You are here

É tarefa da esquerda construir uma resposta alternativa forte à crise pandémica

No Fórum Europeu online, que juntou as forças de esquerda, verdes e progressistas, Catarina Martins declarou que a crise económica e social exige “uma resposta que enfrente as desigualdades, reforce direitos laborais e serviços públicos” e lute pela justiça climática.

Catarina Martins juntou-se à líder do Sinn Féin Mary Lou McDonald, ao presidente do Partido da Esquerda Europeia Heinz Bierbaum, ao ex-dirigente trabalhista John McDonnell e aos co-presidentes do GUE/NGL Manon Aubry e Martin Schirdewan, para abrir o Fórum Europeu.

A iniciativa, organizada pela primeira vez em Marselha, este ano realiza-se durante o mês de novembro, com sessões temáticas que terão a pandemia e a transição ecológica como pano de fundo. Para participar nas sessões é necessário fazer a inscrição (disponível aqui).

Na sua intervenção, Catarina Martins considerou que “A derrota de Trump é importante para todo o mundo e poderá ser a primeira de várias derrotas da extrema-direita. Mas as políticas de Trump ainda não estão mortas”.

“A crise pandémica, com os seus profundos efeitos económicos e sociais, tem e terá um forte impacto político. A resposta a esta crise - e a construção de uma alternativa de esquerda forte - será decisiva para o nosso futuro. A crise sublinha a importância da ciência e do acesso à saúde, mas também intensifica desigualdades e coloca o Estado Social sobre uma pressão sem precedentes”, disse.  

E definiu três propostas que a Esquerda europeia tem de desenvolver na resposta à crise.

Em primeiro lugar, as respostas estruturais: “A reconstrução de direitos dos trabalhadores que foram destruídos nas últimas décadas e a criação de novos direitos para trabalhadores invisíveis”; mas também “recuperar controlo público e reforçar serviços públicos é a única forma de enfrentar as desigualdades e proteger as pessoas”.

Em segundo lugar, a coordenadora do Bloco de Esquerda considera necessário enfrentar a ameaça do sistema financeiro. “Se não alterarmos as regras e reestruturarmos a dívida, o programa europeu de emergência para a crise pandémica pode resultar apenas em mais um programa de resgate da banca”.  

Em terceiro lugar, “os tratados europeus já provaram repetidamente que falham à Europa. Eram um problema durante a crise financeira, e são um problema na crise pandémica. Proíbem investimentos que precisamos de realizar para responder à crise climática. Tratados que não conseguem responder a uma crise serão sempre o problema, nunca a solução”.

 

Pode ler aqui a intervenção completa de Catarina Martins:

Camaradas e amigos,

2020 foi um ano difícil. A crise pandémica acrescentou dificuldades imprevistas num tempo onde as pessoas já lutavam com profundas desigualdades sociais e económicas. As forças de ódio e xenofobia alimentam-se do medo e desespero e a ameaça das alterações climáticas cresce.

Hoje, temos algumas boas notícias. Na Bolívia, Luis Arce tomou posse como Presidente; as pessoas derrotaram o golpe e reclaram o seu país e a democracia. E nos Estados Unidos da América, Trump perdeu numa eleição marcada por forças progressistas, ativistas climáticas, movimentos feministas e black lives matter.

A derrota de Trump é importante para todo o mundo e poderá ser a primeira de várias derrotas da extrema-direita. Mas as políticas de Trump ainda não estão mortas. Racismo, xenofobia, misoginia, negacionismo e discurso de ódio estão presentes em todos os nossos países. Ontem, em Portugal, a direita conservadora anunciou um acordo para o governo regional dos Açores que inclui a extrema-direita. É a primeira vez em Portugal, mas infelizmente é algo comum na Europa. A chamada direita democrática abre a porta para forças não democráticas.

