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Espanha: vitória europeia do PSOE ensombrada por alianças locais direita/extrema-direita

O PSOE ganhou claramente as eleições europeias. Ao nível autonómico e local os socialistas também obtiveram um resultado positivo com exceções em algumas zonas onde direita e extrema-direita conjugam esforços, nomeadamente em Madrid. As candidaturas do “cambio” perderam as câmaras mais emblemáticas.
Manuela Carmena
Conferência de imprensa de Manuela Carmena, presidente derrotada da Câmara de Madrid. Foto de Ballesteros/EPA/Lusa

As eleições europeias eram vistas como uma espécie de barómetro para as negociações do próximo governo que, depois das eleições de finais de abril, ainda não está formado. Governo minoritário do PSOE, entrada do Podemos no governo, ou mesmo aliança com o Ciudadanos, para além das modalidades diferentes de apoio ao governo dos independentistas, são debates que têm estado em cima da mesa.

Nesse sentido, com estas eleições o PSOE ganhou ainda mais espaço político. Com cerca de 33% e 20 eurodeputados, o seu resultado representa uma subida de mais de 10% relativamente às europeias anteriores e de 4% relativamente às recentes legislativas.

Sem grandes surpresas, o PP sai derrotado. Mas no campeonato particular da disputa da hegemonia na direita espanhola não fica a perder. Assim, para o PP a descida de 20% e a perda de quatro eurodeputados relativamente às europeias de 2014 acaba por não ser o pior dos cenários possíveis. Como prémio de consolação, o partido tradicional da direita espanhola tem mesmo uma subida de três pontos percentuais relativamente às recentes legislativas.

O Ciudadanos alcança os 12% e elege sete eurodeputados. Mas diminui quatro pontos relativamente às legislativas.

A candidatura Unidas Podemos reconheceu estes resultados como a derrota. Os seus seis eurodeputados são menos metade do que a soma de 2014 entre Podemos e Izquierda Plural.

Por sua vez, a coligação de partidos independentistas para as europeias denominada Ahora Repúblicas, que juntava a ERC da Catalunha, o Bildu basco e o Bloco Nacionalista Galego consegue eleger três eurodeputados. Na disputa entre os independentismos catalães é a esquerda da ERC que sai a ganhar face ao Junts per Catalunya que também elege para Bruxelas. E, com a eleição dos independentistas catalães Carles Puigdment e Oriol Junqueras, perseguidos judicialmente, mais um desafio é lançado ao estado espanhol uma vez que estes terão de cumprir trâmites burocráticos em Espanha até tomar posse.

Na extrema-direita, o Vox vê barrada a dinâmica da crescimento que queria criar. Desce em comparação com as legislativas 10% e elege apenas três deputados para o parlamento europeu.

Vox: já passámos

Só que a extrema-direita pode cantar vitória num aspeto em particular: a sua normalização. A partir da lógica de medição de força entre blocos esquerda/direita, os neo-franquistas ganham força para entrar em vários executivos autonómicos e locais e decidir a sorte de vários outros, aumentando assim a sua influência.

Mas nem por isso, esta formação diminui o seu pendor extremista. Na sua conta de twitter, uma das formas escolhidas para celebrar os resultados em Madrid foi partilhar a foto da Câmara madrilena com uma legenda franquista: o “já passámos” com que as forças fascistas celebraram a derrota do “não passarão” da República Espanhola.

Autonómicas: Podemos falha o poder, Madrid com sabor amargo para a esquerda

Para além do resultado europeu não ser positivo, o Podemos falha ainda em vários locais onde colocava o intento de se apresentar como decisivo para constituir maiorias. O que, por sua vez, tinha sido apresentado como uma possível arma para reforçar a sua pretensão de entrar no governo espanhol com o PSOE.

