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Eleições em Timor-leste: maioria da coligação de Xanana não garante estabilidade

Nas eleições legislativas antecipadas do passado dia 12, a coligação de centro-direita Aliança para a Mudança e o Progresso (AMP), liderada por Xanana Gusmão, obteve a maioria absoluta, derrotando a Fretilin. Por Jorge Martins.
A AMP liderada por Xanana Gusmão, obteve a maioria absoluta nas eleições de 12 de maio de 2018 em Timor-Leste
A AMP liderada por Xanana Gusmão, obteve a maioria absoluta nas eleições de 12 de maio de 2018 em Timor-Leste

Nas eleições legislativas antecipadas do passado dia 12 de maio, a coligação de centro-direita Aliança para a Mudança e o Progresso (AMP), liderada por Xanana Gusmão, obteve a maioria absoluta, derrotando a Fretilin, de centro-esquerda, do primeiro-ministro Mari Alkatiri.

Uma república semipresidencialista

Tal como sucede com as nossas ex-colónias africanas, também Timor-Leste é uma república dotada de um regime semipresidencialista semelhante ao que vigora em Portugal. Algo que não surpreende, já que grande parte da sua Constituição (e também das dos PALOP, após estes terem aderido ao multipartidarismo, nos anos 90) foi escrita por constitucionalistas portugueses.

Assim, o Presidente da República é eleito por sufrágio direto e universal para um mandato de cinco anos, num sistema de eleição a duas voltas. Tal como entre nós, se nenhum candidato obtiver a maioria absoluta dos votos validamente expressos na 1ª volta, haverá lugar a um 2º turno entre os dois mais votados. Os seus poderes são limitados, embora lhe caiba nomear o primeiro-ministro, tendo em conta os resultados eleitorais. Pode, igualmente, vetar legislação, suscitar a verificação da constitucionalidade das leis e dissolver a assembleia parlamentar.

Por seu turno, o Parlamento Nacional é constituído por 65 deputados, eleitos num único círculo nacional, através do método de Hondt, em listas fechadas e bloqueadas, também para cinco anos de mandato. Existe uma cláusula-barreira que reserva os lugares parlamentares aos partidos e coligações que obtenham, no mínimo, 4% dos votos válidos no conjunto do país e das principais comunidades timorenses no exterior (Austrália, Portugal, Reino Unido e Coreia do Sul).

Xanana Gusmão e Mari Alkatiri

Após o triunfo da independência no referendo de 30 de agosto de 1999 e da intervenção da ONU que se seguiu à política de terra queimada levada a efeito pelos militares indonésios após a consulta popular, emergiram dois líderes, que, ainda hoje, continuam a ser os principais protagonistas da vida política timorense: Xanana Gusmão e Mari Alkatiri. Se partilham a ambição e o taticismo políticos, representam dois estilos diferentes. O primeiro, líder da resistência no interior e primeiro presidente do país após a independência, em 2002, é visto como o grande herói da resistência e considerado por muitos como “o pai da nação”. É carismático, impulsivo e gosta de exercer o poder à sua maneira. Tal como a esmagadora maioria dos seus compatriotas, é católico. Por seu turno, o segundo, que esteve exilado em Moçambique durante a ocupação e foi o primeiro chefe de governo eleito após a libertação, é mais reservado, ponderado e racional. Ao contrário do seu adversário, pertence à pequena minoria muçulmana do país, sendo descendente de comerciantes de origem iemenita. Daí a hegemonia marcante das duas forças políticas por eles lideradas no xadrez partidário nacional: o CNRT do primeiro e a Fretilin do segundo. Num país pequeno, com pouco mais de um milhão de habitantes (na sua maioria, jovens), em geral ainda com reduzidos níveis de instrução, e com reduzidas acessibilidades internas, a sociedade assenta, em muito, na autoridade dos chefes tradicionais, cujo peso é esmagador, especialmente a nível local. Não admira, assim, que a familiarização e a fulanização constituam os principais aspetos da política timorense, o que explica algumas alianças que, do ponto de vista estritamente ideológico, parecem incoerentes.

