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Eleições na Baviera: Merkel perdeu mesmo?

A União Social-Cristã da Baviera (CSU), partido “irmão” da União Democrata-Cristã (CDU) da chanceler Angela Merkel, sofreu pesadas perdas nas eleições regionais da Baviera, que lhe custaram a maioria absoluta. Artigo de Jorge Martins.

A União Social-Cristã da Baviera (CSU), partido “irmão” da União Democrata-Cristã (CDU) da chanceler Angela Merkel, sofreu hoje pesadas perdas nas eleições regionais da Baviera, que lhe custaram a maioria absoluta. Apesar de continuar a ser, “a léguas”, o maior partido do estado, a CSU quedou-se pelos 37,2% dos votos, o seu pior resultado desde 1950. Os social-cristãos pagaram pela impopularidade do governo regional, liderado por Markus Söder, e também por uma campanha centrada na questão da imigração e dos refugiados, no intuito de roubar votos à extrema-direita. Uma estratégia que não deu grandes resultados, já que, se o partido perdeu votos para aquela, também viu fugir bastantes para ecologistas, liberais e centristas.

Por seu turno, o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), até agora a principal formação da oposição bávara, mas aliado da CDU no governo federal, também protagonizou um resultado histórico negativo, tendo, pela primeira vez, ficado abaixo dos dois dígitos. Ao perder mais de metade dos votos de há quatro anos, o SPD passou a ser apenas a quinta força política no Parlamento de Munique.

Os Verdes (Grüne) foram os grandes triunfadores deste ato eleitoral. Conseguindo uns históricos 17,5%, mais que duplicaram a sua votação relativamente a 2013. Tornaram-se, assim, na segunda força política do estado. O partido logrou, mesmo, vencer na capital, Munique, onde arrebatou cinco dos nove círculos uninominais, e na cidade de Würzburg, no Noroeste do estado. Um grande resultado, que se deve, em grande parte, à popularidade da sua jovem líder, Katharina Schulze.

Outra formação política que saiu fortalecida destas eleições foi a dos Votantes Livres (FW), que lograram ultrapassar os dois dígitos. Trata-se de um partido centrista, com implantação significativa apenas na Baviera, cujo ideário abarca medidas próximas dos conservadores e dos liberais, mas também algumas dos verdes e, em menor grau, dos social-democratas e da direita populista.

Por seu turno, o partido da extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que concorreu pela primeira vez no estado e centrou a sua campanha na oposição à imigração e ao acolhimento de refugiados, obteve 10,2% dos sufrágios, apesar de tudo um resultado um pouco abaixo das expectativas. Contudo, o seu aparecimento terá sido uma das causas (embora não a única) da queda dos social-cristãos.

Entretanto, os liberais do Partido Democrata Livre (FDP) conseguiram, “por uma unha negra”, regressar ao Parlamento regional, ficando um pouco acima da cláusula-barreira de 5%.

Já o Partido da Esquerda (Die Linke), apesar de ter registado um acréscimo eleitoral de 50%, não conseguiu atingir aquele valor, continuando a ser uma força extraparlamentar no estado.

De registar o grande aumento da participação eleitoral face às eleições de há cinco anos atrás, com aquela a ultrapassar os 72%.

Eis os resultados finais, comparados com os do último ato eleitoral, realizado em 2013:

CSU (direita conservadora)………………37,2 (85)…………47,6 (101)

GRÜNE (verdes)…………………………..17,5 (38)…………  8,6 (  18)

FW (centro)…………………………………11,6 (27)………… 9,0 (  19)

AfD (extrema-direita)………………………10,2 (22)………...-------------

SPD (social-democrata)…………………..  9,7 (22)…………20,6 ( 42)   

FDP (direita liberal)………………………..  5,1 (12)…………  3,3 (----)

DIE LINKE (esquerda)…………………….  3,2 (----)………….2,1 (----)

Outros……………………………………….  5,5 ….….………  8,8

A participação eleitoral cifrou-se em 72,4%, contra 63,9% há cinco anos.

Ao contrário do que sucedeu em 2013, quando foram apenas eleitos os 180 deputados previstos, desta vez o Parlamento irá contar com 205 membros. A explicação deve-se ao facto de 91 lugares serem atribuídos em círculos uninominais e os outros 89 através da representação proporcional ao nível dos sete distritos administrativos em que se divide a Baviera. Como a CSU, apesar de ter perdido muitos votos, continua a ser o partido dominante, venceu a esmagadora maioria dos círculos uninominais (85 contra 6 dos Verdes). Logo, obteve vários mandatos excedentários, já que, em várias circunscrições, o número de lugares conseguidos naqueles eram superiores aos que lhe cabiam na representação proporcional. Consequentemente, para manter a proporcionalidade, houve que atribuir mandatos compensatórios às restantes forças políticas, pelo que o Parlamento estadual terá mais 25 eleitos, ou seja, 205 deputados.

Apesar de ter perdido a maioria absoluta, a CSU continuará a liderar o estado, provavelmente em coligação ou com o apoio parlamentar dos FW. Com efeito, desde o início, os social-cristãos excluíram quaisquer acordos com a AfD e uma aliança com os liberais do FDP não é matematicamente suficiente para a maioria parlamentar. Repetir na Baviera a “grande coligação” com o SPD, existente a nível nacional, não parece fazer muito sentido, especialmente após o péssimo resultado dos social-democratas, cuja líder federal, Andrea Nahles, culpou o fraco desempenho do executivo de Berlim pela derrota. Já um acordo com os Verdes seria possível, mas pouco provável, dadas as grandes divergências entre as duas forças políticas num grande número de matérias (imigração, costumes, ambiente, entre outras). Por isso, restarão os FW, com quem a CSU já esteve coligada. Se isso não acontecer, o mais provável é um governo minoritário social-cristão, que buscaria apoios alternados no Parlamento. Mas, como a opinião pública alemã não gosta de soluções minoritárias, a primeira solução que referimos é a mais lógica e, por isso, a mais possível de acontecer.

Ao contrário do que possa parecer, o resultado não é totalmente negativo para Angela Merkel. Com efeito, nos últimos tempos, o líder da CSU e ministro do Interior, Horst Seehofer, tem dado grandes “dores de cabeça” à chanceler, pressionando-a para tomar uma posição mais dura face ao acolhimento de refugiados, dentro da estratégia de evitar perder votos para a AfD. Foi dele a ideia de criar campos de detenção para refugiados na Baviera, medida que foi criticada pela Igreja Católica bávara, um dos principais sustentáculos dos social-cristãos. Por isso, o falhanço da sua estratégia e consequente desaire eleitoral tenderão a enfraquecer a sua posição no governo federal, embora Seehofer tenha manifestado a sua intenção de não se demitir. Já a profunda derrota do SPD poderá ser mais preocupante para Merkel, já que tenderá a avivar as dúvidas sobre a vantagem da “grande coligação” no interior dos social-democratas, desde sempre manifestadas pela ala esquerda do partido. Contudo, o problema é que abandonar a aliança governativa com a CDU e ir logo de seguida para eleições poderia ser desastroso para o SPD, que se arriscaria a descer ainda mais a sua votação e, consequentemente, tornar-se quase irrelevante na cena política alemã. Por isso, para já, a sobrevivência do executivo federal não parece em causa, embora não se exclua alguma instabilidade política no futuro, em especial se as próximas eleições regionais, daqui a duas semanas, no Hessen, tiverem um desfecho semelhante.

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Aderente do Bloco de Esquerda em Coimbra
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