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A esquerda americana “feel the Bernie”

Bernie Sanders tem empolgado uma nova geração de ativistas com as suas propostas de uma revolução política que promova reformas estruturais no país. Tudo o que a esquerda socialista sempre sonhou! Só que com uma pequena “questão”: uma candidatura pelo Partido Democrata. Por Eduardo d’Albergaria
"Se um banco é demasiado grande para falir, é demasiado grande para existir" - campanha de Bernie Sanders

Vida de militante socialista nos EUA não é mesmo fácil.

Anos pregando pela construção de um partido independente aos dois que comandam a política americana… Mas sem alcançar muito sucesso…

Desde 1920, quando Eugene V. Debs recebeu 1 milhão de votos, os EUA não tinham uma candidatura auto-identificada com o socialismo que tivesse expressão no processo eleitoral.

Tirando o sopro libertário dos anos 60 e do “Occupy Wallstreet”, boa parte da sociedade americana nem toma conhecimento do que pensa a esquerda radical do país.

Em 2000, uma pedra no meio do caminho de quem defende uma esquerda independente: o reformista radical Ralph Nader lança candidatura pelo Partido Verde, conquista bons 3 milhões de votos – e no final sai acusado de ter tirado apoio democrata e com isso viabilizado a eleição de Bush (e toda a tragédia que se seguiu).

Em 2016 finalmente surge uma candidatura autoproclamada socialista. O senador por Vermont Bernie Sanders tem empolgado uma nova geração de ativistas com as suas propostas de uma revolução política que promova reformas estruturais no país.

Tudo o que a esquerda socialista sempre sonhou!

Só que com uma pequena “questão”: uma candidatura pelo Partido Democrata.

O mesmo Partido Democrata que a esquerda americana chama de “o segundo em entusiasmo na defesa do capitalismo”. O mesmo partido que no passado defendeu a escravidão, jogou duas bombas atómicas sob o Japão e iniciou a Guerra do Vietname.

Um partido que a esquerda socialista americana acredita ser irreformável e indisputável.

Para a esquerda americana a democracia representativa e a oligarquia Democrata estão capturados pelos 1% denunciados pelo movimento “Occupy Wall Street”. As últimas eleições gerais em 2012 custaram nada menos do que 6.3 bilhões de dólares

Afinal a “Corporate América” tem os Democratas no Bolso: as graúdas contribuições aos candidatos são usadas para contratar um exército de funcionários/votos para trabalhar em suas campanhas.

Esse mesmo dinheiro é usado para comprar espaços privilegiados de TV (nos EUA não há horário eleitoral gratuito – portanto sem dinheiro nenhum candidata/o se faz conhecido durante o longo processo eleitoral, que dura mais de um ano).

Uma eventual candidatura contra-hegemónica no partido Democrata também tende a ficar invisível nos telejornais do media empresarial. Que, por motivos óbvios, apoia candidatos mais interessantes para seus negócios e de seus parceiros.

Num processo eleitoral longo e complexo, pode se ter interpretações mil de quem perdeu ou ganhou cada debate, cada votação, cada pesquisa de opinião. E é nesses meandros de possíveis leituras que a media grande vai costurando profecias auto-realizadas. (As tais narrativas de “momentums”).

Há ainda a burocracia do Partido para dificultar a vida de qualquer candidatura insurgente. Com dirigentes locais eleitos por meio do apoio de dirigentes nacionais, o poder da cúpula partidária chega até o chão do colégio eleitoral.

Esse monstruoso volume de recursos políticos e financeiros nas mãos do “Establishment” tem sido capaz de esmagar eventuais candidaturas de esquerda no interior do partido.

Já aconteceu na História de uma candidatura contra-hegemónica ser a exceção da regra: George McGovern venceu as prévias de 1970 na maré dos movimentos pacifistas contra a guerra do Vietname.

Resultado: parcela considerável da oligarquia democrata e os seus tradicionais financiadores de campanha resolveram ajudar o Republicano Nixon a chegar à Presidência.