Em 2017, a Fretilin venceu o CNRT

Nas eleições de julho de 2017, a Fretilin venceu o CNRT por pequena margem de votos e formou, em setembro, um governo minoritário juntamente com o Partido Democrático, já que uma terceira força política (o Khunto) recusou, à última hora, integrar o executivo. Porém, no mês seguinte, os três partidos da oposição parlamentar rejeitaram o orçamento e propuseram ao PR a substituição do governo por um executivo maioritário com base numa coligação entretanto formada, que designaram por AMP (Aliança da Maioria Parlamentar). O chefe de Estado, Francisco Guterres “Lu Olo”, membro da Fretilin, não aceitou a proposta, optando por dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas, algo que gerou fortes críticas das forças oposicionistas.

Também por isso, a campanha decorreu num ambiente de grande crispação, com insultos, insinuações, acusações e ameaças, tanto através dos órgãos de comunicação social tradicionais como, e principalmente, das redes sociais. Registaram-se, inclusive, alguns episódios de violência, embora sem consequências de maior. Na véspera do ato eleitoral, a AMP acusou a Fretilin de preparar uma fraude massiva, por, alegadamente, controlar os organismos de supervisão eleitoral - o STAE (Secretariado Técnico dos Assuntos Eleitorais) e a CNE (Comissão Nacional de Eleições) -, algo que estes negaram de forma veemente. Porém, após se conhecerem os resultados, foi esta última que levantou dúvidas sobre a sua veracidade. Contudo, o dia da votação decorreu de forma tranquila e os observadores internacionais de várias proveniências consideraram as eleições em geral livres, justas e transparentes.

Acentuada bipolarização

Relativamente aos resultados, assistiu-se a uma acentuada bipolarização em torno das duas principais forças políticas. Contudo, ao contrário do que se poderia esperar, a sua representação parlamentar não aumentou. Esse fenómeno explica-se pelo facto de alguns pequenos partidos que, nas eleições do ano passado, concorreram isolados, terem agora concorrido em coligação. Como uma delas ultrapassou a cláusula-barreira, ficaram menos lugares à disposição dos que já se encontravam representados no Parlamento Nacional.

