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Eduarda Dionísio sobre Mário Dionísio, um intelectual avesso a concessões

Em entrevista ao esquerda.net, a fundadora da Casa da Achada, Eduarda Dionísio fala-nos da personalidade de Mário Dionísio a propósito do Congresso Internacional que evoca o centenário do seu nascimento e que decorrerá entre 27 e 30 de outubro, em Lisboa. Por Pedro Ferreira.
Mário Dionísio. Foto Casa da Achada
Mário Dionísio (1916-1993). Foto da Casa da Achada

Como é que nasceu a ideia de realizar este Congresso?

A iniciativa partiu do departamento de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que, a exemplo do que já aconteceu noutras ocasiões, quis assinalar o centenário do nascimento de Mário Dionísio.

Qual o papel da Casa da Achada para a concretização deste evento?

Importa esclarecer que a Casa da Achada considera que é mais relevante divulgar o quotidiano de Mário Dionísio uma vez que a sua vida esteve sempre ligada ao dia a dia das pessoas.

Está a fazer uma crítica ao Congresso?

Pretendo apenas sublinhar que o trabalho que desenvolvemos aqui [Casa da Achada] tem como objetivo dar a conhecer o dia a dia do homem relacionando-o com a sua obra seja na literatura, na pintura, no ensino ou na intervenção política. Para nós esses aspetos são mais importantes do que assinalar uma data.

Mas a Casa da Achada faz parte da Comissão Organizadora.

Fomos convidados tal como outras instituições, mas temos uma escassa responsabilidade no quadro das outras entidades organizadoras.

Pressinto que da sua parte há um certo distanciamento em relação a este evento.

Volto a dizer que muitas pessoas acham que é mais importante realizar grandes eventos do que olhar para o quotidiano de quem se pretende homenagear. Não é o meu caso.

Acha que este tipo de iniciativas são fechadas e não chegam ao cidadão comum?

Têm limitações nessa matéria e dificilmente extravasam as fronteiras da academia.

Mas o programa é muito diversificado abrangendo muitas áreas onde Mário Dionísio deixou uma marca relevante e um pensamento que ainda hoje é importante.

Isso aconteceu porque houve muitas pessoas que não fazendo parte desse mundo académico acabaram por se inscrever para dar o seu contributo e assim promover uma discussão mais aprofundada em torno do seu legado.

Devo acrescentar que nas primeiras reuniões que tivemos com vista à nossa participação coloquei algumas condições como, por exemplo, encontrar uma maneira de republicar a “Paleta e o Mundo” algo que não foi possível porque se considerou que não era relevante para assinalar o centenário e convidar alunos não só da Faculdade de Letras mas também do departamento de História de Arte, das Belas Artes, das Ciências da Educação ou ligados às questões mais políticas porque o Mário Dionísio como se sabe teve uma vida que ultrapassou largamente a escrita.

E é por isso que o seu universo é mais amplo?

Diria que não ficou tão fechado sobre si próprio e por isso vai repartir-se por quatro dias e três locais distintos devido ao elevado número de participantes.

E o que é que muda?

Desta forma, temos a possibilidade de chamar a atenção de uma maneira diferente sobre a personalidade e o percurso de Mário Dionísio que é aquilo que fazemos regularmente na Casa da Achada.

Mário Doinísio foi um homem multifacetado que procurou no entanto as pontes necessárias para estabelecer uma complementaridade entre todas as áreas em que interveio. O congresso vai dar-nos essa dimensão da sua personalidade?

Houve sempre da parte dele essa preocupação embora muitas pessoas não tenham isso presente. Esperamos que esses aspetos sobressaiam durante este evento.

Mas é conhecido sobretudo como escritor.

As circunstâncias da sua vida aliadas ao facto de ele considerar mais importante o dever do que o prazer levaram-no a privilegiar a escrita em detrimento da pintura que era uma paixão que ele não divulgou publicamente durante muitos anos.

A escrita era então o seu dever?

Sim, e a pintura um prazer e por isso esta só é revelada muito tarde. Basta dizer que a primeira exposição individual acontece quando ele já tinha mais de setenta anos.

