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Eleições na Grécia: Bipolarização entre ND e SYRIZA em versão PASOK

O próximo executivo grego até pode contar com alguma boa vontade europeia. Mas, sem reestruturação da dívida, a austeridade continuará e, com ela, o “calvário” do povo grego.  Uma análise detalhada das eleições legislativas gregas por Jorge Martins.
Boletins de voto das eleições legislativas gregas de 2019.
Boletins de voto das eleições legislativas gregas de 2019. Foto de Panageotean Graphics. Wikicommons.

Após a grande esperança que a histórica vitória do SYRIZA, em janeiro de 2015, trouxe à esquerda europeia e mundial, seguiu-se a desilusão da sua capitulação face à chantagem da UE e das instituições financeiras internacionais, menos de seis meses depois.

Apesar disso, o partido voltou a vencer as legislativas de setembro desse ano e acabou a aplicar a mesma austeridade dos seus antecessores conservadores e social-democratas. A derrota nas eleições do passado domingo É apenas a confirmação da “morte” de uma experiência que há quatro anos se encontrava “em estado vegetativo”.

Parlamentarismo puro, mas com democracia maioritária

A Grécia é uma república onde vigora um sistema de parlamentarismo puro.

O Presidente da República tem um papel muito reduzido, de cariz essencialmente cerimonial. Está encarregado da representação externa do Estado, podendo assinar tratados e acordos com outros países, mas fá-lo em nome do respetivo governo. Assim, não pode dissolver o Parlamento, nem demitir o governo, nem decretar o estado de sítio ou de emergência sem a autorização daquele.

Contudo, e paradoxalmente, a sua eleição pode levar a uma crise política, algo que não é caso virgem.

O PR é eleito pelo Parlamento para um mandato de cinco anos. Na 1ª e 2ª voltas, um candidato necessita do voto de 2/3 dos parlamentares (200) para ser eleito. No 3º turno, apenas precisa de 3/5 (180).

Porém, se, após essas três votações, nenhum atingir a maioria necessária, a Constituição dispõe que o Parlamento é dissolvido e novas eleições legislativas serão convocadas. Esta disposição constitucional destina-se a que o chefe de Estado seja uma personalidade que reúna o consenso das principais forças políticas, mas tem sido aproveitada pela oposição “de turno” para derrubar um executivo impopular.

Quando isso acontece, os critérios para a eleição presidencial, a ser realizada pelo novo Parlamento, tornam-se menos exigentes: maioria de 3/5 na 1ª ronda, absoluta na 2ª e simples na 3ª.

O essencial do poder executivo reside, assim, no governo, liderado pelo primeiro-ministro.

Este é, em geral, o líder do partido mais votado. Se este não conseguir um voto de confiança da maioria absoluta dos deputados, cabe à segunda força política indicar um nome alternativo. Caso este também falhe, a incumbência passa para a formação que ficou na terceira posição. Se esta não obtiver, igualmente, um apoio maioritário no Parlamento, este é dissolvido e são convocadas novas eleições no prazo de um mês após a dissolução. Foi o que sucedeu em maio de 2012, que levou à realização de um novo ato eleitoral em junho desse ano.

Um sistema de eleição parlamentar original e controverso

Por seu turno, o Parlamento (Vouli), é constituído por 300 membros, eleitos através de um sistema de representação proporcional com bónus maioritário de 50 lugares. Existe, ainda, uma cláusula-barreira, que reserva a representação parlamentar às listas que tenham obtido, no mínimo, 3% dos votos válidos a nível nacional.

Como iremos ver, o sistema é simples para a distribuição dos mandatos pelas diferentes forças políticas, mas bastante complicado para a sua alocação nos círculos regionais.

Em primeiro lugar, os mandatos são atribuídos através de um quociente eleitoral simples, dividindo a soma dos votos dos partidos que ultrapassaram a cláusula-barreira pelo número de membros a eleger (neste caso, 250). Os lugares remanescentes são atribuídos aos maiores restos.

Depois, passa-se à sua distribuição, que decorre em várias fases.