A AMP (agora redenominada Aliança para a Mudança e o Futuro) foi a força mais votada, tendo obtido 49,3% dos votos, o que lhe valeu a conquista de 34 lugares, ou seja, a maioria absoluta no Parlamento Nacional. Em 2017, os três partidos que a constituem obtiveram, em conjunto, 46,5% dos sufrágios: 29,5% o CNRT, 10,6% o PLP e 6,4% o Khunto, elegendo, então, 35 deputados (22 o primeiro, oito o segundo e cinco o terceiro). Nas eleições de domingo, e pelas razões que explicámos acima, a aliança obteve menos um lugar, o que levou o CNRT a perder um eleito, mantendo os restantes o mesmo número de parlamentares. Numa breve caraterização dos partidos constituintes da coligação, o CNRT (Conselho Nacional da Reconstrução Timorense), liderado por Xanana Gusmão, foi fundado por este em 2007 e adotou a sigla da última designação da frente que albergava vários grupos de resistência durante a ocupação indonésia, o Conselho Nacional da Resistência Timorense. A Fretilin, principal força integrante daquele órgão, criticou duramente a adoção dessa sigla, considerando-a uma usurpação de um património comum da luta de libertação. O partido, que assenta, essencialmente, no forte carisma do seu líder (mesmo quando se demitiu da liderança, manobrou sempre na sombra), é de tendência liberal-conservadora, possuindo fortes ligações à poderosa Igreja Católica timorense. Podemos, assim, classificá-lo no centro-direita do espectro partidário. No que se refere à posição do país no palco internacional, defende um reforço das relações com a Austrália e os EUA. Daí que Xanana seja visto por muitos como o “homem dos australianos” em Dili. Não terá sido por acaso que, enquanto negociador representante do seu país, tenha logrado, pouco antes do início da campanha, a assinatura de um acordo com a Austrália sobre a delimitação da fronteira marítima e consequente propriedade dos poços de petróleo aí existentes. Ao conseguir arrancar algumas concessões significativas ao poderoso vizinho meridional, foi recebido em delírio no aeroporto por muitos dos seus compatriotas, algo que terá ajudado ao bom resultado eleitoral da aliança que encabeçava. Por seu turno, o PLP (Partido de Libertação Popular) foi fundado em 2015 sob a inspiração do antigo chefe militar e então presidente da República, Taur Matan Ruak, que havia sido eleito como independente. Após terminar o seu mandato presidencial, em 2017, assumiu a chefia do partido. Esta é, essencialmente, uma formação unipessoal, de tendência centrista e populista. Se a luta contra a corrupção é o grande objetivo que, supostamente, a anima, também se carateriza por ser mais favorável ao investimento público em infraestruturas que o seu parceiro maior da aliança. Ao contrário das duas maiores formações, possui um eleitorado relativamente jovem. Muitos dos seus membros estudaram na Indonésia e integraram a luta clandestina no interior do então ocupante, tendo poucos laços com Portugal e a língua portuguesa. Por fim, o Khunto (Kmanek Haburas Unidade Nasional Timor Oan, designação em tétum que significa Enriquecimento da Unidade Nacional dos Filhos de Timor) é uma formação populista antissistema, fundada a partir da maior federação de grupos de artes marciais do país: o Korka. Alguns membros desta estiveram envolvidos em confrontos violentos com outros grupos rivais, na década passada, tendo o seu líder, José dos Santos Bucar, conhecido por Naimori, estado preso por participação nessas rixas. Em 2011, fundou o partido, mas assume-se apenas como seu conselheiro político, estando a liderança formal entregue à sua mulher, Armanda Berta dos Santos. Funciona um pouco como uma seita religiosa, assente nas crenças tradicionais timorenses. Os seus membros prestam um juramento de sangue, em que se comprometem a renunciar às riquezas terrenas, cujo incumprimento originará punições divinas ainda em vida para os prevaricadores. Por isso, assume-se como fortemente anticorrupção. A coligação conseguiu melhorar os seus resultados com a conquista de alguns abstencionistas, de eleitores de pequenas formações conservadoras e da ala direita do PD, que compensaram algumas perdas de anteriores votantes do PLP. A AMP venceu em 10 dos 13 municípios (antigos distritos) do país. Como é habitual, obteve os melhores resultados nos municípios do Centro e Oeste do país, com destaque para Manatuto, terra natal de Xanana Gusmão (61,7%), Aileu (59,6%), Ainaro (57,2%), a capital, Díli (55,3%) e, ainda, para Ermera (54,2%). No enclave de Oecussi registou uma forte subida, atingindo 58,9% dos sufrágios, algo que constituiu uma surpresa. Em contrapartida, continua bastante aquém desses valores no Leste: para além de não ter ido além dos 39,4% dos votos em Baucau e dos 35,9% em Lautém, ficou-se por uns modestos 26,2% em Viqueque. A coligação também foi derrotada na emigração, onde apenas venceu na Coreia do Sul.

