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Então, as palavras

São elas que me socorrem também, quando a porta se fecha, já em Caxias. “Rosas Vermelhas”, Manuel Alegre: “em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto” – e sinto um estranho orgulho nesse posto. Por Diana Andringa.

 

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


Então, as palavras

Começou ainda na António Maria Cardoso. A agente que puseram a guardar-me, de uma idade que me pareceu próxima da minha, perguntou-me qual a razão da minha prisão. Disse-lhe presumir ser um erro e lamentei o tempo que estava a perder: copy-writer numa empresa de publicidade, devia apresentar no dia seguinte uma proposta de campanha. Era o anúncio de uma gabardina, de um tecido novo, totalmente impermeável… “Tornado” parecer-lhe-ia um bom nome? E “ciclone”? Demasiado óbvio, talvez?

Dos nomes passei a ideias para o filme anúncio. Pelo meio, cantava. “La poesia es una arma cargada de futuro”. O  poema de Celaya. Depois Manolo Diaz, “la juventud tiene razón/ hay que seguir luchando/ por un mundo mejor donde se grite la verdad”.

As palavras, então. Mais impermeáveis ainda que o novo tecido da gabardina cuja publicidade não farei.

São elas que me socorrem também, quando a porta se fecha, já em Caxias. “Rosas Vermelhas”, Manuel Alegre: “em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto” – e sinto um estranho orgulho nesse posto. Como se pudessem ouvir-me, desejo as boas-noites a todos os presos que recordo. Tenho medo e tremo de frio, não consigo adormecer, mas tenho um muro de palavras a proteger-me: Daniel Filipe, “Ó meu amor resiste/Resiste os olhos secos/Sem lágrimas Sem medo Só talhada/no sílex da ira”.

Ao longo dos dois meses e alguns dias de isolamento, é esse o muro que me defende. Palavras batidas na parede, trocadas com a Zé Catanho, na sala ao lado, primeiro baralhadas pela inclusão do K, W e Y nas batidas dela, depois compreensíveis, lentas, muito lentas – “ 1 é A, 2 é B”. “E 3?” “Três é burro!”, tinham-me explicado. Um Z significava 23 batidas, e no nosso processo havia mais um Zé e um Zefus a demorarem as informações…

Palavras ditas, recitadas, cantadas – se se admitir como cantar aquilo que fazia… Cada palavra, cada poema, cada canção convocando memórias, enchendo a cela vazia – com vista para árvores, estrada, o guarda-republicano na sua guarita, vislumbre de casas de um bairro onde todas as noites uma voz de mulher gritava “Vitinho! Vem para casa, Vitinho!” – de pessoas e locais, de circunstâncias.

Palram pega e papagaio/e cacareja a galinha./ Os ternos pombos arrulham/ geme a rola inocentinha” – e as palavras de Pedro Diniz traziam a escola de Rio de Mouro, a D. Alice, a D. Maria, mas também o pombal, a pomba castanha e branca que me pousava na mão, a memória da casa. E logo engatavam outros poemas da primária: “A mãe dera à filhinha/ um belo cacho de uvas/douradas pelo sol, regadas pelas chuvas”…

E depois vinham outros, em que as palavras que esquecia ocupavam horas de procura: “Baçus, mulher de Ali, pastora de camelas/ viu de noite, ao fulgor das rútilas estrelas/”. Gonçalves Crespo, “O juramento do árabe”. Belíssima palavra, “rútilas”. E já não era a D. Maria – que me lembrava também o padre António Vieira, “Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe…” – a ocupar a sala, mas a D. Bela, o colégio, a Dache, a Papucha, a Teresa Maria, de batas pretas com gola branca,– e como era mesmo o juramento? Sim, da morte da camela passara-se a uma guerra “pertinaz, horrível, carniceira” (outra bela palavra, “pertinaz”), e “na luta fraticida/ Omar, filho de Anru, perdera o alento e a vida.” E Anru promete a um prisioneiro que o libertará se ele lhe indicar o assassino: “E o moço perguntou:- "É por Alá que o juras?" - "Juro!" - o chefe tornou.- "Sou o homem que procuras! Mualhil é o meu nome: eu fui que despedacei/a lança de teu filho e aos pés o subjuguei!"/ E, intrépido, fitava o atónito inimigo./Anru volveu:/- "És livre! Alá seja contigo!"

Sim, sim, Blas de Otero já o tinha escrito: “Si abrí los labios para ver el rostro/ puro y terrible de mi patria, / si abrí los labios hasta desgarrármelos, /me queda la palabra.”