Cada partido apresenta uma lista nacional, com 12 elementos. Por seu turno, os restantes 238 são eleitos em 59 círculos regionais (52 plurinominais e sete uninominais). Estes últimos localizam-se, em geral, em áreas insulares pouco povoadas. Correspondem ao território dos antigos departamentos, exceto a Ática (onde se situam Atenas e o vizinho Pireu) e Salónica, em que aqueles são divididos em círculos mais pequenos.

Em primeiro lugar, são distribuídos os 12 deputados das listas nacionais, utilizando-se o mesmo método acima indicado.

Depois, passam-se aos sete membros uninominais. Aqui, é eleito o candidato da lista mais votada que tenha ultrapassado a cláusula-barreira nacional.

Seguem-se, então, os outros 231. Para a sua alocação, utiliza-se, igualmente, em cada um dos círculos, o método do quociente eleitoral simples. Porém, para o seu cálculo consideram-se todos os votos válidos entrados nas urnas (ou seja, incluindo as forças políticas que não atingiram os 3% a nível nacional). Por outro lado, o arredondamento do quociente é feito por defeito.

O número de lugares correspondente à diferença entre os que cada força política tem direito e os que elegeu nos círculos regionais são preenchidos através da ordenação, para cada uma delas, de uma lista da sua percentagem nas diferentes circunscrições e tendo em conta as vagas disponíveis em cada um deles, num procedimento assaz complexo.

Por fim, os restantes 50 deputados são atribuídos ao partido maioritário e serão, posteriormente, alocados aos círculos regionais onde ainda existam lugares a preencher.

Se, porventura, a lista mais votada for uma coligação, esta só receberá o bónus se a média da divisão dos seus votos pelo número de partidos que a integram for superior ao número de sufrágios obtido pelo maior partido que concorreu isoladamente.

Foi esta disposição que levou o SYRIZA, originariamente uma coligação, a transformar-se em partido político, antes das eleições de 2015.

Existe, em cada círculo regional plurinominal, um mecanismo parcial de voto preferencial, podendo, em cada círculo regional, o eleitor votar em cerca de 1/3 dos candidatos do partido pelo qual opta (50%, se apenas forem eleitos dois).

A questão do bónus maioritário é controversa. Destinada a gerar executivos maioritários, distorce a proporcionalidade em favor do maior partido.

O SYRIZA, que havia prometido aboli-lo quando chegasse ao poder, acabou por adotar legislação nesse sentido em 2016.

Contudo, embora, ao contrário do que sucede entre nós, as leis eleitorais possam ser alteradas pela maioria absoluta do Parlamento, essas novas disposições não se aplicam no ato eleitoral que se realize imediatamente a seguir, mas apenas no segundo após a entrada em vigor dessa alteração legal. Ou seja, apesar de aprovada em 2016, a abolição do bónus maioritário não se aplicou a estas legislativas, mas aplicar-se-á às seguintes, sejam ou não antecipadas.

Na mesma ocasião, a idade de voto foi antecipada, na prática, para os 17 anos, ao conceder o direito de votar a todo o cidadão que complete 18 anos no ano em que se realizam as eleições.

O contexto subjacente ao ato eleitoral

Apesar de estarmos em presença de uma civilização muito antiga, que nos deu, entre outras coisas, a democracia, a filosofia, o teatro e muitos avanços científicos e técnicos, o Estado grego é relativamente recente, datando a proclamação da independência de 1822.

Após a invasão turca de Chipre, na sequência de um golpe militar levado a efeito por oficiais da Guarda Nacional cipriota grega, apoiada pela ditadura militar então reinante em Atenas, em julho de 1974, a junta militar abandona o poder.

Konstantinos Karamanlis, político conservador, forma um executivo de unidade nacional, que legaliza o partido comunista e evita a guerra com a Turquia.

Em novembro, o seu partido, a Nova Democracia (ND) vence as eleições para a assembleia constituinte. No mês seguinte, quase 70% dos gregos rejeitam, em referendo, o retorno à monarquia.

A nova Constituição é aprovada em junho de 1975 e inaugura o novo regime republicano parlamentar, que será marcado pela alternância entre os conservadores da ND (onde pontificam, quase sempre, as famílias Karamanlis e Mitsotakis) e os social-democratas do PASOK (onde o papel de liderança cabe, em geral, à família Papandreou).