A Fretilin obteve 34,2% dos votos

A Fretilin (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) obteve 34,2% dos votos, um avanço significativo face aos 29,7% de há um ano, mas, pelas razões já referidas, não cresceu em número de deputados, mantendo os 23 então conquistados. É um dos mais antigos partidos políticos timorenses. Fundada em 1974 como ASDT (Associação Social-Democrata Timorense), adotou, poucos meses depois, a atual designação, assumindo-se como movimento revolucionário de libertação, de ideologia marxista. Após uma curta guerra civil, em que derrotou os seus rivais da direitista UDT (União Democrática Timorense), proclamou, em 28 de novembro de 1975, a República Democrática de Timor-Leste, que soçobraria, poucos dias depois, perante a invasão indonésia. Durante a ocupação, foi a principal força da resistência armada, através da sua ala militar, as Falintil (Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste). Após a morte de grande parte dos membros do seu Comité Central, entre os quais o ex-presidente Nicolau Lobato, Xanana Gusmão torna-se presidente do partido e líder da guerrilha. Muda a tática (passa a atacar os indonésios através de pequenos grupos, dotados de grande mobilidade) e abandona a ideologia marxista, de forma a atrair outros setores da população e a Igreja Católica para a luta contra o ocupante. Nessa mesma perspetiva, procura federar as várias organizações de oposição à ocupação, esforços que culminam na criação do Conselho Nacional da Resistência Maubere (CNRM), mais tarde redenominado CNRT com a substituição da controversa designação de Maubere por Timorense, em meados dos anos 80. Divergências com os seus camaradas levam Xanana e Ramos-Horta (porta-voz da resistência timorense nos EUA e na ONU) a deixar o partido, embora, oficialmente, o seu abandono tivesse sido justificado com a necessidade de liderarem a resistência sem constrangimentos partidários. Entretanto, as Falintil passam a estar sob controlo do CNRT e deixam de estar sob a influência exclusiva da Fretilin. Após o referendo de 30 de agosto de 1999, que aprovou a independência do país, esta realiza o seu Congresso, em Dili, onde se afirma como um partido social-democrata, de centro-esquerda, e elege Francisco Guterres “Lu Olo” como seu presidente e Mari Alkatiri como secretário-geral. Nas eleições constituintes de 2001, o prestígio adquirido durante a luta de libertação torna a “marca” Fretilin imbatível e esta vence claramente as eleições, obtendo mais de 57% dos votos, que lhe valeram a eleição de 55 dos então 88 lugares em disputa. Parecia que estaríamos em presença de uma democracia com um partido dominante, como, por exemplo, o ANC na África do Sul, algo que o futuro não confirmaria. Para isso contribuíram as divisões internas e as já então visíveis más relações com Xanana Gusmão, confortavelmente eleito presidente da República no ano seguinte, com quase 83% dos sufrágios. Em 2006, na sequência de uma crise político-militar que tudo indica ter sido instigada pelo então chefe de Estado, com o apoio da Austrália, Alkatiri foi forçado a demitir-se e substituído por Ramos-Horta. Afastada do poder, a Fretilin foi a mais votada nas eleições do ano seguinte, mas foi o recém-criado CNRT de Xanana que conseguiu formar governo. Derrotada de forma clara em 2012, voltou inesperadamente ao poder em 2015, após a demissão de Xanana Gusmão, num governo de unidade nacional com o CNRT, sob a liderança do seu militante Rui Araújo. Este durou até ao ato eleitoral do ano passado, que o partido venceu tangencialmente e que levou Alkatiri a regressar à chefia do executivo. Entretanto, também em 2017, elegeu Francisco Guterres “Lu Olo” como primeiro PR saído das suas fileiras após a independência. Ao contrário do CNRT e seus aliados, a Fretilin aposta mais no investimento público, num maior protecionismo económico, em políticas mais amigas do ambiente e defende a diversificação das relações internacionais do país, de forma a evitar que este caia na esfera de influência australiana. Daí que privilegie os laços com a vizinha Indonésia e os outros estados da ASEAN, com a China, o Japão e a Coreia do Sul e também com Portugal e a UE. Uma das medidas mais importantes do primeiro governo de Alkatiri foi a criação de um fundo do petróleo e do gás, para onde são canalizadas as receitas da exploração dos hidrocarbonetos, de forma a que estas sejam postas ao serviço do desenvolvimento nacional. A subida na votação da Fretilin foi ajudada pela mudança de atitude de alguns setores da Igreja Católica relativamente ao partido e pelo apoio recebido de algumas figuras prestigiadas, como o ex-presidente Ramos-Horta. O reforço dos votos veio da conquista de abstencionistas, de alguns votantes da ala esquerda do PLP e de pequenas forças políticas. Em termos geográficos, o partido mantém os seus tradicionais bastiões no Leste, tendo vencido nos três municípios dessa região: Viqueque (62,4%), Baucau, a segunda cidade do país (51,9%) e Lautém (44,8%). Contudo, registou uma subida significativa em Dili, onde chegou aos 34,8%. Porém, sofreu uma derrota inesperada em Oecussi, que havia vencido nas últimas eleições com quase 40% dos sufrágios e onde, agora, não passou dos 28,4%. O enclave constitui uma Região Administrativa Especial, dirigida por uma autoridade da denominada Zona Especial de Economia Social de Mercado de Timor-Leste (ZEESM-TL), com competência para gerir, de forma autónoma, programas de desenvolvimento económico e social, sem sujeição a algumas regras que se aplicam no restante território nacional. Ora, desde a sua criação, em 2015, até 2017, o seu presidente foi Mari Alkatiri, o que explicará o bom resultado obtido pela Fretilin no último ato eleitoral. O seu abandono, com vista a chefiar o executivo, ter-se-á refletido na prestação eleitoral do partido na região. Este foi a força mais votada na emigração, tendo vencido na Austrália, em Portugal e no Reino Unido, apenas perdendo na Coreia do Sul.

