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Diretor da Cáritas em Pemba: “Tenho medo que cheguem e nos ataquem”

De Pemba chegam os relatos dos deslocados sobre as atrocidades cometidas contra as populações. Manuel Nota alerta que, mediante um ataque, não haverá saída possível. Estudo da Pangeas-Risk prevê que Palma voltará a ser alvo de ataques nas próximas semanas.
Foto da página de Facebook Caritas Diocesana de Pemba.

Questionado pelo Observador sobre se tem medo, o diretor da Cáritas de Pemba é perentório: “Tenho medo, sim. Tenho medo que cheguem e nos ataquem”.

Manuel Nota explica que em Pemba não têm “mato para correr e entrar”. “O que nos dá mais medo é que em Pemba [uma península] só temos uma saída e entrada. Se decidirem fechar a saída, ninguém sai daqui. A alternativa seria sair pelo mar, mas poucos têm embarcações para sair a navegar. Não sabemos o que vai ser. Só Deus é que sabe”, avança.

A Pemba têm chegado os relatos dos deslocados sobre as atrocidades cometidas contra as populações: corpos esquartejados, decapitações, mulheres que têm de abandonar os filhos, bebés com balas cravadas no corpo há vários dias.

O padre português Ricardo Marques, vigário da Região Episcopal Urbana de Pemba, denuncia o “sofrimento do povo”, com “gente a morrer, de forma brutal, macabra, às mãos de um inimigo sem rosto, que mata indiscriminadamente, de uma forma aterrorizante”.

Ricardo Marques critica a “gestão frágil” e “falta de estratégia” do Governo moçambicano. “Percebe-se que, por si só, não tem capacidade para resolver este problema. Moçambique sozinho não consegue, as forças de segurança não têm recursos nem treino para isso. Estranho porque é que o Governo moçambicano resiste a aceitar ajuda internacional. A Igreja não tem de se meter na competência do Governo, o papel da igreja não é impedir o martírio, é cuidar das feridas. Mas se vê pessoas a sofrer e um número de deslocados cada vez maior, tem de perguntar: porquê?”, questiona o vigário.

Estudo alerta para mais ataques a Palma

No passado fim-de-semana, a Pangeas-Risk divulgou um estudo em que alerta que "mais ataques a Palma devem ser esperados nas próximas semanas, já que os insurgentes procuram recuperar o controlo do território e estender o seu controlo a norte de Mocímboa da Praia".

Em entrevista ao Esquerda.net, que será publicada esta quinta-feira, dia 15, a jornalista moçambicana Fátima Mimbire aponta que “este tipo de estudos pode ter como fundamento, como objetivo, semear o medo e o terror” para que o Estado moçambicano, que tem vindo a negar uma intervenção multilateral, continue a recorrer aos mercenários.

Ainda assim, sublinha que “esse estudo é um alerta muito importante que o Governo deve tomar em consideração. Até porque, em relação a Palma, circulam informações de que o Governo terá sido alertado da eventualidade de um ataque e os alertas foram perentoriamente ignorados”.

“Apesar de ser duvidoso, tem de ser tomado em consideração. O Estado tem de alocar todos os meios à sua disponibilidade para evitar que esse novo ataque aconteça. Porque um ataque seria desastroso e mataria definitivamente as esperanças de uma possível paz ou estabilização na região”, alerta a jornalista.

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