A Grécia adere à UE em 1981. Beneficiando dos fundos estruturais e do afluxo de investimento estrangeiro, o país conhece alguma modernização: a economia cresce, o nível de vida sobe, a urbanização progride e assiste-se a alguma mudança de mentalidades, com a redução da influência ideológica da Igreja Ortodoxa.

Contudo, alguns dos velhos hábitos mantém-se: a política e a sociedade continuam muito marcadas pelas ligações familiares/dinásticas e clientelares, a corrupção atinge todos os níveis do poder e a indústria continua a ter pouca expressão, continuando o país a viver das exportações agrícolas, do turismo e da sua poderosa marinha mercante.

Em finais de 2009, o PASOK vence as eleições. O novo governo denuncia a “maquilhagem” das contas públicas feita pelo anterior executivo da ND, declarando um défice na casa dos 16%. Entretanto, percebe-se que a dívida externa do país está acima dos 150%. A reação das instituições da UE e do governo alemão de Angela Merkel é a pior possível, acusando os gregos de despesismo e sublinhando que o estatuto do BCE não permite a este socorrer Estados membros endividados. Por isso, as taxas de juro sobem e a Grécia deixa de poder financiar-se nos mercados internacionais.

Era o início da chamada “crise das dívidas soberanas”, que rapidamente alastraria para outros países periféricos da UE, colocando em causa a sobrevivência do euro.

Em 2010, a “troika” (Comissão Europeia, BCE e FMI) acorda num empréstimo à Grécia em troca de medidas de austeridade draconianas. Começava o “calvário” dos gregos.

Em 2012, a ND, liderada por Antonis Samaras, regressa ao poder após legislativas antecipadas. Nestas, o SYRIZA, da esquerda radical, torna-se a segunda força política do país, ultrapassando o PASOK, que sofre uma queda de grandes proporções.

Mas, perante uma austeridade que se agrava e parece não ter fim, provocando uma verdadeira catástrofe humanitária, com um aumento rápido das falências, do desemprego e da pobreza, a par com o colapso dos principais serviços públicos, em especial de saúde, as esperanças populares são depositadas no SYRIZA, liderado por Alexis Tsipras.

Prometendo enfrentar a UE e as instituições financeiras e reverter a austeridade, faz história, ao vencer as eleições legislativas de 25 de janeiro de 2015.

O novo governo grego começa a reverter algumas medidas austeritárias e gera grande esperança na esquerda europeia e mundial e pânico na direita, no mundo da finança e dos negócios, bem como nas cúpulas dirigentes da UE e das instituições financeiras internacionais.

As instituições europeias, sob a batuta do governo alemão de Merkel e Schäuble, iniciam, desde o início, um processo de pressões e chantagem sobre a Grécia, que incluem a ameaça de expulsar o país do Euro. Com elas, as dificuldades de obter financiamento externo mantém-se.

Tsipras decide, então, consultar o povo sobre a adoção das novas medidas de austeridade exigidas pela “troika”, convocando um referendo para o dia 6 de julho. Neste, o “não” vence, com 61% dos votos expressos, apesar das pressões do BCE, que obriga ao fecho dos bancos e, consequentemente, à impossibilidade de efetuar levantamentos bancários.

Contudo, uma semana depois, Tsipras, que, entretanto, havia substituído o seu carismático ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, acaba por ceder em toda a linha, aceitando aplicar um conjunto de medidas de austeridade superior às que haviam sido rejeitadas no referendo.

O Comité Central do SYRIZA aceita essa posição, mas a oposição é muita e vários parlamentares abandonam o partido. Por isso, só com o apoio das formações do centro e da direita consegue a sua aprovação no Parlamento.

O primeiro-ministro convoca novas eleições em setembro. Com o eleitorado resignado, vence, com um resultado semelhante ao de janeiro, mas sem a esperança transformadora de então.

Análise dos resultados eleitorais

Vamos, agora, passar a analisar os resultados eleitorais, centrando-nos nos desempenhos das diferentes forças políticas concorrentes.

