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Doente morre no S. José após 3 dias sem assistência médica

Depois de esperar três dias por uma cirurgia urgente para tratar um aneurisma, o doente de 29 anos acabou por falecer. Tudo porque era fim-de-semana, altura em que não há especialista de neurocirurgia vascular de prevenção, suspensa desde 2014. Na sequência deste trágico episódio, demitiram-se os presidentes da ARSLVT e dos centros hospitalares Lisboa Central e Norte. Ainda no início deste ano, Bloco questionou pela segunda vez o então Ministro da Saúde, Paulo Macedo, alertando para a gravidade da situação. Notícia atualizada às 23h30.
Desde 2014, a prevenção da especialidade de neurocirurgia ao fim-de-semana foi suspensa e deveria ser assegurada por médicos voluntários. Foto de Paulete Matos.

Segundo relata o Correio da Manhã, na passada sexta-feira, dia 11 de Dezembro, David Duarte chegou ao Hospital de S. José, em Lisboa, transferido do Hospital de Santarém. Tinha uma hemorragia cerebral devido à ruptura de um aneurisma, não conseguia falar, estava paralisado do lado direito, e trazia indicação para uma cirurgia de urgência. Porém, a operação ficou agendada apenas para depois do fim-de-semana, segunda-feira. Infelizmente, o doente não resistiu a esses três dias de espera e acabou por falecer no dia 14 de dezembro, antes de dar entrada no bloco operatório.

A Sic Notícias contactou o Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC) que confirmou a inexistência de um especialista de neurocirurgia vascular de prevenção ao sábado e domingo e que a tutela já foi informada da situação. Além disso, ao fim-de-semana, também não existe desde 2013 a especialidade de neuro-radiologia. Propostas para resolução do problema terão já sido enviadas à tutela.

A prevenção desta especialidade no fim-de-semana está suspensa desde abril de 2014, quando a tutela pertencia ao ministro do governo PSD-CDS, Paulo Macedo. Desde essa altura, o serviço é feito em regime de voluntariado. No entanto, com o corte no pagamento das horas, decorrente das alterações ao regime remuneratório, muitos profissionais mostraram-se indisponíveis para se “voluntariar”.

O CHLC disse ainda à Sic Notícias que, durante a semana, existem dois cirurgiões em permanência para operações a aneurismas, uma intervenção altamente especializada que exige uma vasta equipa no bloco operatório.

Segundo o Correio da Manhã, os familiares não se conformam com o sucedido e já denunciaram o caso à Ordem dos Médicos.

A mesma estação de televisão tentou também saber porque não foi transferido o doente para outra unidade hospitalar, mas não obteve resposta por parte do CHLC. Apenas se sabe que o problema já reportado à tutela, bem como propostas para sua resolução.

Demitiram-se os presidentes da ARSLVT e dos centros hospitalares Lisboa Central e Norte 

Na sequência deste trágico episódio, esta terça-feira, os presidentes da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), Luís Cunha Ribeiro, do Centro Hospitalar de Lisboa Central, Teresa Sustelo, e do Centro Hospitalar Lisboa Norte, Carlos Martins, apresentaram a sua demissão à tutela.

Na comunicação, Luís Cunha Ribeiro adiantou que "foram tomadas medidas" para que situações análogas não voltem a acontecer, cita a Lusa. "A partir de agora, foi autorizado que passe a haver resposta para situações deste género. Hoje, doentes em situações semelhantes não terão o mesmo destino do que ocorreu há uma semana", declarou.

Luís Cunha Ribeiro lamentou o ocorrido e endereçou condolências à família do jovem que morreu, e disse que a ARSLVT solicitou ao conselho de administração do Centro Hospitalar Lisboa Central a instauração de um inquérito, o mesmo fazendo junto da Inspeção-Geral da Saúde.

Num tom consternado, Cunha Ribeiro lamentou que com “os cortes dos últimos anos, não foi possível ter os recursos humanos suficientes para impedir a morte de pessoas por falta de assistência”.

Problema remonta a 2013, Bloco questionou Ministro Paulo Macedo duas vezes 

A falta de intervenção cirúrgica para casos de aneurisma ao fim-de-semana, no hospital de S. José, arrasta-se desde 2013, quando a equipa de neurorradiologia deixou de fazer prevenção ao sábado e ao domingo. Em 2014, a situação agravou-se quando a equipa de neurocirurgia seguiu a mesma decisão.

Em declarações ao Diário de Notícias, em janeiro de 2015, Bruno Maia do Sindicato dos Médicos do Sul explicava que apesar de o Hospital de Santa Maria ter intervenção ao fim-de-semana, os doentes não estavam a ser encaminhados e que tal situação era do conhecimento da administração e do diretor clínico. “O S. José continua a receber estes doentes ao fim-de-semana e não faz a transferência para Santa Maria que tem a única equipa da região a funcionar nesse período”, disse o também neurologista no S. José.

A intervenção cirúrgica nestes casos, reforçou ainda Bruno Maia, “permite fechar a zona do aneurisma impedindo a circulação de sangue e reduz as hipóteses de ressurgimento de sangue nas primeiras duas semanas”. E acrescentou: “Sentimos que temos na mão um aneurisma que pode rebentar, o doente pode morrer e nós sem poder fazer nada”.

Em junho de 2013, o Bloco de Esquerda questionou o Ministério da Saúde sobre o problema. Mais de um ano depois e com o agravamento da situação, o Bloco voltou a enviar perguntas ao gabinete de Paulo Macedo, já em janeiro de 2015. Nas perguntas dirigidas ao então ministro da saúde do governo PSD-CDS, o Bloco referia que a rutura de aneurisma tem uma taxa de mortalidade superiora 50 por cento e que uma parte significativa das mortes deve se a um processo de rutura secundária.

Já em 2013 o Bloco perguntava se teria havido mortes associadas à falta de assistência médica adequada e já nessa altura lembrava que “os cortes no pagamento que levaram as equipas a desistir do serviço de prevenção, deixavam-nas a receber cerca de sete euros à hora para estarem disponíveis 48 horas”. Na resposta à pergunta de 2013, Paulo Macedo disse esperar que o constrangimento fosse ultrapassado em breve, cita o DN. O Bloco lembrou-o no início deste ano que o problema persistia e de forma agravada.

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