Por sua vez, o Partido Democrático (PD) perdeu alguns pontos relativamente às eleições anteriores, tendo obtido 8,1% dos votos e eleito cinco parlamentares, contra 9,8% e sete eleitos em 2017. Formado em 2001, a partir da Renetil (Rede Nacional de Estudantes de Timor-Leste), organização que coordenava os estudantes timorenses no interior e no estrangeiro, teve como fundador e líder Fernando “La Sama” Araújo até à sua morte, em 2015. Atualmente, o partido é presidido por Mariano Sabino Lopes, tendo como secretário-geral António da Conceição, candidato derrotado nas presidenciais do ano anterior. Situado ideologicamente no centro-direita, foi o segundo partido mais votado nas eleições constituintes de 2001, que resultaram num triunfo esmagador da Fretilin. Após a criação do CNRT, por parte de Xanana Gusmão, pouco antes das eleições de 2007, assumiu-se como uma das “muletas” deste último, garantindo-lhe uma maioria para governar, apesar de o partido de Alkatiri ter sido o mais votado. Em troca, “La Sama” assumiu o cargo de presidente do Parlamento Nacional. Em 2012, renovou a aliança com o ex-presidente e, quando este se demitiu, em 2015, participou no governo de unidade nacional, juntamente com as duas maiores forças políticas. No ano seguinte, já depois do falecimento do seu fundador, dá-se a rutura com o CNRT e consequente abandono do executivo, após uma controvérsia que envolveu o governo e o Parlamento, por um lado, e o então PR, Taur Matan Ruak, por outro, relativamente à nomeação do novo chefe das Forças Armadas. Ao contrário dos seus parceiros, o PD apoiou o chefe de Estado. Em 2017, nas presidenciais, António da Conceição, então suportado pelo PLP e pelo Khunto, obtém 32,5% dos votos, mas perde para “Lu Olo”, da Fretilin, que garante o apoio informal do CNRT. Contudo, após as legislativas de julho, aceita apoiar o governo minoritário de Alkatiri e, no decurso da campanha, manifestou a sua disponibilidade para manter a aliança com a Fretilin. O partido terá perdido alguns votos para os dois maiores, especialmente para a AMP, já que alguns dos seus eleitores mais conservadores discordaram da aproximação à Fretilin. Como é tradicional, o PD obteve os melhores resultados nos municípios ocidentais (17,8% dos votos em Cova Lima e 14,8% em Bobonaro) e em Lautém, na ponta leste (14,7%), de onde é natural Sabino Lopes. Em contrapartida, mostrou-se muito débil na restante parte oriental da ilha (ficou abaixo dos 4% em Baucau e Viqueque) e também em Aileu (4,2%) e Dili (4,5%), fruto de a bipolarização ter sido mais vincada entre o eleitorado da capital, menos permeável ao caciquismo dos líderes tradicionais.

A última força política a conquistar representação parlamentar foi a coligação Frente Desenvolvimento Democrático (FDD), que obteve 5,5% dos sufrágios e elegeu três deputados. Estamos em presença de uma aliança heteróclita, constituída por quatro formações: o Partido Unidade e Desenvolvimento Democrático (PUDD), sem uma conotação ideológica definida, mas que tem como objetivo assumido a erradicação da pobreza e é popular entre os jovens; a velha e conservadora União Democrática Timorense (UDT), o mais antigo partido político do país, apoiada nas elites tradicionais; a Frente-Mudança (FM), uma dissidência da Fretilin, de cariz social-liberal, que, após as eleições de 2012, se coligou com o CNRT e o PD, e o Partido do Desenvolvimento Nacional (PDN), de tendência conservadora. Os três primeiros partidos elegeram cada qual um parlamentar. Apesar de tudo, nas eleições do ano passado, os quatro membros da coligação obtiveram, em conjunto, um melhor resultado: 2,8% para o PUDD, 2,0% para a UDT, 1,6% para a FM e 0,7% para o PDN, num total de 7,1%. Contudo, não conquistaram qualquer lugar no Parlamento Nacional, pois nenhum deles ultrapassou a cláusula-barreira. A coligação, de oposição ao governo anterior, afirmou na campanha que suportaria um governo da AMP, caso esta não conquistasse a maioria absoluta. Apesar disso, terá perdido votos especialmente para aquela, vítima do chamado “voto útil”. A aliança teve os melhores desempenhos nas áreas rurais do Centro Oeste do país, em especial nos municípios de Ainaro (onde obteve 10,6% dos sufrágios), Manufahi (9,5%) e Liquiçá (8,9%), tendo obtido, igualmente, bons resultados em Ermera e Aileu. Ao invés, revelou-se muito débil no Leste (principalmente, em Lautém e Baucau) e na capital, zonas onde não chegou aos 4%. A sua votação reflete a influência local dos vários líderes partidários e a acentuada bipolarização registada em Díli, tal como sucedeu com o PD.

