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Entre o luto e a saudade: um panorama do maior desastre ambiental do Brasil

É importante lembrar que o rio não é só água em movimento, mas também funciona como transporte de nutrientes para o mar. Por Caio Santos.
Foto de Senado Federal/Flickr

Quem chega a Gesteira, distrito rural no município de Barra Longa, Minas Gerais, nunca vai imaginar que antes passava um córrego com água cristalina e que havia um campo verde amplo na frente, onde bois e cavalos pastavam. Porque quem chegar hoje a Gesteira não verá um pasto, nem um animal ou um riacho. Verá apenas uma gigantesca lagoa de barro escuro onde antes era um vale. Os moradores descrevem-me, entre o luto e a saudade, a paisagem onde cresceram e que, provavelmente, nunca mais verão na vida.

Mais de dez dias após a queda das barragens da mineira Samarco, ainda se desconhecem todas as extensões do impacto ecológico liberatado na forma de 62 milhões de litros de lama residual da mineração. O barro de dejetos saiu de Bento Rodrigues, na cidade histórica de Mariana, em Minas, e ainda percorrerá mais de 850 km até chegar ao mar, deixando um rastro de destruição à fauna, à flora e às comunidades que estiverem no seu caminho. Só é preciso observar a área destruída — seja do leito do rio, seja do espaço— para compreender que é um dos maiores desastres ambientais na história do Brasil.

No entanto, ainda há muitas perguntas buscando entender como esta tsunami de lama afetou todo um ecossistema. Aqui está um panorama do que já sabemos. 

Lama Tóxica?

Para ter compreensão do impacto é preciso primeiro entender qual é o conteúdo da enxurrada de lama que vem das minas. Segundo a mineira Samarco, as barragens apenas continham dejetos de minério de ferro e manganês, misturados basicamente com água e areia. A empresa insiste que o material é inerte, não causando danos ao ambiente ou à saúde. No entanto, análises do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Baixo Guandu, Espírito Santo, mostram a presença de diversos metais pesados na água do Rio Doce, como arsénio, mercúrio e chumbo.

Estes elementos são extremamente tóxicos para o ambiente e para a saúde humana, sendo absorvidos nos corpos dos diferentes organismos e dificilmente eliminados. Normalmente, acumulam-se nos tecidos de seres vivos e, com o tempo, na própria cadeia alimentar. Ao ingerir a carne ou folhas contaminadas, o metal pesado não é processado, envenenando o bicho ou pessoa que consumiu a comida intoxicada. Com o tempo, os metais pesados podem gerar problemas sérios à saúde, como cancro, úlceras e danos neurológicos.

Na tarde de sábado, 14/11, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, apresentou um laudo da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) negando a existência de metais pesados na água e contrariando os laudos de Baixo Guandu. Nesta quinta-feira, 12/11, uma equipa de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também foi recolher amostras da lama e da água no Rio Doce para apurar o grau da devastação e verificar, entre outros aspectos, a presença de metais pesados. Ainda resta esperar os resultados da investigação dos cientistas mineiros, que devem chegar no decorrer da semana. 

O Fim da Vegetação

No entanto, mesmo sem arsénio e mercúrio e ao contrário do que a empresa mineira sugere, a lama está longe de ser inofensiva. Apesar da presença do ferro e manganês não significar um perigo à saúde, estes elementos causam consequências profundas à terra.

“O ferro (e o manganês) tem uma facilidade muito grande de reação, sendo um ligante pela sua própria natureza. No caso, essa lama vai formar uma capa muito dura devido à presença do ferro. A tendência é fazer uma ligação muito forte e ficar sobre a superfície formando uma crosta” — diz a professora do Instituto de Geociências da UFMG e especialista em geologia ambiental, Leila Menegasse. Segundo ela, esta cobertura poderá impedir a infiltração da água e também cobrirá a própria vegetação, tornando o ambiente estéril.

“As raízes ficam soterradas, desaparece a possibilidade da fotossíntese porque a água fica muito turva e as folhas ficam todas fechadas pela deposição de materiais. As plantas que entrarem em contato com essa lama certamente irão morrer” acrescenta o professor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, Francisco Barbosa.

Rio Doce Morto

Quem se aproximar do Rio Doce, seja em Minas seja no Espírito Santo, vê-lo-á acastanhado, escuro e com diversos detritos boiando. Essa imagem não é apenas feia e desagradável, é também extremamente danosa à vida aquática. Esse barro, mesmo diluído, torna a água turva e barra a passagem de raios solares, escurecendo o rio e impedindo que algas façam fotossíntese. O baixo nível de oxigênio na água é insustentável para os animais, fazendo com que, em um ato de desespero, muitos peixes simplesmente pulem para fora da água.

Se em cima os cadáveres boiam, em baixo o rio encolhe. “Toda essa área que recebeu uma carga de segmentos irá sofrer um processo de deposição de material no fundo do rio. Isto vai aumentar a altura da calha e, grosso modo, vai entupir o rio” explica o coordenador do Centro de Pesquisas Hidráulicas, Carlos Barreira Martinez. O processo é intensificado pela destruição da mata auxiliar, ainda existindo a possibilidade da lama cobrir as nascentes, diminuindo consideravelmente o volume da água. Esta perda não significa apenas menos água, mas compromete sua qualidade e torna-a imprópria para o uso.

Os mananciais oriundos do Rio Doce são usados para abastecer diversas comunidades rurais, seja para o uso pessoal, seja para irrigação de plantações ou consumo pelo gado. Essas comunidades rurais serão profundamente afetadas e não poderão voltar a recorrer ao rio. Mesmo considerando apenas a população urbana, a enxurrada de lama passa por, no mínimo, 23 cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo, o que representa meio milhão de pessoas com a torneira seca.