ND: uma vitória em toda a linha, apesar dos “pecados”

Foi o grande vencedor destas eleições, obtendo 39,9% dos votos, que lhe valeram a conquista da maioria absoluta, com a eleição de 158 deputados. Atingiu, assim, aquele que era o seu grande objetivo. Nas últimas eleições, tinha-se ficado pelos 28,3% e 75 eleitos.

Partido liberal-conservador, representa os interesses dominantes na sociedade grega (banqueiros, armadores, Igreja Ortodoxa e grandes proprietários rurais).

Fundado em 1974, por Konstantinos Karamanlis, deriva do antigo partido monárquico-conservador União Nacional Radical (ERE) e da ala direita da União do Centro (EK), seu grande opositor no período entre 1949 e 1967.

É o partido com mais tempo de poder na 3ª República Helénica, na qual foi sempre um dos dois grandes partidos alternantes.

É, atualmente, liderado por Kyriakos Mitsotakis, já empossado como primeiro-ministro. O seu pai, Konstantinos Mitsotakis, foi chefe do governo em finais dos anos 80 e princípio dos anos 90, enquanto a sua irmã, Dora Bakoyanis, foi presidente do município de Atenas e ministra dos Negócios Estrangeiros.

Apesar de ter sido o primeiro responsável pela crise e de ter aplicado uma austeridade “cavalar”, terá recebido o “perdão” dos eleitores, tanto por se apresentar com uma nova liderança como pela desilusão que constituiu para muitos a governação do SYRIZA.

Nestas eleições, terá conservado aproximadamente 95% do seu eleitorado de setembro de 2015.

O acréscimo de votos foi devido, essencialmente, aos cerca de 12% de eleitores que conquistou ao SYRIZA, 4,5% a abstencionistas e jovens, 70% do pequeno partido da direita nacionalista ANEL (que não concorreu) e, ainda, perto de 20% da XA (extrema-direita). A esses, podemos juntar 23,5% da centrista EK, 12% da coligação dirigida pelo PASOK, mais 8,5% do social-liberal Potami (que também não se apresentou) e 11% de pequenos partidos.

Já as suas perdas foram residuais, sendo apenas de destacar cerca de 2% para a abstenção.

A ND venceu em 49 das 59 circunscrições eleitorais. Do ponto de vista geográfico, o seu maior apoio veio, como é habitual, das áreas rurais, sendo o seu ponto fraco as áreas urbanas mais pobres.

Obteve os melhores resultados nas zonas ricas da Ática (a grande região metropolitana onde se situam Atenas e o vizinho porto do Pireu), no Peloponeso (a sudoeste), nas ilhas do Egeu meridional e nas três regiões da Macedónia (no norte e nordeste), à exceção da área urbana de Salónica e da zona de Xanthi, onde vive a maior parte da minoria turca.

Os mais fracos ocorreram na zona ocidental de Atenas, no Pireu e em Creta.

SYRIZA: uma derrota anunciada, ou o preço da capitulação

O SYRIZA sofreu uma derrota esperada, mas, apesar de tudo, honrosa. Assim, face a 2015, em que obteve 35,5% dos sufrágios e 145 eleitos, ficou-se agora por 31,5% dos votos e 86 lugares.

Partido da esquerda radical, acolheu grande parte da classe média e média-baixa, desiludida e revoltada com o PASOK, e intelectuais e trabalhadores, que romperam com a ortodoxia do KKE.

As suas origens remotas radicam no KKE (Interior), numa fação que abandona o partido em 1987 e forma a Esquerda Grega (EAR).

Em 1988, essa formação assina com o KKE e outras forças de esquerda a criação do Synaspismós (SYN).

Em 1991, o KKE abandona a coligação e as restantes forças políticas e os renovadores comunistas prosseguem com o SYN, que transformam em partido.

Após a capitulação de Tsipras, em julho de 2015, o SYRIZA governa aplicando as medidas austeritárias impostas pela UE. Logo, a sua governação pouco se distinguiu das anteriores, não só ao nível da imposição da austeridade, mas também das práticas clientelares e corruptas que, desde sempre, têm marcado a política grega. O que explica, em grande parte, a sua derrota eleitoral, mesmo se por uma margem inferior à que algumas sondagens previam.