Os restantes partidos e coligações registaram perdas, obtendo votações residuais. Assim, o Partido Esperança da Pátria (PEP), centrista, liderado por um irmão de Xanana e com apoio entre as novas gerações, desceu de 1,2% para 0,8%. Por sua vez, a coligação Movimento Desenvolvimento Nacional (MDN), que juntou quatro partidos - a monárquica Associação Popular Monarquia Timorense (APMT), o conservador Partido de Libertação do Povo Aileba, que concorrera, em 2017, integrado no então Bloco de Unidade Popular (BUP), o Movimento de Libertação do Povo Maubere (MLPM), de centro-esquerda, e a União Nacional Democrática de Resistência Timorense (UNDERTIM), formação constituída por antigos resistentes - baixou de 2,3% no conjunto, o ano passado, para 0,7%, agora. Já o Partido Republicano (PR), social-democrata e defensor da participação cidadã, manteve os 0,7% então obtidos. Por fim, o Movimento Social-Democrata (MSD), onde a principal formação da esquerda, o Partido Socialista de Timor (PST) se juntava a três forças conservadoras, o Partido Social-Democrata (PSD), o Centro de Ação Social Democrata Timorense (CASDT) e o Partido Democrata Cristão (PDC), não passou 0,5%, muito longe dos 2,4% que a soma das formações que o constituíram representou em 2017. Todos foram penalizados pela lógica do “voto útil”, em especial na AMP.

Os votos brancos e nulos também diminuíram, passando de 2,8% para 1,7%.

Por seu turno, a afluência às urnas passou de 76,7% para 81,0%, algo que está relacionado com a maior dramatização deste ato eleitoral relativamente ao de julho passado.

Xanana Gusmão não terá tarefa fácil

Apesar da maioria absoluta obtida, Xanana Gusmão não terá tarefa fácil. Desde logo, pelos grandes desafios com que o jovem estado timorense está confrontado. Entre os grandes problemas estruturais, comuns a muitos países em desenvolvimento, estão a falta de diversificação do tecido económico, assente, essencialmente, na exploração do petróleo e na exportação de poucos produtos primários (em especial, o café), a pobreza que ainda afeta grande parte da população, os baixos níveis educacionais, a má qualidade ou ausência das infraestruturas básicas e de transporte, a baixa produtividade agrícola e a corrupção endémica na administração pública e na própria classe política. Se é certo que, face às condições de partida, marcadas pela destruição levada a efeito pelas tropas indonésias na sua retirada, o país tem registado elevados níveis de crescimento económico, a verdade é que grande parte dele se sustenta nas receitas do fundo do petróleo. A questão é que este poderá esgotar-se nos próximos anos.

Do ponto de vista político, a maioria parlamentar é relativamente curta. Com efeito, mesmo que os três deputados eleitos pela FDD apoiem o governo, este não sobreviverá se algum dos partidos da aliança se passar para a oposição. Destes, o Khunto é relativamente imprevisível e constituído por muita gente pouco recomendável, como vimos acima. Por outro lado, e para além do facto de o CNRT ser abertamente pró-mercado e o PLP ser favorável a um maior investimento público, há que ver como evoluirão as relações entre Xanana Gusmão e Taur Matan Ruak, dois líderes que estiveram em lados opostos na crise de 2016 e que agora se aliaram para afastar a Fretilin do poder. Tratando-se de dois antigos chefes de Estados, ambos populares, pode haver alguma dificuldade em partilharem o palco e, embora a relação de forças atual seja, claramente, favorável ao primeiro, o segundo é um pouco mais novo, tal como o respetivo eleitorado. Sabendo que a política timorense é altamente personalizada e que o aliado de hoje é o adversário de amanhã, não é certo que o executivo se mantenha durante toda a legislatura. Há, ainda, que ter em conta o papel do PR, “Lu Olo”, que é membro da Fretilin e poderá ser um obstáculo à prossecução de algumas políticas governativas. Até porque, sem precisarmos de ir a Timor, sabemos, não só que a coabitação entre um presidente e um governo oriundos de partidos rivais nunca é fácil, mas também que, independentemente das cores políticas, o semipresidencialismo contém sempre os germes do conflito institucional.