E para impedir que novamente candidatos surpreendam o jogo de cartas marcadas, a cúpula Democrata criou mais uma barreira: as/os SuperDelegados – em que aproximadamente 20% do resultado da convenção eleitoral fica na mão da cúpula partidária.

Em resumo: para a esquerda americana a democracia representativa e a oligarquia Democrata estão capturados pelos 1% denunciados pelo movimento “Occupy Wall Street”.

As últimas eleições gerais em 2012 custaram nada menos do que 6.3 bilhões de dólares.

Bernie, o democrata

Mais eis que surge a candidatura de Bernie Sanders pelo partido Democrata, recusando contribuições empresariais de campanha – posição avançada que até parte da esquerda socialista brasileira resiste em assumir.

Uma candidatura bastante moderada para quem é carregado nas tintas vermelhas. Mas que no contexto americano, traz propostas bastante contundentes.

Sobretudo para quem acredita que uma plataforma de reformas estruturais lastreada na mobilização popular pode gerir horizontes mais interessantes.

Para quem é partidário de programas de transição as propostas de campanha de Sanders são um bom início de conversa.

A candidatura de Sanders veio falar coisas que a esquerda radical vinha dizendo há anos e pouca gente ouvia. O fogo se espalhou igual em mato seco

Afinal qual seriam os efeitos nas dinâmicas da lutas de classes americana se um governo revertesse o encarceramento em massa de pobres (mais de 2 milhões de pessoas), sobretudo negros e latinos; de estabelecer a saúde como direito; expandir a gratuidade do ensino público… E mais importante: travar a farra de Wall Street!?

A candidatura de Sanders veio falar coisas que a esquerda radical vinha dizendo há anos e pouca gente ouvia.

O fogo se espalhou igual em mato seco.

Contribuições individuais e de sindicatos começaram a cair na conta da campanha, batendo, já nas primeiras semanas, recordes de financiamento por pessoa física. Superando o volume de arrecadação de todos os outros candidatos – mesmos todos eles recebendo dinheiro de corporações.

Em Austin-TX, em Detroit-MC, Miami-FL, em todos os eventos da campanha, Sanders tem atraído dezenas de milhares de pessoas. Batendo o recorde entre todos os concorrentes com 34 mil pessoas em Seattle.

Para além de uma estrutura profissional, estão florescendo grupos voluntários de apoiadores/as empolgados/as pela campanha. Gente que pela primeira vez participa de um movimento político e está indo de casa em casa, participando de passeatas e atuando na internet (Sanders vence de Hillary no número de seguidores e alcance de postagens nas redes sociais).

Tirem as mãos da segurança social

A candidatura de Sanders criou ainda uma ferramenta curiosa de mobilização: um banco de telefones em que pela internet os apoiadores podem entrar em contacto com eleitores democratas em todo o país.

São dezenas de milhares de pessoas – sobretudo jovens – fazendo a experiência de construir um movimento político, organizar gente, debater ideias e enfrentar as trauletadas do sistema: as manipulações de informações pela media empresarial, as manobras da maioria partidária….

Não existe nada que ensine tanto quanto se colocar em movimento!

A revolução política já está acontecendo. Independente de qual venha a ser o resultado eleitoral.

Esse fenômeno surpreendeu não só ao público em geral, mas até mesmo a esquerda radical.

A esquerda fora da campanha Sanders

Pelo menos três importantes organizações da esquerda americana não estão apoiando Sanders: o Partido Verde, a ISO e o Solidarity.

O Partido Verde é o partido de esquerda mais estruturado nacionalmente nos EUA. Os verdes têm um histórico de candidaturas alternativas com capacidade de aglutinar outras organizações e ser polo de unidade da esquerda socialista.

Um desses grupos que comummente apoiam as candidaturas do Partido Verde é a ISO -International Socialist Organization. Uma das correntes de esquerda com maior número de ativistas no país, que publica o portal e jornal Socialist Worker e os livros Haymarket.

A cada eleição a esquerda sofre uma pressão enorme para votar no “less evil” – Democrata – e evitar a vitória Republicana

Apesar do nome “internacionalista”, o ISO não faz parte de nenhuma das correntes internacionais de tradição trotskista, desde que saíram da IST de origem inglesa.

