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Dia da Independência traz primeiros protestos a Cabul

Patrulhas dos talibãs nos acessos ao aeroporto dificultam a passagem de afegãos que querem sair do país. Primeiros protestos na capital foram reprimidos. FMI diz que vai cortar linhas de financiamento ao Afeganistão.
Centenas de pessoas saíram à rua em Cabul para celebrar o Dia da Independência com a bandeira nacional retirada pelos talibãs. Foto Stringer/EPA

Já passaram alguns dias desde a entrada dos talibãs na capital do Afeganistão e os relatos da imprensa internacional falam de uma manhã calma esta quinta-feira em Cabul, com muita gente a recear sair de casa e muito do comércio ainda fechado. Uma situação que contrasta com as imediações do aeroporto de Cabul, onde o caos é a palavra mais usada para descrever os últimos dias.

Muitos milhares de afegãos tentam juntar-se aos cidadãos estrangeiros no acesso aos aviões de evacuação, mas isso está a ser dificultado pelas inúmeras patrulhas talibãs na estrada que conduz ao aeroporto. Segundo a BBC, os talibãs estão a impedir todos os afegãos, independentemente de terem um visto estrangeiro, de prosseguir caminho.

Numa entrevista televisiva na quarta-feira à ABC, o presidente norte-americano Joe Biden admitiu que a presença militar dos EUA se possa prolongar para além do prazo fixado do fim de agosto, caso ainda haja norte-americanos por repatriar. Calcula-se que além dos cerca de 15 mil cidadãos dos EUA, haja mais de 60 mil afegãos considerados elegíveis para serem evacuados para os Estados Unidos. O presidente norte-americano voltou a defender a decisão de concretizar a retirada e reconheceu que os talibãs não têm colocado dificuldades à saída de estangeiros, embora não aconteça o mesmo com quem tem nacionalidade afegã.

Quanto à contagem das vítimas mortais no aeroporto desde domingo, talibãs e NATO estão de acordo: terão morrido 12 pessoas, sobretudo vítimas de tiros ou esmagamento.

Segundo o New York Times, que cita um relatório do Norwegian Center for Global Analyses, um grupo conselheiro das Nações Unidas, os talibãs têm intensificado as buscas por colaboradores das forças da NATO no país, quer nas respetivas residências, quer nos acessos ao aeroporto de Cabul. O relatório diz que os autores das buscas prendem ou deixam ameaças às famílias dos alvos, caso estes não se entreguem rapidamente às novas autoridades. Em especial risco estão os antigos militares e polícias.

Protestos reprimidos no Dia da Independência

Esta quinta-feira assinala-se o Dia da Independência do Afeganistão e ele deu o mote aos primeiros protestos contra a chegada dos talibãs ao poder em Cabul. Algumas centenas de pessoas paticiparam numa manifestação que se aproximou do palácio presidencial e que foi de imediato reprimida pelos talibãs.

Na cidade de Asadabad, os tiros começaram após um manifestante ter esfaqueado um combatente talibã. Os restantes abriram fogo, provocando dois mortos e pelo menos oito feridos.

Na quarta-feira, protestos semelhantes ocorreram na cidade de Jalalabad, no nordeste do país, desta vez com os manifestantes a voltarem a repor a bandeira nacional do país em vários pontos da cidade. Segundo a al-Jazeera, foram disparados tiros contra os manifestantes, que fizeram pelo menos dois mortos e 12 feridos.

Também os talibãs assinalaram o dia que marca o aniversário do tratado que terminou a ocupação britânica em 1919, declarando que 102 anos depois conseguiram derrotar e expulsar do país “outro poder  arrogante do mundo”, referindo-se aos EUA.

FMI bloqueia financiamento ao Afeganistão

Pressionado pelos EUA, o Fundo Monetário Internacional avisou na quarta-feira que vai bloquear os 460 milhões de dólares de Direitos Especiais de Saque (unidade de conta do FMI) previstos para entrarem nos cofres afegãos na próxima semana. O porta-voz do FMI Gerry Rice justifica a decisão com a “falta de clareza no seio da comunidade internacional sobre o reconhecimento do governo do Afeganistão”.

Este dinheiro é a fatia afegã de um bolo total de 650 mil milhões de dólares, um apoio aprovado no início de agosto para ajudar os países em desenvolvimento a combater a pandemia da covid-19. Mas com as reticências dos EUA, Canadá, União Europeia e Rússia em reconhecer de imediato o governo dos talibãs, o apoio não irá chegar tão cedo a Cabul.

A pressão financeira dos EUA ao novo poder afegão já tinha ficado evidente no fim de semana, ao bloquear os 9.400 milhões de dólares de reservas internacionais do banco central afegão em contas sedeadas nos Estados Unidos.

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