Neste ato eleitoral, o partido apenas terá conservado 72% dos que nele votaram em setembro de 2015.

As perdas maiores terão sido de 12% para a ND e 10% para a abstenção, brancos e nulos, a que se seguiram à volta de 4% para o MéRA 25 de Varoufakis. A registar ainda, cerca de 1% para o KKE e valores residuais para outras forças políticas.

Quanto a ganhos, a maior fatia veio de cerca de 3% de abstencionistas e jovens. A esses, há a somar aproximadamente 35% de votantes no social-liberal Potami, que optou por não se apresentar, bem como 47% de eleitores da Unidade Popular (LAE) e cerca de 10% do KKE, que terão recorrido ao chamado “voto útil” contra a ND. Acrescentam-se, ainda, mais de 5% do PASOK e outros tantos da centrista EK e de pequenos partidos, bem como 1% da ND.

O SYRIZA venceu apenas em 10 das circunscrições eleitorais.

Os seus melhores resultados ocorreram nas áreas mais pobres da Ática, em especial Atenas ocidental e o Pireu, em Creta (onde ganhou os quatro círculos eleitorais), na Grécia Ocidental, no Epiro (a noroeste), nas Ilhas Jónicas e na zona de Xanthi, no Nordeste do país.

Ao invés, ficou abaixo da média no resto da Ática, no Peloponeso, nas regiões setentrionais da Macedónia Central (exceto a cidade de Salónica) e Oriental (Xanthi à parte) e nas ilhas do Egeu.

KINAL: subida graças ao esvaziamento do centro

O Movimento da Mudança (KINAL) subiu ligeiramente a sua votação, se compararmos com a Coligação Democrática (DISY), passando de 6,3% dos sufrágios e 17 lugares em 2015 para 8,1% e 22 parlamentares agora.

Estamos em presença de uma aliança de centro-esquerda, formada em torno do Movimento Socialista Pan-Helénico (PASOK).

Este é um partido social-democrata, que representava os interesses da classe média, dos funcionários públicos e dos trabalhadores do setor terciário.

Fundado em 1974, por Andreas Papandreou, deriva, em grande parte, do antigo partido União do Centro (EK), fundado pelo seu pai, Giorgios Papandreou, e da tradição liberal, republicana e maçónica de Eftheros Venizelos, o grande reformador do início do sec. XX.

Criado com uma plataforma de esquerda, nacionalista, anti-imperialista e protecionista, virou ao centro após a sua primeira vitória eleitoral, em 1981, e tornou-se num dos partidos alternantes da 3ª República Helénica até 2012

A crise de 2010 fê-lo perder grande parte do apoio que detinha: de quase 44% em 2009 passou para menos de 5% em janeiro de 2015.

A sua fraqueza levou-o a aliar-se a outras formações. Nas eleições de setembro de 2015, concorreu aliado à Esquerda Democrática (DIMAR), na Coligação Democrática (DISY).

Em 2018, acordou numa fusão com outras formações, originando o KINAL. Porem, duas delas – O Rio (To Potami) e a DIMAR rapidamente abandonaram a aliança, que ficou, assim, circunscrita ao PASOK e ao Movimento Socialista Democrático (KIDISO).

É, atualmente, liderado pela deputada Fofi Gennimata.

Nestas eleições, terá conservado perto de 75% de eleitores do DISY em setembro de 2015.

O seu acréscimo deveu-se a ter ido buscar à volta de 40% do social-liberal Potami, que não concorreu, e cerca de 25% do centrista EK, mais perto de 1% de abstencionistas e jovens, a que se juntam valores residuais do SYRIZA, da ND e de pequenos partidos. Ou seja, o KINAL tornou-se na principal força centrista do país.

Em contrapartida, perdeu perto de 12% para a ND, 7% para a abstenção, à volta de 6% para o SYRIZA e porções residuais para outras formações.

Quanto à sua implantação territorial, esta mostra que as regiões metropolitanas de Atenas /Pireu e de Salónica são o seu “calcanhar de Aquiles”.