Já o Solidarity matem relações de colaboração com a IV Internacional e no Brasil com a corrente Insurgência do PSOL.

Tanto ISO, Solidarity, quanto o Partido Verde apresentam uma preocupação importante em relação à candidatura de Sanders: o risco dela drenar as energias da esquerda social novamente para dentro do partido Democrata e esvaziar movimentos de contestação.

Isso já aconteceu diversas vezes ao longo da história norte-americana.

Nos anos 1960s, em plena ascensão do movimento negro e do movimento contra a guerra do Vietname, o ativista de origem trotskista Max Shachtman chegou à conclusão de que o Partido Democrata poderia ser transformado numa organização trabalhista de massas.

Essa estratégia de “Realinhamento”, como ficou conhecida, atraiu ainda Bayard Rustin, liderança negra ex-Comunista e próximo de Martin Luther King, Jr.

Eles concluíram que uma aliança entre a esquerda, a emergente coligação em torno do movimento por direitos civis negros e organizações sindicais (AFL-CIO) poderia empurrar para fora do partido os setores racistas e conservadores que controlavam a agremiação no Sul do país (os ‘Dixiecrat’).

De facto o setor conservador acabou abandonando os Democratas. Mas isso não significou que este se tornasse um partido de esquerda aos moldes da social-democracia europeia daqueles tempos, como previa a tese do “realinhamento”.

O presidente Democrata Lindon Jhonson, eleito com uma plataforma de superação da pobreza, enviou meio milhão de soldados para o Vietname – com apoio entusiasmado da burocracia sindical no interior do partido Democrata.

Paul Heideman – PhD em Estudos Americanos – conta em seu artigo “It’s their Party” como que Shachtman, Rustin e os defensores do “realinhamento” ao vez de mudarem o partido Democrata, se tornaram eles mesmos porta-vozes de posições conservadoras da liderança partidária.

Mesmo nos dias de hoje, as energias dos movimentos contrahegemónicos continuam sendo drenadas para dentro do Partido Democrata e esvaziadas.

A cada eleição a esquerda sofre uma pressão enorme para votar no “less evil” – Democrata – e evitar a vitória Republicana.

O movimento anti-guerra, por exemplo, entre 2002-2007 foi um importante protagonista das lutas travadas no país. Mas foi Obama ganhar que as mobilizações se dissiparam e até as marchas a Washington, que aconteciam anualmente, pararam de ser organizadas.

E isso durante o governo que não só não desmontou como intensificou a intrusão norte-americana no Oriente Médio.

Mesmo sem apoiar a candidatura, ISO, Solidarity e os Verdes mantém uma política não sectária de diálogo com os apoiadores de Sanders. E festejam a mobilização que a candidatura está causando; por recolocar a palavra socialismo no debate nacional; por deslocar o imaginário político no País à esquerda e por desvelar a burocracia que controla o partido Democrata

E a esquerda receia que o partido Democrata drene a força social dos movimento surgidos nos últimos anos: Occupy Wall Street, Black Lives Matter, Minimum Wage…

É verdade que a esquerda tem ainda diversas críticas aos limites da visão internacionalista de Sanders: uma certa timidez em se opor à máquina de guerra americana e às violações de direitos de palestinos. Um certo corporativismo nacionalista quando o assunto é a transferência de indústrias e empregos dos EUA para a China, México e Vietname. E mais tantas outras questões.

Mas não são esses limites que impedem o apoio a Sanders. A candidatura de Nader pelo Partido Verde em 2000, por exemplo, também continha diversos limites e isso não impediu ISO e outras correntes de apoiá-la.

O que impede o apoio a Sanders é fundamentalmente o facto de ser uma candidatura pelo partido Democrata. E sobretudo sua declaração inicial de que apoiaria Hilary numa eventual vitória nas prévias (nessa altura do campeonato ele já fala em condições para um eventual apoio).