E as palavras, ora pesadas como no poema de Otero, ora leves como Anna Karina e Belmondo cantando “De ma ligne de chance, de ma ligne de chance/ Dis-moi, chéri, qu'est-ce que t'en penses?/ Ce que j'en pense, quelle importance/ C'est fou ce que j'aime ta ligne de hanche "  e revia-os em Pierrot le fou, e porque era em francês surgia Victor Hugo, “Waterloo, morne plaine ,  “à pas lents, musique en tête, sans fureur, /Tranquille, souriant à la mitraille anglaise, /La garde impériale entra dans la fournaise. (…) Ils allaient, l'arme au bras, fronts hauts, graves, stoïques /Pas un ne recula. Dormez, morts héroïques!"  E, de repente, se a fournaise me recordava a morte heroica de Katow, Malraux, La condition Humaine, me ocorria também o nome da professora de francês? As canções atropelavam-se, « Au clair de la lune », que a minha mãe tocava ao piano, Bécaud, « Moi, j’irai dimanche à Orly », Brassens, « Pauvre Martin, pauvre misère »,  Yves Montand e Le chant des partisans, « Ami, entends-tu le vol noir des corbeaux sur nos plaines? /Ami, entends-tu les cris sourds du pays qu'on enchaîne? »

E depois vinha Semprun, A Longa Viagem, “É horrível que a tortura seja um problema prático, que a capacidade de resistir à tortura seja um problema prático a encarar praticamente. Mas é um facto, não fomos nós que o escolhemos, não temos outro remédio senão estarmos atentos. Um homem devia poder ser um homem, mesmo que não fosse capaz de resistir à tortura, mas a verdade é esta, sendo as coisas o que são, um homem deixa de ser o homem que era, que poderia vir a ser, caso vergue diante da tortura, caso denuncie os camaradas. Sendo as coisas o que são, a possibilidade de se ser homem está ligada à possibilidade da tortura, à possibilidade de vacilar sob a tortura” e recordava uma conversa sobre esse texto, na sala pequena do Gambrinus, o sabor da imperial e da sandes de paté com pickles. E surgia-me outra canção, “Tu me manques ce soir, tu me manques”, e era na casa da Tina, há quanto tempo não via a Tina, mas ela estava de repente ali, na cela 60, do Reduto Norte de Caxias, e surgiam palavras de Aragon, “Ils étaient vingt et trois quand les fusils fleurirent/ Vingt et trois qui donnaient leur cœur avant le temps/Vingt et trois étrangers et nos frères pourtant/ Vingt et trois amoureux de vivre à en mourir/ Vingt et trois qui criaient la France en s’abattant » e cantava alto, as guardas vinham dizer que era proibido cantar, respondia « Então prendam-me ! » e continuava a viver nas palavras, a encher de pessoas a minha cela vazia: “Eran las cinco en punto de la tarde. / Un niño trajo la blanca sábana /a las cinco de la tarde./ /Una espuerta de cal ya prevenida /a las cinco de la tarde. /Lo demás era muerte y sólo muerte /a las cinco de la tarde”, Federico Garcia Llorca trazendo-me a voz e a imagem do meu pai, “Quando eu morrer batam em latas,/Rompam aos saltos e aos pinotes,/Façam estalar no ar chicotes,/Chamem palhaços e acrobatas!/Que o meu caixão vá sobre um burro/Ajaezado à andaluza.../A um morto nada se recusa,/ Eu quero por força ir de burro”, Mário de Sá Carneiro lembrando-me o meu irmão do meio, “Fever” (“Never know how much I love you/ Never know how much I care/ When you put your arms around me/ I get a fever that's so hard to bear”) enchendo a sala com a coreografia da minha irmã e do nosso irmão mais velho, “Quando eu morrer me enterre na Lapinha,/ calça, culote, palitó, almofadinha…” recriando na cela vazia as festas do nosso grupo, que a PIDE considerava subversivas…

E às vezes, nos recreios do andar de cima, ou no lavadouro, ouvia outra canção, e sabia que era alguém do nosso grupo que cantava: “Primera vez/Qu'm ba na Ribeira Grande/M' passa sabe/Fui dente dum reservóde/ Oh Nhô Antone Escaderode/ Escaderode, Escaderode,/ Oh Nhô Antone Escaderode/ Escaderode, Escaderode.../Nos era três/ Que t'ma um estamperode/ Quond no sai/Nô ta c'palpite descomandode”.  Cantava de volta, era a nossa senha, o nosso sinal.

E depois, para lá dos poemas, das canções, havia, em letra cada vez mais pequena, para poder escrever mais, as cartas para a família. Lembrando histórias divertidas que contávamos uns dos outros. Imaginando outras para os sobrinhos pequenos. Escolhendo, pesando, gozando o prazer das palavras.

As palavras, então.

E voltava a Blas de Otero: “Si he perdido la vida, el tiempo, todo/ lo que tiré, como un anillo, al agua,/ si he perdido la voz en la maleza,/ me queda la palabra./ Si he sufrido la sed, el hambre, todo/ lo que era mío y resultó ser nada,/ si he segado las sombras en silencio,/me queda la palabra./ Si abrí los labios para ver el rostro/puro y terrible de mi patria,/ si abrí los labios hasta desgarrármelos,/me queda la palabra.”

Cuidemos, pois, para que nunca voltemos a perdê-la.

Diana Andringa
01.05.2020


Todos os testemunhos do projeto "Confinamento(s) em tempo de ditadura", organizado por Mariana Carneiro, ficarão disponíveis aqui:
Confinamento(s) em tempo de ditadura

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