Nas áreas rurais, obtém quase sempre resultados acima da média, algo que se deverá ao que restou das redes clientelares do PASOK. Os melhores desempenhos ocorreram no Peloponeso, na Grécia Ocidental, na Macedónia Oriental (em especial, na zona de Rodopis, onde ultrapassou os 20%), em certas áreas do Epiro, em Creta e na ilha de Samos, no Egeu.

KKE: ortodoxia não lhe permite aproveitar desilusão

O Partido Comunista da Grécia (KKE) não conseguiu beneficiar do desgaste da governação do SYRIZA, tendo, mesmo, experimentado uma descida residual, embora mantendo a mesma representação parlamentar. Assim, apesar de ter descido de 5,6% em 2015 para 5,3% agora, elegeu, em ambos os atos eleitorais, 15 deputados.

Partido comunista ortodoxo, tem apoio nos meios operários e entre as classes baixas.

Fundado em 1918, foi ilegalizado pelo regime fascista de Metaxas, em 1936.

Principal força de resistência contra a ocupação nazi-fascista durante a 2ª guerra mundial (1941-44), foi derrotado na guerra civil (1946-49) e novamente ilegalizado, embora a Esquerda Democrática Unida (EDA) funcionasse como a sua face legal..

Em 1968, após a invasão da Checoslováquia cinde-se em duas fações: a do Exterior (pró-soviética) e a do Interior (adepta do “eurocomunismo”).

Foi novamente legalizado em 1974, após o fim da “ditadura dos coronéis”.

Em 1988, fez uma coligação com a esquerda radical, denominada Synaspismos (SYN) e participou num governo de união nacional, após um escândalo de corrupção envolvendo o primeiro-ministro Andreas Papandreou.

Após a queda do muro de Berlim e o fim da URSS, em 1991, reafirma a sua ortodoxia, expulsa os renovadores e abandona o SYN.

É, atualmente, liderado por Dimitris Koutsoumpas.

O partido terá conservado cerca de 83% dos seus eleitores de 2015.

As suas perdas mais significativas foram os 10% que fugiram para o SYRIZA. Depois, há ainda a registar 3% para a abstenção e 2% para a MéRA 25, de Varoufakis e valores residuais para diversas forças políticas.

Em compensação, foi buscar 1% ao SYRIZA, 0,5% a abstencionistas e jovens e pequenas porções a outras formações, em especial à LAE.

Ao nível territorial, há a registar que o KKE registou uma pequena subida na Ática e descidas em quase todo o restante país.

Os seus melhores resultados ocorreram nas zonas pobres da Ática (Atenas ocidental e Pireu), nas Ilhas Jónicas, em algumas áreas urbanas da Grécia Central e da Tessália e nas ilhas de Samos e Lesbos, no Egeu setentrional.

Já os mais fracos registaram-se na maior parte da Macedónia (com exceção da zona urbana de Salónica), no norte e nordeste, no Peloponeso, em Creta e nas ilhas do Egeu meridional.

EL: extrema-direita populista substitui a nazi-fascista

Fundado em 2016, o novo partido Solução Grega (EL) foi um dos vencedores do ato eleitoral, já que, com 3,7% dos sufrágios, acedeu à representação parlamentar, conseguindo 10 deputados.

Trata-se de uma formação da nova extrema-direita populista. Ultranacionalista, pretende a denúncia do acordo de Prespa, assinado entre Atenas e Skopje, que reconhece a esta última a designação de Macedónia do Norte para o seu país.

Advoga, ainda, a construção de um muro na fronteira com a Turquia, a sua eventual minagem e o não acolhimento de novos imigrantes. É, ainda, favorável ao restabelecimento da pena de morte para assassinos, pedófilos e traficantes de droga.

Pretende reformas regressivas na educação, que favoreçam as posições da Igreja Ortodoxa.

Apoia uma maior intervenção do Estado, com forte investimento público no setor primário, em especial na exploração de minerais na ZEE do país, para alimentar a indústria pesada, bem como na construção de infraestruturas.

A nível externo, é acentuadamente eurocético, defendendo o estreitamento das relações com a Rússia e a China, em detrimento do Ocidente.