Apenas nas Baleares, Canárias e La Rioja, o Podemos decide se o PSOE fica com a maioria. Nas Astúrias é dispensável mas pode entrar em coligação com PSOE e Esquerda Unida. Nas Baleares e nas Canárias o fator decisivo são as negociações com as forças locais. Em todos os casos poderá entrar nos governos mas em posição de fraqueza.

O Podemos perdeu votos a nível regional em quase todo o país e perde representação em Valência, Cantabria e Castilla La Mancha.

Tanto que os socialistas espanhóis desafiam agora o Ciudadanos para, pelo menos em termos regionais, não pactuar com a extrema-direita e se juntar às suas maiorias. Um piscar de olhos que pode, ou não, ter desafio equivalente a nível nacional.

O PSOE ganha claramente nas eleições autonómicas mas a nota dissonante da comunidade de Madrid mancha o brilhantismo dos resultados. Ángel Gabilondo do PSOE até conseguiu 37 lugares e ser o mais votado face aos 30 do PP que perdeu 18 lugares. Ainda assim, trata-se de uma derrota da esquerda na comunidade de Madrid. É esperado que Ciudadanos com 26 lugares e o Vox 12 se juntem ao PP no governo regional. Íñigo Errejón obteve 20 lugares. Mas a ex-estrela do Podemos é um dos derrotados da noite eleitoral porque não logra ser uma carta determinante no jogo do poder madrileno.

Na Estremadura e em Castilla-La Mancha, os socialistas chegam à maioria absoluta. Nas Astúrias ficaram a três lugares da maioria absoluta. E em La Rioja, região historicamente do PP, têm de apenas somar o partido de Iglesias para obter maioria. Ganham ainda as Baleares e Castela e Leão, outra zona histórica do PP. Mas aqui o PP fica no governo com a provável coligação com o Ciudadanos.

Em Navarra a direita, Ciudadanos e Unión del Pueblo Navarra, vence sem maioria. Em Aragão, com os resultados próximos entre o PSOE e o bloco da direita, é o Partido Aragonés quem decide quem ficará no governo.

Municipais: Cambio? Tudo cambia…

José María González, alcaide de Cádiz

Foto de Serginho 78/wikicommons

Nas eleições autárquicas anteriores, uma vaga de candidaturas que juntavam o Podemos, movimentos cidadãos entre outros grupos tinha-se espalhado no país. Os munícipios do “cambio” pretendiam ser uma nova geração de poder local mais participativo e em defesa dos serviços públicos locais. Com estas eleições desaparecem em grande medida. Com a exceção de Cádiz, onde o alcaide, José María González dos Anticapitalistas, minoria do Podemos, reforça o seu resultado ficando a um lugar da maioria absoluta.

Em Valência, a esquerda também resiste no poder. Joan Ribó, do Compromís en Valencia também resiste: consegue ser o partido mais votado com 27% dos votos, unir-se-à ao PSPV-PSOE, apesar do Unides Podem-Esquerra Unida ter ficado sem representação quatro anos depois de se ter apresentado como València en Comú e ter obtido três lugares. E Zamora é a outra excepção às derrotas da esquerda à esquerda do PSOE.

Madrid foi uma derrota pesada para a esquerda dividida. A alcadesa Manuela Carmena foi a candidata mais votada em Madrid mas perde cerca de 20 mil votos. E José Luis Martínez Almeida do PP prepara-se para governar a capita com o apoio de Ciudadanos e Vox. A candidatura Madrid en Pie que juntava à esquerda a Izquierda Unida, os Anticapitalistas e a Bancada Municipalista não consegue resultados significativos, ficando sem representação.

Em Barcelona, a Esquerda Republicana venceu as eleições municipais, ditando o fim da presidência de Ada Colau, mas terá ainda de negociar com outras forças para constituir maioria.

Saragoça, Coruña, Ferrol e Compostela foram ganhas pelo PSOE. Sevilha viu reforçada a maioria socialista. E os socialistas recuperam Cáceres, Sabadell e Palencia.

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