Mas mesmo sem apoiar a candidatura, ISO, Solidarity e os Verdes mantém uma política não sectária de diálogo com os apoiadores de Sanders. E festejam a mobilização que a candidatura está causando; por recolocar a palavra socialismo no debate nacional; por deslocar o imaginário político no País à esquerda e por desvelar a burocracia que controla o partido Democrata.

O partido Verde está organizando uma candidatura própria, provavelmente de Jill Stein, a ser lançada no segundo semestre com apoio de ISO e Solidarity.

A expectativa é de que numa eventual derrota de Sanders nas prévias democratas, uma parte do movimento em torno dele opte pela candidatura Verde nas eleições gerais.

Esquerda socialista na campanha Bernie

A candidatura Bernie foi capaz de aglutinar diversos grupos organizados da sociedade americana: o “Working Families Party”, “National People’s Action”, “Democracy for America”, “Progressive Democrats of America”, grupos de articulação pela internet como o MoveOn e ainda ativistas de movimentos mais amplos como o “Black Lives Matter” e os “Dream Defenders” (que lutam por direitos de imigrantes latinos e suas famílias).

Banner da campanha de Bernie Sanders

Recebeu ainda apoio de duas importantes correntes da esquerda socialista: DSA – Democratic socialists of America – corrente que publica o portal Jacobins – e a Socialist Alternative – que ficou conhecida pela eleição da vereadora Khsama Shawan em Seatle e no Brasil mantém relações de colaboração com a corrente LSR do PSOL.

Algumas lideranças da DSA argumentam que os Democratas não são um partido. Mas uma frente eleitoral sem qualquer controle sobre seus filiados. O que possibilita que Sanders tenha uma candidatura totalmente independente ao dinheiro dos “Super PACs” da “Corporate America”.

Já a Socialist Alternative argumenta que ao participar da campanha de Sanders, a esquerda tem melhores condições para convencer parte do movimento em torno da candidatura a não apoiarem Hilary – caso ela vença as prévias. E que esse diálogo poderia até mesmo desencadear a construção de uma alternativa à esquerda ao partido Democrata.

Essas correntes tem conseguido atrair para si um volume considerável de ativistas entre os apoiadores de Sanders. Mas ainda é difícil avaliar qual a real influência desses agrupamentos nos rumos mais gerais da campanha.

A novidade Bernie

Essa eleição parece estar inaugurando um novo período na política dos EUA (já esboçado na campanha de Obama em 2002).

Pelo visto novos horizontes se abriram com o crescente peso da internet nas eleições – criando alternativas de circulação de informações, barateando e viabilizando candidaturas militantes. Que somado à dramaticidade do fosso económico que tem se aberto nos EUA – onde 400 famílias concentram metade da enorme riqueza do país – produziram o fenómeno Sanders.

A candidatura Sanders – como de Trump pelo campo oposto – tem demonstrado que as instituições que tradicionalmente monopolizam o poder político podem estar sob ameaça.

Mas quais são os limites desse levante?

Para onde rumará a força aglutinada por Sanders após as eleições?

Esses novos ativistas se engajarão na construção dos movimentos sociais?

Algumas iniciativas dão esperanças que sim. Como o “Labors For Sanders” em que trabalhadores têm construído núcleos de apoio à candidatura independente da burocracia sindical – que tem apoiado Hillary.

Que armas os 1% poderiam ainda usar para tentar mais uma vez barrar que ideias de esquerda floresçam nos EUA? Um novo Macartismo, agora sob vigilância da NSA (em parceria com as corporações de TI?), estaria no horizonte do possível?

Será que a maioria da população americana – nessa eleição ou num período bem próximo – está mesmo aberta a abraçar um ideário socialista libertário?

É difícil a partir de fora chegar a conclusões definitivas. Mas a luz da nossa experiência brasileira, algumas ideias sempre veem à cabeça.

Afinal, se você fosse um/a militante norte-americano que tipo de relação você teria com a candidatura Sanders?

Artigo de Eduardo d’Albergaria, cientista social por formação; especialista em políticas públicas por profissão; socialista por opção. Publicado em: insurgencia.org.

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