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Em eleições democráticas, “as pessoas são o único juiz que decide”

O secretário-geral do Sortu e candidato a lehendakari pelo EH Bildu, Arnaldo Otegi, admitiu que a esquerda abertzale foi “responsável pelo sofrimento que se causou neste país”. “Tivemos a nossa quota parte de responsabilidade, sem dúvida, mas também contribuímos para que desapareça”, acrescentou.
Arnaldo Otegi, candidato do EH Bildu a Presidente do Governo Basco.

Numa entrevista concedida à Rádio Euskadi a 27 de maio, o candidato do EH Bildu mostrou-se convencido de que “se a esquerda abertzale não tivesse tomado a decisão” de apostar nas vias pacíficas e democráticas, “a luta armada da ETA continuaria, por muito que alguns digam que isso se deve à Polícia e à Guarda Civil”.

“Não procuro o aplauso pelo que fizemos, nem o reconhecimento, nem que batizem praças em nossa homenagem, mas digo que há que reconhecer, pelo menos, e  independentemente da convicção e definição de cada um sobre o seu passado, que a esquerda abertzale foi capaz de alterar a sua estratégia e colocar em marcha uma estratégia que contribuiu, entre outras coisas, para que a luta armada da ETA desapareça da atuação política basca”, sublinhou.

Depois de assinalar que há "um certo interesse em colar a esquerda abertzale ao passado”, recordou que, "desde há cinco, seis e sete anos, e provavelmente, alguns anos antes”, consideram “que só a partir de posições democráticas e pacíficas se pode construir uma alternativa melhor para este país”. “E isso é o que defendemos”, assegurou.

Arnaldo Otegi frisou que “aqui toda a gente tem passado” e assinalou que “aqui no passado existiram violências múltiplas”. “O governo basco acaba de fazer um relatório que fala em milhares de torturados no país, aqui existiu uma guerra suja, aqui as FSE mataram, e aqui os serviços secretos mataram”.

Por isso, diz que os bascos podem passar “décadas a falar do passado, anos a pôr em cima da mesa a lista de acusações ou fazer algo produtivo, reconhecer que todos" cometeram erros e “trabalhar pelo futuro”.

“A esquerda abertzale decidiu dar um passo, mudar de estratégia, e agora a exigência é outra, que a ETA se desarme, e quando a ETA se desarmar, será que tem de se dissolver, e quando a ETA se dissolver, o que vem depois?", perguntou.

Arnaldo Otegi pediu que se fale de "um futuro melhor, numa altura em que já existe luta armada da ETA”. Além disso, quis pôr em cima da mesa “o sofrimento” dos presos e dos seus familiares.

As pessoas são o único juiz que decide”

Otegi afirmou que é “uma grande responsabilidade, um grande repto e uma alegria" ser candidato à presidência do Governo basco e assegurou que “as pessoas são o único juiz que decide” nas próximas eleições autonómicas.

“O único juiz que existe em termos democráticos são as pessoas”, acrescentou, e fez questão de dizer que as eleições gerais de 26 de junho serão uma “primeira volta” das autonómicas de outono.

O candidato do EH Bildu assinalou que “desde há muitos anos se entende que a sua contribuição pode ser qualitativa em termos independentistas e da esquerda abertzale”. O representante da coligação soberanista disse que “há que pôr as mãos à obra” para construir um processo independentista como o da Catalunha.

Otegi foi ratificado esta semana como candidato a lehendakari pelas bases do EH Bildu, mas sobre ele pesa uma condenação de inabilitação para exercer cargos públicos e para o direito de sufrágio passivo até 28 de fevereiro de 2021. A esquerda abertzale considera que a existência de “um erro” nas decisões judiciais o permitirá concorrer. Em todo o caso, a Junta Eleitoral do País Basco decidirá, ou, em último caso, o Tribunal Constitucional.

ETA

Questionado sobre se a esquerda abertzale "tinha capacidade de influência sobre a ETA" e se realmente consideram que conseguiram que o grupo abandone a via armada, destacou que "sobre isso se pode escrever um relatório jurídico, um penal e um político".

“Evidentemente, quando a esquerda abertzale decide, através de um processo de debate que não foi fácil nem isento de tensões, que se tem que abrir caminho a uma estratégia em que a ação armada tem que desaparecer deste país, torna-se evidente que, uma vez que é essa é a decisão que a esquerda abertzale adota, a ETA não foi uma organização isenta de apoio político neste país”, declarou.

Desta forma, apontou que, “se essa base social se move na direção de entender que essa é uma estratégia que tem que ser abandonada porque é uma estratégia que coloca problemas, não só políticos e de eficácia política, mas também éticos, a decisão da ETA não podia ser outra".

Questionado porque é que a decisão não foi tomada em 2009 ou antes, sublinhou que “esse é um bom debate”, e respondeu que “seguramente” não se deu antes “porque não existiram condições para o fazer ou porque se entendia que estava ainda legitimado o recurso à violência ou, provavelmente, porque não fomos capazes de escutar este país que, desde há muito tempo, estava a exigir uma mudança de estratégia e considerava que algumas fórmulas dessa estratégia tinham que desaparecer”.

"A grande autocrítica que se tem que fazer na esquerda abertzale tem que ser nessa direcção. Nós não soubemos escutar este país e essa é uma lição que temos que aprender e marcá-la a ferro nas nossas consciências", asseverou. Neste sentido, fez questão de dizer que demoraram "muito em aprender que este país precisava de outra estratégia e que este povo nos exigia outra".

esquerda.net com Publico.es

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