Milhares de pessoas sem água

A cidade mais afetada pelos dejetos da Samarco é também a maior da bacia do Rio Doce: Governador Valadares, Minas Gerais, com 280 mil habitantes. Mesmo a 300 km de Mariana, a sua SAAE, num estudo preliminar da água, encontrou um nível de turbidez oitenta vezes maior ao tolerável, além de níveis de ferro que chegaram a superar treze mil vezes o tratável. Esta condição insalubre do rio fez com que o abastecimento de água fosse cortado no domingo, 08/11. Dois dias após a interrupção, a prefeita Elisa Costa declarou o estado de calamidade pública.

“Todos os dias esse caos. Todos os dias pessoas a transportar água. Toda a gente a carregar água como pode”, descreve Marcos Renato, habitante da cidade. Em longas filas, a população gasta horas em pontos de distribuição de água, sofrendo, além da seca e da sede, das altas temperaturas. “Estamos a atender normalmente nas unidades de saúde e a preparar-nos para possíveis doenças que venham a surgir pela falta de água e pelo uso da água contaminada. Enfim, a situação aqui não está nada fácil” comenta Flávia França, médica local e membro da Rede de Médicas e Médicos Populares.

Segundo a prefeitura do município, as companhias Samarco e Vale fizeram poucos esforços para ajudar a população. Na sexta-feira, 13/11, numa nota a empresa mienira comunicou que só tinha aceite pagar os camiões pipa. Mais tarde nesse dia, a primeira remessa de água, com 280 mil litros, estava contaminada com querosene, não servindo para consumo. A situação só começou a melhorar no sábado, quando o governador de Minas, Fernando Pimentel, anunciou o uso de um coagulante que permitirá o tratamento da água. A substância facilita a separação da lama e da água, permitindo assim que ela seja filtrada e volte a ser potável. A expectativa é que o abastecimento na cidade retorne nesta segunda-feira, dia 16/11.

Um Oceano Inteiro Afetado

É importante lembrar que o rio não é só água em movimento, mas também funciona como transporte de nutrientes para o mar, que acabam sustentando diversos organismos.

Coincidentemente, na foz do Rio Doce, ocorre também o encontro de correntes marinhas do Sul e do Norte, formando um “remoinho” de água de cerca de setenta quilômetros de diâmetro. Esta área é rica em nutrientes e também reúne espécies marinhas de todo o mundo. Por isso, segundo o diretor da Estação de Biologia Marinha Augusto Ruschi, o biólogo e ecólogo André Ruschi, a foz do Rio Doce torna-se uma dos maiores pontos de desova de peixes marinhos do mundo.

“É o maior criadouro do Oceano Atlântico. Todos os grandes peixes do Oceano, do hemisfério sul e norte, vêm lá para se reproduzir, sendo um fenómeno impar. É uma das regiões marinhas mais importantes do planeta e, da costa brasileira, é a mais sensível de todas”. A chegada de diversos dejetos da mineração significa um risco para todo o ecossistema do oceano. Como ainda há a hipótese da presença de metais pesados na lama, há a possibilidade de contaminação da imensa biodiversidade do local. Todos os seres vivos, desde o minúsculo plâncton ao gigante marlim, podem acabar envenenados por estes elementos.

Recuperação?

Há ainda muitas dúvidas em relação a como e quanto o ambiente será afetado pela lama da Samarco. Mas uma merece destaque: é possível recuperar o estrago? Ainda é muito cedo para afirmar com certeza, porém estipula-se que o volume de água do rio talvez será o primeiro a normalizar.

“A natureza é muito mais forte do que podemos imaginar. Com o passar do tempo e muito lentamente os rios vão se recuperando. A vida dos habitantes vai voltar a ocupar o rio e ele, numa ou em duas décadas, vai se recuperar. O que é muito tempo.” afirma o coordenador do Centro de Pesquisas Hidráulicas, Carlos Barreira Martinez. No entanto, para que isto ocorra é necessário que a lama se dilua e escorra para outras áreas, o que só é possível com a ação da chuva. A seca que a região sudeste enfrenta agrava este cenário, atrasando muito uma possível revitalização do Rio Doce.

Obviamente, a biodiversidade animal e vegetal da região não pode esperar décadas para ver o rio novamente. “O conjunto de seres vivos vai estar todo ameaçado e vários desses organismos vão desaparecer, ainda que, esperemos, seja localmente. Eventualmente alguns desses organismos podem ter a hipótese de voltarem a colonizar essas áreas. Para que isso aconteça, vão precisar de tempo. No entanto, outros organismos não vão ter a hipótese de colonizar porque é necessário um tempo muito mais longo para que as cadeias alimentares se restabeleçam” explica o professor do ICB da UFMG, Francisco Barbosa. Ele estima que o começo dessa recuperação só irá acontecer num futuro distante, precisando de 20 a 30 anos para a maioria dos diversos processos se sucederem.

Mas, se este prazo já é muito grande no continente, no oceano, ele é ainda maior. O especialista em biologia e ecologia marinha, André Ruschi lembra que a chegada de nutrientes ao oceano depende dos ciclos da maré, definidos pelos movimentos dos astros, como a lua e o sol: “A cada onze anos, com as enchentes, as cheias carregam grandes quantidades do material do rio para o mar”.

Como a região também é onde ocorre a confluência de espécies e correntes de todo o Oceano Atlântico, sendo uma das áreas de maior biodiversidade no mundo, o impacto, segundo o cientista, representará um atraso de séculos ao ecossistema.

Artigo publicado originalmente em Carta Maior

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