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Eleições municipais francesas: Frente de Esquerda vista à lupa

O exame atento aos resultados da primeira volta da Front de Gauche nas cidades com mais 20.000 habitantes, mostra que o seu peso eleitoral é significativo e demonstra a importância do seu projecto político, ao mesmo tempo que a necessidade de o fazer evoluir. Artigo de Roger Martelli, publicado em Regards.
Pierre Laurent (PCF) e Jean-Luc Melénchon (Parti de Gauche).

A análise é aqui feita a partir de um ficheiro de 259 comunas com mais de 20 mil habitantes onde não funcionou uma lógica clássica de união da esquerda. Nestas cidades, observaram-se três situações encaradas como hipóteses.

No primeiro caso, a Front de Gauche apresentou-se com todas as suas componentes face a candidaturas do Partido Socialista (como em Marselha ou Lille). No segundo, o Partido Comunista reconduziu alianças com o Partido Socialista (como em Paris, Grenoble ou Rennes), uma parte da Front de Gauche constituiu listas sem ele. Finalmente, nalguns casos, face ao PS, constituiu-se uma aliança apertada em torno de uma das componentes da Front (PCF, PG); por vezes, também se abriu a sensibilidades diferentes, ecologistas (Grenoble) ou mais geralmente alternativas (Rennes).

Situações e resultados variados

O exame aqui apresentado apoia-se nestas situações hipotéticas. Não inclui portanto as situações em que a totalidade da Front de Gauche se encontra ao lado dos socialistas, nomeadamente para a recondução da equipa cessante, como em Nanterre, Gennevilliers ou Villeneuve-Saint-Georges. Os dados brutos obtidos são os seguintes.

1.   No total das 259 comunas, as listas de união da esquerda com a direcção socialista ou as listas socialistas propriamente ditas recolheram 26,9 %. Quanto às listas de extrema-esquerda animadas pela LO (Lutte Ouvrière) ou pelo NPA, obtiveram 1,3 % dos sufrágios.

2.   As listas ecologistas apresentaram-se em 65 destas comunas. Os seus resultados vão de 2,3 % (Paris 16e) a 33 % (Paris 2e). Em 25 casos, os resultados são superiores a 10 %. Quando estão presentes neste tipo de comunas, os ecologistas obtêm 9,1% (3% do total da amostra)

3.   As listas designadas pelo Ministério do Interior como sendo as da Front de Gauche ou como listas «alternativas» onde figuram componentes da Front agruparam um total de 8,2% dos sufrágios expressos. É certo que os seus resultados são extremamente variados. Nas comunas onde o presidente da câmara cessante conduzia ou apoiava a lista da Front de Gauche, os resultados eram sempre superiores a 20%. Noutros lugares, vão de 2,4 % (Agde) a 33,5 % (Lyon 1º sector), passando aos 24,7 % de Clémentine Autain a Sevran e a 25,8 % de Sofia Dauvergne a Romainville.

4.   Na eleição presidencial de 2012, Jean-Luc Mélenchon tinha recolhido 12,4% nestas 259 comunas. As análises da época mostravam as potencialidades dum voto que associava segmentos sociológicos variados e territórios diversificados, tanto centros urbanos como periferias. A Front começava a agregar forças, combinando a força da rejeição e a esperança, mais ou menos clara, de uma nova cartada à esquerda. Constituía assim um remédio eficaz ao crescimento da animosidade da população.

A Front de Gauche permanece como uma aposta de futuro

As escolhas governamentais quebraram a esperança e mudaram um pouco mais a cólera em ressentimento, nutrindo em partes iguais a abstenção e o voto Front National. A Front de Gauche não foi poupada por este movimento, tanto mais que certas escolhas de aliança do PCF perturbaram a sua imagem. Mas, neste contexto, os resultados da Front mostram que permanece, para uma esquerda de esquerda, como uma aposta de futuro. Se se tiver em conta que nos grandes aglomerados uma parte não negligenciável do eleitorado comunista tradicional votou nas listas socialistas de união da esquerda, o resultado global das listas com o símbolo Front de Gauche (8,2%) na França mais urbanizada, não tem nada de calamitoso. Em muitas das situações, como em Grenoble, em Rezé ou em Rennes, a postura de alternativa marcou de forma feliz a paisagem política local.

Ter-se-á certamente que reflectir para assegurar avanços futuros. Por exemplo, dever-se-á ter em conta a vivacidade manifestada por numerosas listas que se apresentavam como alternativas a um funcionamento clássico da instituição política, inclusive a partidária. O eco das listas ditas “cidadãs” um pouco por todo o lado, tanto nas cidades como nas periferias, deve ser interpretado seriamente. Assim como o resultado muito assinalável das listas EE-LV (Europe Écologie-Les Verts), mesmo que os ecologistas apoiem de facto as orientações negativas do poder instalado. Nestes dois casos, o que atraiu os eleitores é a impressão que se lhes oferecia uma opção nova, face a um mundo político considerado ossificado.

Talvez seja preciso dizer, depois da segunda volta, que a questão que hoje se põe não é, sem dúvida, apenas mudar o conteúdo das políticas públicas, mas sim mudar a própria política, a maneira de fazer assim como o que se faz. Em qualquer situação, deveremos aprender a enfrentar a clareza da rejeição, a audácia das alianças na esquerda de esquerda e a capacidade de encarnar nas palavras e na maneira de ser, uma autêntica renovação à esquerda. A todos os escalões do território.

Tradução de Almerinda Bento para esquerda.net

Artigo publicado em Regards.

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