O seu líder é Kyriakos Velopoulos, um antigo membro do LAOS, partido da direita nacionalista. Foi apresentador televisivo, sendo autor de vários “talk-shows”, em que promovia os seus livros (em especial, uma biografia de Alexandre Magno), desenvolvia várias teorias da conspiração e debitava “fake news”. Também tinha programas de televendas, num dos quais vendia o que afirmava serem “cartas escritas por Jesus Cristo”.

O seu êxito eleitoral deve-se, em grande parte, aos 40% de eleitores conquistados à Aurora Dourada (XA), da extrema-direita nazi-fascista. A esses, somam-se, ainda, quase 15% do ANEL, da direita nacionalista, que não se apresentou a sufrágio, mais 0,5% de abstencionistas e jovens, outros tantos da ND e valores residuais de outras formações.

A sua maior implantação territorial é maior em algumas pequenas e médias cidades da Macedónia (em especial, em Florina e Drama), incluindo a zona de Salónica, mas com exceção de Xanthi, dada a hostilidade da EL às minorias não helénicas. Ainda ficou acima da média nas áreas suburbanas da Ática e, em menor grau, em certas zonas da Tessália, na região central-setentrional.

Já as piores votações ocorreram no Epiro, nas Ilhas Jónicas, na Grécia Ocidental, nas ilhas do mar Egeu (exceto nas do Dodecaneso) e em Creta.

MéRA 25 : uma pequena esperança para Varoufakis

Depois de ter falhado, “por uma unha negra”, a representação no PE, ao ficar-se pelos 2,99% nas últimas europeias, o MeRA 25, nova força política fundada pelo ex-ministro das Finanças Yanis Varoufakis, conseguiu entrar no Parlamento helénico, ao obter 3,4% dos votos, o que lhe valeu a eleição de nove parlamentares.

Fundado em 2018, o novo partido é uma formação de esquerda, que se opõe às medidas de austeridade defendidas pela UE e aplicadas pelo executivo do SYRIZA após a capitulação de Tsipras.

Advoga a reestruturação da dívida pública grega, que considera insustentável, criando um organismo público para o efeito; a redução dos saldos primários, que impossibilitam o investimento público e estrangulam a economia; a criação de uma plataforma pública de pagamentos digitais; apoio à inovação e respeito pelos trabalhadores, entre outras propostas.

Apesar das suas críticas às instituições da UE, é favorável a uma solução federal para a Europa.

Os seus votos vieram, principalmente, de 4% de eleitores do SYRIZA e de 1,5% de abstencionistas e jovens. Mas para o seu êxito eleitoral contribuíram, ainda, 12,5% vindos da LAE, 8,5% de pequenos partidos de esquerda, 2% do KKE e porções residuais provenientes de formações do centro.

Como seria de esperar, o essencial do seu apoio vem das áreas urbanas. Por isso, os seus melhores resultados registam-se na Ática (em especial, nas periferias de Atenas e no Pireu), em Salónica, nas áreas urbanas de Creta, na ilha jónica de Corfu e nas Cíclades (no Egeu Sul).

As regiões setentrionais (o Epiro e as Macedónias), as ilhas do Egeu Norte e as áreas rurais das regiões centrais e ocidentais do país foram aquelas onde o seu desempenho foi mais fraco.

Outros partidos: o fim da Aurora Dourada?

Os restantes partidos não ultrapassaram a cláusula-barreira.

A maior surpresa foi a Aurora Dourada (XA), formação da extrema-direita, de orientação nazi-fascista, que, após ter obtido 7,0% e eleito 18 deputados em 2015, se ficou agora pelos 2,93% e, por isso, fora do Parlamento.

Liderada por Nikolaos Michaloliakos, esteve envolvida em vários atos de violência contra imigrantes, refugiados e militantes de esquerda, entre os quais avulta o assassinato do “rapper” Pavlos Fyssas.

Alguns dos seus membros estão a ser julgados por esse e outros crimes. Agora, a perda da imunidade parlamentar poderá permitir que altos dirigentes do partido se sentem no bando dos réus e acabem, eventualmente, condenados.

