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Dezenas de personalidades afrodescendentes criticam cobertura jornalística do caso Jamaica

Académicos, membros de coletivos afrodescendentes, ativistas anti-racismo criticam a forma como os meios de comunicação social mainstream têm construído conteúdos “que criminalizam os corpos negros e os bairros periféricos". "É pesado o manto de violência racista que se abateu sobre nós", destacam.
Foto de Paula Nunes.

Sublinhando que “os meios de comunicação social mainstream têm uma enorme responsabilidade na difusão de preconceitos e estereótipos concernentes aos negros e negras de Portugal”, destacam que “depois de notícias como as que saíram, nos últimos dias, para a praça pública impunemente, é pesado o manto de violência racista – da mais inorgânica à extrema-direita organizada – que se abateu sobre nós e sobre todos aqueles que tenham a coragem de apontar publicamente o racismo na sociedade portuguesa”.

O esquerda.net transcreve, na íntegra, o comunicado das personalidades afrodescendentes, publicado pelo Jornal Tornado, e ao qual se associou João de Sousa, o Diretor dessa publicação:

Inúmeras peças jornalísticas criaram a ficção de que está em curso uma onda de vandalismo, precipitando-se a imputar implícita ou explicitamente às populações negras e pobres dos bairros periféricos a culpa pelo espancamento que agentes da polícia infligiram a moradores desarmados no Bairro de Vale de Chicharos, também conhecido como Bairro da Jamaica; a culpa pelas balas de borracha disparadas contra centenas de jovens, na maioria negros que, num puro acto de exercício da sua cidadania, se manifestaram na Avenida da Liberdade. Estes não são casos isolados, foi assim com as falsas notícias sobre o pretenso “arrastão” na praia de Carcavelos (2005), o suposto meet de “marginais” no Vasco da Gama (2014) e a falsa “invasão” da esquadra de Alfragide (2015).

Os episódios de fogo posto e de vandalização, que ocorreram nas últimas noites, em vários concelhos da Área Metropolitana de Lisboa, visam descredibilizar e abafar as nossas reivindicações, silenciar as denúncias de violência policial e sobretudo desviar o foco deste debate premente da sociedade portuguesa, que é a violência policial exercida sistematicamente contra as comunidades racializadas. Aliás, no que diz respeito aos incidentes no Bairro da Bela Vista, Carlos Rabaçal, Vereador da Câmara Municipal de Setúbal, disse recentemente ter-se apurado que se trataram de reações de “miudismo de gente branca”.

As formas de luta dos colectivos e comunidades afrodescendentes têm-se caracterizado por estratégias positivas e construtivas, que vão desde o contributo enquanto trabalhadores, como formas de organização colectiva que enriquecem a nossa democracia e Portugal.

Os meios de comunicação social mainstream têm uma enorme responsabilidade na difusão de preconceitos e estereótipos concernentes aos negros e negras de Portugal. Ao invés de contextualizarem os acontecimentos e desconstruírem o imaginário racista da sociedade portuguesa, os nossos media insistem em lucrar com a nossa desumanização arrastando-nos vezes sem conta para a ficção estereotipada do “jovem negro criminoso”. Depois de notícias como as que saíram, nos últimos dias, para a praça pública impunemente, é pesado o manto de violência racista – da mais inorgânica à extrema-direita organizada – que se abateu sobre nós e sobre todos aqueles que tenham a coragem de apontar publicamente o racismo na sociedade portuguesa. Não há desmentido, retratamento ou contraditório posterior que verdadeiramente repare os danos causados, mas exigimo-lo ainda assim, aos meios de comunicação social responsáveis, à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e a outras autoridades competentes.

Nós, colectivos afrodescendentes, pessoas negras e activistas anti-racistas, repudiamos enérgica e veementemente que, mais uma vez, vários média portugueses tenham optado por construir conteúdos que, implícita ou explicitamente, criminalizam os corpos negros e os bairros periféricos, sem se preocupar com o princípio da presunção da inocência, o princípio do contraditório e a busca da verdade.

Lista de signatários

Adalgiza Cardoso, Adalgiza Gomes, Afrolis, Ana Fernandes, Angella Graça, Andredina Cardoso, Apolo de Carvalho, Ariana Furtado, Alessandra Brito, Beatriz Gomes Dias, CAIP, Cátia Andrade (MC Gata), Carla Pereira, Carlos Pereira, Cristina Roldão, Dara Fonseca Ramos, Denise Viana, Dilia Fraguito Samarth, Diogenes Parzianello, Djass- Associação de Afrodescendentes, Eduina Borges, Erica Luz, Evalina Dias, Flávio Almada, Gisele Fernandes , Hugo Curado, Ianick Insaly, Inocência Mata, Ivan Jeli, Ivanilson Tavares, Jakilson Pereira, Joacine Katar Moreira, João Mendes, Jorge Fonseca de Almeida, José Pina, José Semedo, José Semedo Fernandes, Kleizy Barreto, Lígia Kellerman, Lolo Arziki, Lúcia Furtado, Luzia Gomes, Luzia Moniz, Maira Zenum, Maria José Freire, Maria Gomes, Mamadou Ba, Mamadu Sané, Mamadu Balde, Manuel Abreu, Manuel Da Graça, Marlene Nobre, Mário Carvalho, Mário Évora, Marta Rivera Bargues, Myriam Taylor, Muxima, Mussa Djaló, Mussa Saido, Nêga Filmes, Neusa Trovoada, Paulo Taylor, Pedro António Almeida, Pedro Filipe, Pedro Schacht, Raquel Lima, Samanta Semedo, Sandro Brito, Seidi Djaló, Silvino Mendes,Sofia Peysonneau Nunes, Sonia Abreu, Shirley Van-Dunem, Simone Frangella, Solange Salvaterra Pinto, Suzana Djiba, Vitor Sanches.

Comunicado publicado no Jornal Tornado.

 

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