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Em outubro, o mundo inteiro volta a caber em Lisboa

O programa Mais Esquerda irá acompanhar o festival internacional de cinema documental Doc Lisboa e deixa-lhe aqui algumas sugestões da programação.
Cartaz da 14ª edição do Doc Lisboa

Reportagem incluída no programa Mais Esquerda, que pode ser vista no programa aqui. A reportagem está em separado aqui (e o programa integral aqui).

O final do mês de Outubro coincide com o Doc Lisboa e as telas da cidade recebem histórias que são também o pulsar do mundo. Nesta edição, haverá 263 sessões com 257 filmes de 41 países, dos quais 46 serão estreias mundiais e 16 são primeiras obras.

Davide Oberto, da direção DocLisboa explicou ao Mais Esquerda que "há muitas direções que o Festival e os filmes que escolhemos seguem, são direções contemporâneas, como a ideia de contar o mundo que nos rodeia e de estar nesse mundo. É a ideia que os filmes desenvolvem de pegar em diversos acontecimentos, nos acontecimentos importantes e de os transformar noutra coisa, num filme. E é também isso que nos traz uma visão mais complexa e mais direcionada para o futuro, ou seja, os filmes não são apenas capturas dos fenómenos brutos que chegam à câmara, nós transformamo-los, interpretamo-los, contamo-los e assim os filmes estão num passo à frente da leitura da realidade".

Este ano o Doc tem uma nova secção não competitiva, chamada "Da Terra À Lua". O título é uma homenagem a Júlio Verne e inclui filmes que traçam um panorama sobre o que é o nosso mundo hoje e o futuro que está à espreita da nossa imaginação. Mantêm-se as secções anteriores de competição nacional e internacional, "Riscos" (este ano dedicado aos filmes de correspondência, em que as distâncias e os interlucotores mudam), "Verdes Anos" (de realizadores no início da carreira), "Heart Beat" (documentários sobre música) e o "Cinema de Urgência". Este último, será acompanhado com mais destaque pelo Mais Esquerda.

Cíntia Gil, também da direção do festival, explica que "o cinema de urgência é alimentado por filmes de cidadãos, ou seja, independentemente de serem realizadores normalmente ou não, os filmes que mostramos no Cinema de Urgência normalmente até são filmes que são feitos para as redes sociais por denúncia, por combate político. É mesmo um trabalho de cidadania". Este ano o Cinema de Urgência terá três sessões, uma sobre a exploração de petróleo no Algarve, os problemas que isso poderá trazer e a luta que tem sido feita pelas associações locais e nacionais contra essa possibilidade, que será seguido de um debate. A segunda sessão será sobre os fluxos migratórios e de refugiados e a terceira chama-se "Fora Temer", e será sobre o que se está a passar no Brasil. Nessa sessão estará presente Pablo Capilé, porta voz da Mídia Ninja, um meio de informação alternativo que chega a ultrapassar os meios convencionais em termos de visibilidade.

Sobre esta tradição de cinema militante no cinema documental, Cíntia Gil afirma que "nem todo o cinema documental é militante, e ainda bem, nem todo o cinema documental que fala de questões sociais e políticas fundamentais é militante, e nem todo o cinema que sai dos movimentos sociais é militante, mas também existe esse e que é fundamental, porque é um tipo de cinema que assume uma postura, uma posição perante um problema e que propõe um discurso sobre esse mesmo problema, e eventualmente soluções".

O programa do festival foi alterado no último momento para homenagear o realizador iraniano Abbas Kiarostami, falecido em julho passado, com a exibição do seu último filme. A competição portuguesa conta com 12 filmes de nomes como Cláudia Varejão, Edgar Pêra ou Marília Rocha e uma primeira obra, de Cláudia Rita Oliveira, intitulada “Cruzeiro Seixas - As cartas do Rei Artur”.

José Gonçalves Mendes foi o realizador do filme “José e Pilar”, produz agora o filme de Cláudia Rita Oliveira que descreve como sendo "um filme muito bonito e muito forte e cruel em que ela acompanha e explora a relação entre o Cruzeiro Seixas, não só enquanto pintor e no trabalho literário, com o Mário Cesariny. Essa relação tensa com altos e baixos, separações, zangas e voltar atrás que as nossas vidas têm, em geral. Acho que as pessoas vão ficar muito surpreendidas com o filme da Cláudia que eu acho que é provavelmente dos melhores documentários dos últimos dez anos".

O festival vai decorrer entre a Culturgest, o cinema São Jorge, a Cinemateca Portuguesa e, este ano, também na Gulbenkian, coma secção "Passagens", que questiona as barreiras entre disciplinas nas artes visuais. Nessa secção, Luciana Fina apresenta “Terceiro Andar”, um filme e uma instalação que explica que surgiu de "uma forma de estar no cinema que tenho frequentado já há dez anos. Por vezes apetece-me contar histórias que pertencem ao domínio do real, mas outras vezes preciso de passar para o espaço de exposição porque me desloco para outra forma de estar com as imagens e com o som. Neste caso, por exemplo, criei um diptíco para o espaço de exposição onde a ideia de contar uma história é posta um pouco de parte em prol de habitarmos um espaço em que as imagens e o som nos proporcionam uma relação com o real. Neste caso, estamos no espaço da palavra, de uma palavra que é a transmissão e tradução entre uma mãe e uma filha da Guiné Bissau que vivem em pleno centro histórico de Lisboa, no meu prédio, e a perceção do diálogo entre mãe  e filha, que são também muçulmanas e que se transmitem e se traduzem uma para a outra a sua educação sentimental e aquilo que percecionaram e experienciaram nas suas vidas, primeiro na Guiné, depois aqui em Lisboa, em relação a uma ideia do amor e da construção da felicidade". 

Luciana Fina prossegue, explicando que no filme, "o lado narrativo é mais importante porque acabo por contar como é que esta relação se processou, isto é, porque é que existe este espaço de escuta e de intimidade com estas duas mulheres no meu prédio. É uma história simples, muito bonita. A primeira filha desta mulher guineense, ao fazer 17 anos escreveu a sua primeira carta de amor e pediu-me para a ajudar a realizar uma carta de amor em imagem e som para a enviar para o namorado em Inglaterra. No fundo, no filme acabo por narrar também o que está por trás dessa escuta, e desse encontro, e dessa ideia de um prédio como um espaço de relação".

No festival, haverá ainda uma homenagem a Peter Hutton, uma retorspetiva de Peter Watkins, do documentário em Cuba e a sessão Arché, dedicada ao novo cinema suíço. Destaca-se ainda uma homenagem a Oleg Karavaichuk por Andrés Duque que irá inaugurar o festival, a reposição de um filme de 1981 de Augusto M. Seabra e José Nascimento sobre os então 50 anos de carreira de Manoel de Oliveira, e, no encerramento do festival, uma visita ao trabalho de António de Macedo por João Monteiro.

 

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