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Empresa brasileira acusada de deturpar estudo sobre Covid e cloroquina

A rede privada de saúde Prevent é acusada por médicos que nela trabalharam de ocultar mortes num estudo sobre a Covid manipulado para fazer passar a cloroquina como eficaz. O governo Bolsonaro teria feito um acordo com ela para disseminar o uso desta substância e houve pacientes que não foram informados de que a estavam a tomar.
Sessão da CPI da Covid. Foto do Senado Brasileiro/Flickr.
Sessão da CPI da Covid. Foto do Senado Brasileiro/Flickr.

A rede privada de saúde brasileira Prevent Senior foi acusada por um conjunto de médicos e ex-médicos que nela trabalharam de deturpar um estudo de forma a fazer passar a cloroquina, medicamento sem eficácia comprovado no tratamento da Covid-19, como funcionando contra esta doença. Um dos clínicos admite que os resultados já estavam preparados antes da conclusão do estudo.

As acusações constam de um dossier entregue em agosto à Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga as questões relacionadas com a gestão da pandemia pelo governo de Bolsonaro e os detalhes foram revelados esta quinta-feira pela Globo. As acusações são complementadas com áudios e conversas em aplicações de mensagens e os médicos denunciam ainda ser obrigados a trabalhar com pessoas que tinham contraído Covid-19 sem máscaras, terem sido obrigados a prescrever medicamentos do chamado “kit Covid” e forçados a trabalhar quando infetados com a doença.

As informações avançadas vão no sentido de ter sido realizado um acordo entre o governo e a empresa de forma a disseminar o uso desta substância. Este estudo, coordenado pelo cardiologista Rodrigo Esper, diretor da Prevent Senior, foi usado nas redes sociais por Jair Bolsonaro como exemplo de sucesso da hidroxicloroquina. Aí o presidente brasileiro disse que não houve mortes de pacientes que tomaram a cloroquina mas que tinham morrido cinco que não a tomaram.

Para além da denúncia de manipulação do estudo da Prevent para que os resultados fossem favoráveis ao uso da cloroquina, também consta do dossier a informação de que Fernando Oikawa, o seu diretor, orientou os funcionários para não avisarem pacientes e familares do uso de hidroxicloroquina e azitromicina. Assim, sem conhecimento, foram usado como “cobaias humanas” em tratamentos experimentais, acusa-se.

Os autores do estudo também mencionaram apenas duas mortes durante a investigação, que desvalorizaram por terem sido devidos a síndrome coronária e cancro. Afinal, houve nove, seis das quais entre o grupo que tomava hidroxicloroquina e azitromicina, duas entre o grupo que não tomava estes remédios e uma sobre a qual não há informação. E no grupo das vítimas não havia nenhuma pessoa com as doenças indicadas pelos autores do estudo.

De entre os participantes do estudo, apenas 93 pessoas, 14,7% do total, fizeram teste à Covid e apenas 62 deram positivo, ou seja menos de 10% do conjunto dos participantes.

O caso está a ser investigado pelo Ministério Público de São Paulo, pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa da Polícia Civil de São Paulo e pela Agência Nacional de Saúde Suplementar que também analisam o uso de outros medicamentos sem eficácia como flutamida, etanercepte, heparina inalatória e ozonioterapia. A empresa continua a prescrever cloroquina e ivermectina mesmo depois destas terem sido declaradas ineficazes pelo ministério da Saúde brasileiro.

A empresa é ainda suspeita de ter subnotificado as mortes por Covid-19 nas unidades de saúde que opera. Uma médica ouvida pela GloboNews diz que é uma prática que se mantém desde julho de 2020 e numa mensagem áudio ouve-se um outro diretor da empresa a dar orientações aos coordenadores de unidades para alterarem o código de diagnóstico dos pacientes algumas semanas depois de terem sido internados. A estação televisiva comprovou dois casos de omissão da Covid na certidão de óbito.

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