Apesar de ter encabeçado as manifestações contra o acordo de Prespa, em 2018, o seu apoio foi caindo. Para isso contribuiu, em muito, o aparecimento da EL, que, como vimos, captou quase metade dos eleitores da XA.

Veremos se o partido recupera deste desaire ou regressa ao quase anonimato de antes da crise.

Também a União dos Centristas (EK) que, em setembro de 2015, conseguiu 3,4% dos votos e a eleição de nove parlamentares, ficou-se por uns modestos 1,2% e voltou ao estatuto de força extraparlamentar.

O partido terá sido vítima da bipolarização entre a ND e o SYRIZA, vendo a maioria dos eleitores fugir para o primeiro e alguns para o segundo. Outros ainda, mais centristas, terão migrado para o KINAL, que viram com maiores hipóteses de ultrapassar a cláusula-barreira.

Outras duas forças políticas parlamentares decidiram não concorrer a este ato eleitoral.

Foram elas O Rio (Potami), de centro-esquerda, que conseguira 4,1% dos votos e 11 eleitos, e os Gregos Independentes (ANEL), da direita nacionalista, parceiro governamental do SYRIZA até à assinatura dos acordos de Prespa, que obtivera 3,7% e elegera 10 deputados.

Quem falhou a entrada no Parlamento foram as duas formações de esquerda fundadas por dissidentes do SYRIZA.

Assim, a Via da Liberdade (PE), fundada em 2016 pela ex-presidente do Parlamento, Zoe Konstantopoulou, que defende um regresso ao programa original do SYRIZA, não foi além de 1,6% dos votos.

Pior fez a mais radical Unidade Popular (LAE), liderada por Panagiotis Lafazanis, antigo ministro da Energia. Se, em setembro de 2015, falhara por pouco a entrada no Parlamento, ao quedar-se por 2,86% dos votos, agora não foi além de uns modestíssimos 0,3%.

Conclusão

Estamos na Grécia e estamos, igualmente, perante o eterno retorno, metaforizado no mito de Sísifo. Na verdade, tudo parece ter voltado ao quadro partidário existente antes da crise. Mas, como no teatro, houve algumas trocas de protagonistas.

Assim, o país regressou à bipolarização, com um polo no centro-direita (a ND) e outro no centro-esquerda (antes, o PASOK; agora, o SYRIZA). Ou seja, este último deixou de ser uma força alternativa para ocupar o lugar vago do primeiro como alternante.

Tal como então, surgiam, episodicamente, algumas formações centristas, que acabavam invariavelmente “canibalizadas” por um dos grandes. Só que agora é o “velho” PASOK, ressuscitado no KINAL, a ocupar esse espaço. Resistirá aí? Provavelmente, dada a persistência de algumas das suas antigas redes clientelares.

Também apareciam, de vez em quando, forças da direita radical, que acabavam por se desagregar ou ser “comidas” pala ND. Para já, a EL surge como uma versão mais “soft” da extrema-direita face às simpatias nazi-fascistas e ao antissemitismo da XA. Resta saber se crescerá ou se não será mais um meteoro político. Mas será um eventual alívio da crise que poderá reduzir a base de apoio da extrema-direita e a sua eventual absorção pela direita conservadora.

Por fim, a desilusão com o SYRIZA, se não conduziu ao aumento do apoio ao ortodoxo partido comunista, também não favoreceu a emergência de novas forças de esquerda, formadas por alguns dos seus dissidentes. É que, quando as pessoas se sentem defraudadas por aqueles que julgavam diferentes e em quem apostaram “as suas fichas”, dificilmente acreditam em novas promessas.

Para já, Kyriakos Mitsotakis e a ND governarão sozinhos e tudo indica que a sua governação não será diferente da que sempre foi a prática da direita grega no poder: apoio aos mais ricos e as mesmas práticas clientelares e corruptas.

Sendo provável que as instituições europeias revelem alguma boa vontade face ao novo executivo, não darão, porém, o único passo que poderia ajudar o país: a reestruturação da dívida. Logo, mesmo que em doses mais reduzidas, a austeridade continuará e, com ela, o “calvário” do povo grego. Resta saber quando e como terá fim!...

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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