Mas ao longo de décadas desenvolveu uma intensa atividade literária e cívica.

Que está também um pouco esquecida sobretudo se tivermos em conta o seu permanente espírito crítico que ficou expresso em muitos textos em jornais e outras publicações ou as polémicas literárias e políticas em que se envolveu e de que as pessoas já não falam.

Eduarda Dionísio
"O pensamento de Mário Dionísio continua a ser incómodo", afirma Eduarda Dionísio

Ficaram apenas os livros?

São os mais visíveis mas é importante ter em linha de conta que, como ele próprio dizia, se não tivesse tivesse feito outras coisas, a sua escrita teria sido muito diferente.

Há alguma razão para o esquecimento a que Mário Dionísio foi votado?

Ele não foi da maçonaria, não pertenceu a partidos políticos e por isso não tem hoje ninguém a lutar por ele, pela sua obra. Não pertence a nenhum lobbie.

Mas foi militante do PCP.

De onde saiu no início da década de 50 sem pôr em causa os valores em que sempre acreditou, nomeadamente a sua visão marxista do mundo.

É verdade que rejeitou sempre a burocratização e os espartilhos de natureza intelectual?

Sim e isso é algo que ainda hoje é incómodo porque as pessoas gostam de viver espartilhadas. Foi um homem que se recusou sempre a participar na construção de determinadas realidades que mais não eram do que uma flor para colocar na lapela.

Era um polemista?

Não fugia à polémica se achasse que ela tinha fundamento.

Estamos perante um espírito livre?

Na sua vida ele privilegiou sempre a liberdade de ação, de pensamento e de crítica mesmo tendo em conta os condicionalismos existentes antes do 25 de Abril. Nunca se autolimitou para fazer uma literatura do agrado das pessoas ou uma pintura limitada aos cânones da época e no ensino quis sempre que os alunos adquirissem capacidade de problematização.

E isso foi incómodo?

Ainda hoje incomoda.

Mesmo em democracia?

A democracia também define regras onde, por vezes, nem todos cabem.

Posso concluir que me está a dizer que ele nunca foi um seguidista?

Se tivesse sido estaria seguramente mais visível.

No congresso vai fazer uma intervenção subordinada ao tema “Cinco incomodidades na vida de Mário Dionísio”. Pode falar-nos sobre isso?

Vou desconstruir algumas ideias erradas que subsistem, nomeadamente a relação com Fernando Pessoa porque é comum dizer-se que os neorrealistas desprezavam o poeta e que este só foi descoberto nos anos 80 por questões políticas para substituir o Camões.

E não há um fundo de verdade nessa análise?

É completamente falsa. Recordo que Mário Dionísio fez em 1938 uma tese de licenciatura sobre a Ode Marítima.

Que lhe valeu uma reprovação.

Mas a reprovação ficou a dever-se a outras razões.

E para além do Pessoa?

Falarei sobre o ensino porque se diz que os amigos e a família acharam horrível que ele tivesse tomado a decisão de ser professor, considerando que era algo que não interessava e que lhe tomava o tempo necessário para se dedicar à escrita.

Por outro lado, temos ainda a pintura que prolongou a polémica existente entre os neorrealistas relativamente ao conteúdo e à forma e finalmente a questão da memória que esteve sempre presente na suas reflexões e intervenções com o objetivo de chamar a atenção para o facto de ser necessário fazer diferente algo que ganhou mais premência após a Revolução mas que nem sempre foi respeitado.

É por isso que após a democratização do país se vai distanciando devido à resistência que sentiu na procura de novos caminhos?

Quando percebia que havia obstáculos à necessidade de operar mudanças de fundo nunca hesitou em sair.

O Congresso vai chamar-se “Como uma pedra no silêncio”. Nesta frase está condensado o espírito com que Mário Dionísio conduziu a sua vida?

Posso apenas dizer que gosto do título, mas não tive qualquer responsabilidade na escolha.

É uma forma mais poética de dizer “uma pedrada no charco”?

Não sei.

 

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