Artigo de Jorge Martins, para esquerda.net

 

Aileu

Ainaro

Baucau

Bobonaro

Covalima

Dili

Ermera

Lautem

Liquica

Manatuto

Manufahi

RAEOA

Viqueque

Austrália

Coreia do Sul

Portugal

Reino Unido

Total

1 - PEP

222

386

406

528

271

600

777

187

381

369

314

340

269

4

0

4

2

5 060

2 - PD

1 118

3 255

2 532

7 797

6 332

5 881

6 843

5 057

3 935

1 718

2 034

2 065

1 655

25

25

38

60

50 370

3 - PR

133

265

432

470

252

405

583

207

390

155

173

178

466

14

0

1

1

4 125

4 - FRETILIN

6 975

5 939

35 612

14 185

8 896

45 206

14 988

15 394

10 834

5 737

8 900

10 831

27 322

441

116

289

1 659

213 324

5 - MSD

92

160

393

264

104

496

379

146

350

251

124

103

306

7

0

9

4

3 188

6 - MDN

386

703

216

308

202

546

1 000

86

346

125

150

153

265

3

0

1

4

4 494

7 - FDD

1 862

3 540

2 031

2 414

1 890

4 847

4 725

946

3 320

1 767

2 800

2 022

2 023

36

23

33

22

34 301

8 - AMP

15 933

19 026

27 027

26 900

17 536

71 763

34 686

12 344

17 663

16 299

14 899

22 455

11 450

314

199

140

1 029

309 663

Total

26 721

33 274

68 649

52 866

35 483

129 744

63 981

34 367

37 219

26 421

29 394

38 147

43 756

844

363

515

2 781

624 525

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aileu

Ainaro

Baucau

Bobonaro

Covalima

Dili

Ermera

Lautem

Liquica

Manatuto

Manufahi

RAEOA

Viqueque

Austrália

Coreia do Sul

Portugal

Reino Unido

Total

1 - PEP

0,83

1,16

0,59

1,00

0,76

0,46

1,21

0,54

1,02

1,40

1,07

0,89

0,61

0,47

0,00

0,78

0,07

0,81

2 - PD

4,18

9,78

3,69

14,75

17,85

4,53

10,70

14,71

10,57

6,50

6,92

5,41

3,78

2,96

6,89

7,38

2,16

8,07

3 - PR

0,50

0,80

0,63

0,89

0,71

0,31

0,91

0,60

1,05

0,59

0,59

0,47

1,06

1,66

0,00

0,19

0,04

0,66

4 - FRETILIN

26,10

17,85

51,88

26,83

25,07

34,84

23,43

44,79

29,11

21,71

30,28

28,39

62,44

52,25

31,96

56,12

59,65

34,16

5 - MSD

0,34

0,48

0,57

0,50

0,29

0,38

0,59

0,42

0,94

0,95

0,42

0,27

0,70

0,83

0,00

1,75

0,14

0,51

6 - MDN

1,44

2,11

0,31

0,58

0,57

0,42

1,56

0,25

0,93

0,47

0,51

0,40

0,61

0,36

0,00

0,19

0,14

0,72

7 - FDD

6,97

10,64

2,96

4,57

5,33

3,74

7,39

2,75

8,92

6,69

9,53

5,30

4,62

4,27

6,34

6,41

0,79

5,49

8 - AMP

59,63

57,18

39,37

50,88

49,42

55,31

54,21

35,92

47,46

61,69

50,69

58,86

26,17

37,20

54,82

27,18

37,00

49,58

Total

100

100

100

100

100

100

100

100

100

100

100

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100

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100

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Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Aderente do Bloco de Esquerda em Coimbra
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