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Do confinamento sanitário às prisões da ditadura

Foi essa janela, por onde entrava o barulho mais longínquo dos carros e o ruído mais próximo dos sapatos de quem passava, que estabelecia a única ligação com o mundo que continuava cá fora. Naquele local escuro, aquela pequena janela fez-nos sentir mais acompanhados, deu-nos força para o que estávamos a enfrentar. Por José Castro.

 

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


Do confinamento sanitário às prisões da ditadura

O distanciamento profiláctico e o confinamento nas habitações a que um vírus como o Covid 19 nos está a forçar, levaram a enormes mudanças nas nossas rotinas diárias. Diminuíram as relações interpessoais, passamos a ter que inventar como ocupar o tempo que agora parece sobrar.

Diferente, muito diferente foi a experiência vivida há 47 anos. Em 6 de Abril de 1973, quase à hora de jantar, não cheguei a entrar em casa. Três pides, surgidos por detrás, não permitiram concluir a abertura da porta da rua. Levado para as instalações da rua do Heroísmo no Porto, passei a primeira noite no calabouço subterrâneo onde fui colocado. Antes tinham sido retirados o relógio de pulso, os óculos graduados, o cinto das calças e os cordões dos sapatos. Para quê? Retirar objectos a que estamos habituados, para aumentar a sensação de isolamento? Uma única lâmpada de cor amarelada não conseguia dar luz suficiente para perceber todo o mobiliário da cela. Afinal era bem pouco. Um único beliche, uma mesa tosca de madeira, um balde. Na manhã seguinte, pouco depois das 7, a porta abriu-se para ser entregue uma pequena caneca de metal com o que seria cevada ou café aguado e um pão. Depois fui levado ao gabinete da fotografia para as habituais 3 fotos, perfil direito, frente e perfil esquerdo com o número de preso 12497. Já me tinha apercebido que a acusação “actividades contra a segurança do Estado” não tinha sustentação. Referia-se a uma acção revolucionária contra o regime fascista e a guerra colonial, a colocação dum engenho explosivo no quartel-general da região militar onde tinha prestado serviço militar. A pressão da hierarquia militar sobre o pessoal daquela unidade, as revistas a cacifos e a descoberta de publicações, como o livro “O processo histórico”, entendidas como subversivas por aquela gente inculta,  tinham conduzido os comandos militares à intervenção junto da Pide para a minha prisão.  

 

A cela subterrânea tinha uma pequena janela com grade e rede, junto ao passeio da rua do Heroísmo. Foi essa janela, por onde entrava o barulho mais longínquo dos carros e o ruído mais próximo dos sapatos de quem passava, que estabelecia a única ligação com o mundo que continuava cá fora. Naquele local escuro, aquela pequena janela fez-nos sentir mais acompanhados, deu-nos força para o que estávamos a enfrentar. Sem condições para ler ou qualquer outra actividade útil, passava o tempo a recordar momentos entusiasmantes da luta antifascista como a distribuição, na noite de S.João de 1969, de folhetos de apoio aos estudantes de Coimbra e a antever perguntas nos interrogatórios, como responder, como resistir à insistente procura de nomes.

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Numa busca à residência tinham sido revolvidas estantes e gavetas. Entre livros e outros materiais de propaganda anticolonial trouxeram a lista, de que fazia parte, candidata à Associação de Estudantes da Faculdade de Letras onde frequentava, como estudante-trabalhador, o 3º ano do curso de Filosofia. Para um regime repressivo como o que então se vivia, um acto hoje tão comum como o duma candidatura a uma AE constituiu motivo para a suspensão de 13 estudantes da Universidade do Porto, situação só alterada com o 25 de Abril de 1974. E claro, no registo individual já constavam dados sobre a actividade profissional, sindical e política, transmitidos por informadores. Mas nada que pudesse dar fundamento e consistência a um processo para julgamento em tribunal plenário.

Mais tarde houve a transferência para outra cela onde já entrava luz natural pelas janelas pintadas a tinta amarela, numa outra área do edifício, entretanto destruída. Mais afastada da rua, ligada ao 1º andar do prédio, aquela ala tinha quartos com vários beliches e uma casa de banho ao fundo do corredor. Aí, já pude gastar algum tempo com exercício físico. Nunca consegui cruzar-me com qualquer outro preso político, num isolamento só quebrado pela entrega da comida em prato de metal e as breves idas ao pátio, ao lado do cemitério do Prado do Repouso, onde estive sempre sem acompanhamento de qualquer outro detido. Naqueles minutos, que passavam tão depressa, sabia bem olhar o céu, ver as nuvens, imaginar o que as pessoas estariam a fazer do outro lado da parede pintada de branco. Entretanto, pude receber duas ou três visitas, no parlatório, em dias diferentes, à vista dos agentes. Era bem diferente, para melhor, ouvir vozes, dizer palavras. A família, amigos e companheiros de trabalho mexeram-se e um advogado que nem me conhecia, passou a intervir, reclamando a imediata libertação. Ao Dr. Arnaldo Mesquita, já falecido, pude exprimir, em tempo oportuno, a gratidão pela sua dedicação,  empenhamento e coragem política.  E mediante termo de identidade, fui solto das prisões privativas da Delegação do Porto da Pide/DGS, como constava da Ordem de Serviço nº 122/73.

 Esse tempo de prisão deu para entender melhor a boçalidade, selvajaria e brutalidade da máquina repressiva do regime de Salazar e Caetano, com mais de 20.000 inspectores, sub-inspectores, chefes de brigada, agentes, funcionários e informadores. Esse tempo de prisão foi um pequenino contributo para a luta popular que acabou por derrubar um ano mais tarde a ditadura de Salazar e Caetano. E dá força à exigência cívica em que muitos estamos agora empenhados, para que seja devolvido aos resistentes antifascistas e à cidade o edifício onde funcionou a delegação no Porto da Pide/DGS. Para que se não apague a memória da infâmia do regime, da polícia política, do fascismo.

 As quarentenas sanitárias e os confinamentos profilácticos dos nossos dias são outra coisa completamente diferente. É certo que o confinamento nas residências restringe o relacionamento interpessoal, corta-nos as deslocações, obriga-nos a refazer o quotidiano. Mas aproveitemos o tempo que agora parece sobrar para boas leituras, ver bons filmes, ouvir músicas que quase já esquecemos, visitar museus, ligarmo-nos mais a quem gostamos. E para participar no debate e reflexão sobre o presente e futuro do país e do mundo que espaços como o Esquerda.net nos estão a disponibilizar, para ajudar no tanto que ainda há para fazer.  

José Castro 
29.04.2020

Sobre o/a autor(a)

Jurista. Membro da Concelhia do Porto do Bloco de Esquerda
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