através da criação de alianças e pactos económicos e políticos como a União Económica Eurasiática. Finalmente, Putin tentou desestabilizar a ordem mundial através de ataques informáticos, do financiamento de partidos de extrema-direita na Europa, etc.

O propósito de Putin era vincular a todo o custo a países como o Cazaquistão, a Arménia, a Bielorrússia e a Ucrânia à Federação Russa até ao ano 2024, quando estão previstas as próximas eleições presidenciais ou, pelo menos, impedir que se integrem nas estruturas político-militares internacionais ocidentais. Uma vez resolvidos os problemas com a Arménia, o Cazaquistão e a Bielorrússia, a direção russa, armada de uma ideologia nacional-imperialista, começou a guerra contra a Ucrânia.

Por outro lado, não parece que Putin tenha alcançado todos os seus objetivos com estas iniciativas. Os países ocidentais e a Nato não se dividiram mas pelo contrário uniram-se contra ele e aplicaram sanções até agora nunca vistas contra a Rússia. Ao mesmo tempo, o Ocidente não prestou à Ucrânia toda a ajuda com que esta contava. De certa forma, portanto, as estratégias dos imperialismos mudaram. O imperialismo russo iniciou uma guerra de conquista, enquanto que a Nato manteve a sua linha de debilitar a Rússia sem questionar a condição da Ucrânia como país não alinhado e sem passar a uma intervenção militar aberta: sanções, entrega de armas e ampla guerra ideológica contra a direção russa.

É importante repensar hoje os velhos tópicos, partilhados em grande medida pela esquerda, segundo os quais qualquer ditadura que se oponha à Nato pode não merecer apoio mas representa pelo menos um mal menor. O regime de Putin, ainda que à escala mundial seja muito mais fraco que os EUA e a Nato e não cumpra os cinco pontos da definição de imperialismo formulada por Lenine [2], constitui uma ameaça de primeira ordem, sobretudo para os seus vizinhos. O que deu corpo a esta ameaça é a tentativa de ascender ao primeiro nível dos imperialismos mundiais.

Há que acabar com esta rivalidade que conduziu o mundo à beira de uma guerra nuclear. A guerra de agressão foi um grande erro do regime russo, fazendo fracassar o projeto de um mundo multipolar associado em grande medida à ascensão da Rússia de Putin. Porém, isto não significa que voltaremos ao velho mundo unipolar sob direção da Nato nem que devamos contentar-nos com a paridade entre os EUA e a China que são as duas potências mais fortes nestes momentos. O resultado desta guerra deveria ser a aposta numa redução radical do papel de qualquer bloco militar e a renovação e democratização de estruturas internacionais como as Nações Unidas, aspirando a criar um sistema de segurança que seja do interesse de todos os países e não os obrigue a associar-se com um ou outro dos centros de poder.

 

Como podemos ajudar os ativistas do vosso país que se opõem ao governo de Putin? Que ajuda podem prestar as pessoas progressistas e de esquerda ocidentais?

1. Apoio económico: as pessoas das esquerdas ocidentais podem ajudar quem teve de fugir da Rússia por medo da repressão. Na maioria dos casos carecem de meios para se sustentar.

2. Tutoria: Temos de admitir que a esquerda russa não tem suficiente experiência na luta política e que necessita de conselhos práticos de ativistas mais experientes sobre como organizar um sindicato ou uma associação estudantil, como se faz agitação nas fileiras da classe trabalhadora e do movimento estudantil, como organizar a segurança do próprio movimento, etc. A esquerda russa poderia tirar proveito, por exemplo, de oficinas ou cursos virtuais gratuitos nos quais se intercambiassem experiências entre participantes.

3. Ajuda em campanhas informativas: A esquerda ocidental pode pressionar os setores da imprensa de esquerda que não dão voz à esquerda ucraniana e russa porque estas não adotam uma posição neutral no conflito violento e se negam a qualificá-lo como conflito interimperialista e porque reivindicam um apoio mais ativo à Ucrânia. Ainda que a esquerda ocidental não tenha de adotar este ponto de vista não deixa de ter um travo colonialista que a voz da esquerda russa e ucraniana seja negada e só se confie na elaboração estrangeira da guerra.


João Woyzek é membro da redação da revista Sozialismus, onde esta entrevista foi originalmente publicada.

Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net a partir da versão publicada no Viento Sur.


Notas:

1- No artigo surgem afirmações como estas: “O nacionalismo ucraniano é uma construção artificial anti-russa que carece de qualquer conteúdo civilizatório próprio, um elemento subordinado de uma civilização estrangeira. A dissolução do Estado como tal não bastará por si só para desnazificar a população: o elemento Stepan Bandera é apenas actor e um ecrã, um disfarce do projeto europeu da Ucrânia nazi, pelo que a desnazificação da Ucrânia também implica a sua inevitável deseuropeização”.

2- Lenine definiu o imperialismo em cinco pontos: 1) Concentração da produção e do capital num grau tão avançado que cria monopólios que se tornam decisivos na vida económica; 2) fusão do capital bancário com o capital industrial e formação de uma oligarquia financeira baseada neste capital financeiro; 3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância crucial; 4) formam-se associações capitalistas monopolistas internacionais que se espalham pelo mundo, e 5) conclui-se a divisão territorial do planeta entre las grandes potências capitalistas (O imperialismo, fase superior do capitalismo, 1916).

A economia russa baseia-se, contrariamente ao modelo de Lenine, sobretudo na exportação de mercadorias (e não de capitais para regiões periféricas do planeta), ou seja, sobretudo de matérias primas fósseis como o petróleo e o gás. Ao mesmo tempo, não se pode considerar que a Rússia seja um Estado dependente dos EUA e de outros Estados ocidentais do norte global, como demonstram as décadas de conflito diplomático e militar (ainda que não direto) entre a Rússia e o Ocidente. Para além disto, a Rússia estende a sua influência sobre outros Estados dentro e fora de Europa, ainda que isto se baseie antes demais no poderio militar da Rússia e não na sua su participação no capital financeiro global.

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