A crise pandémica, com os seus profundos efeitos económicos e sociais, tem e terá um forte impacto político. A resposta a esta crise - e a construção de uma alternativa de esquerda forte - será decisiva para o nosso futuro. A crise sublinha a importância da ciência e do acesso à saúde, mas também intensifica desigualdades e coloca o Estado Social sobre uma pressão sem precedentes.

A resposta da União Europeia à crise, apesar de mais rápida do que a resposta de 2007 à crise financeira, pode exacerbar estes problemas. É tarefa da esquerda construir uma resposta diferente à crise pandémica. Uma resposta que enfrenta as desigualdades, reforça direitos laborais e serviços públicos.

Somos confrontados com problemas diferentes nos nossos países e não há uma única solução de esquerda que sirva a todos. Mas acredito que serão propostas comuns que teremos de construir juntos, enquanto Partido da Esquerda Europeia e em diálogo com movimentos sociais. O chão comum pode ser o que aprendemos nestas duas crises.

Primeiro, que a resposta à crise exige alterações estruturais.

Sem direitos dos trabalhadores a crise será sempre uma oportunidade para transferir rendimento dos trabalhadores para o capital. Os milhões de euros de apoios públicos entregues à economia que estão a ser anunciados nunca chegam aos trabalhadores precários sem proteção laboral. Os programas sociais são inacessíveis para milhões de mifrantes e trabalhadores informais que perderam todo o seu rendimento em toda a Europa. A reconstrução de direitos dos trabalhadores que foram destruídos nas últimas décadas e a criação de novos direitos para trabalhadores invisíveis - os cuidadores (tantas delas mulheres), migrantes e excluídos - e que a crise pandémica revelou como trabalhadores essenciais.

Também aprendemos que, em crise, serviços públicos são essenciais. Não apenas os serviços de saúde face à crise pandémica, mas também programas sociais, educação pública, habitação e transportes são essenciais para responder à crise económica e social. Os mais vulneráveis só podem recorrer a respostas públicas e a privatização de setores estratégicos enfraquece os nossos países e dificulta a resposta aqueles que mais precisam. Recuperar controlo público e reforçar serviços públicos é a única forma de enfrentar as desigualdades e proteger as pessoas.

Em segundo lugar, o sistema financeira ainda é uma ameaça. Demasiados países europeus foram esmagados por uma dívida pública ilegítima, criada por uma arquitetura assimétrica do euro e agravada pelas políticas de austeridade que se sucederam à crise financeira. Demasiadas famílias e pequenas empresas estão a lidar com crisis sufocadasd por dívida bancária. Ainda estamos a pagar o resgate financeiro e uma boa parte da resposta europeia é mais dívida. Se não alterarmos as regras e reestruturarmos a dívida, o programa europeu de emergência para a crise pandémica pode resultar apenas em mais um programa de resgate da banca.

Finalmente, tratados europeus têm de ser revogados. A União Europeia decidiu suspendê-los para responder à crise. O mesmo aconteceu nos primeiros anos da crise financeira mas, depois, com o fim da suspensão, as regras do défice voltaram e, novamente, enormes cortes salariais e cortes nos programas sociais e serviços públicos foram impostos. Os tratados europeus já provaram repetidamente que falham à Europa. Eram um problema durante a crise financeira, e são um problema na crise pandémica. Proíbem investimentos que precisamos de realizar para responder à crise climática. Tratados que não conseguem responder a uma crise serão sempre o problema, nunca a solução.

Precisamos de uma Europa de cooperação, não de uma Europa de punição. Precisamos de solidariedade face aos duros desafios sociais, na Saúde, na economia, e nas alterações climáticas. Solidariedade. Esse é o nosso compromisso, o nosso terreno comum. E somos mais fortes. Milhões de ativistas de todas as gerações e tantos deles tão jovens, que denunciam o capitalismo e muitas das suas formas de opressão, e exigem direitos iguais e justiça climática, que lutam por um futuro melhor. Um futuro de solidariedade.

Termos relacionados Internacional
(...)