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Desumanização

A inconstância própria da precariedade altera-nos os valores mais elementares. Por Maria de Baledon
Sombras de pessoas em movimento
Foto de Paulete Matos

Calhou que nesta semana me chamaram para ir preencher as folgas dos efectivos. Das dezoito às duas da manhã que, na verdade, são três porque há que arrumar tudo para o dia seguinte. Dez horas de trabalho com meia hora para meia dose a que chamam jantar.

Setenta e cinco euros, vinte e cinco por noite, dois euros e sessenta e três cêntimos por hora. Servir médias e minis, bocks e sagres, consoante as simpatias de cada um, tostas mistas, pratos do dia, uns vegetarianos, outros sem glúten, alguns cafés escorridos, pingados, “sem princípio”, curtos, cheios, gins, licores beirões, chás para a mesa sete, dezoito, vinte e dois, e para a esplanada, e para a ficar na conta e sobremesas, e somersby com gelo e limão e etecetera...

Conceber um blogue, gerir a informação, dar destaque a certo conteúdo, aliás, escrevê-lo, organizar textos e imagens, tirar as fotografias, reunir as crónicas, definir a linha editorial, actualizar a base de dados de sócios, fazer telefonemas, enviar o mailling, etecetera. A seis euros por hora com o limite máximo de oito horas por semana.

Pesquisar, hierarquizar a informação segundo a sua relevância e pertinência, estruturar o texto, supor a citação da directora executiva, estar a par dos produtos turísticos estratégicos, do dados estatísticos reveladores do impacto da procura no mercado interno alargado, criar notícia, nota de imprensa, assessoria. A oito euros e vinte e oito cêntimos à hora.

Sem contractos, sem recibos, sem segurança social, sem retenção na fonte, sem férias, sem folgas.

Hoje sim, amanhã não.

Depois?

Não sabemos!

E acordamos com a estranha sensação de que já não somos os mesmos. Não estabelecemos compromissos, não acertamos datas nem horários, não nos vinculamos a ninguém, não encetamos relações novas a não ser que sejam convenientemente superficiais, tudo se torna frouxo, desligado, fios pendentes, tudo perene, efémero, passageiro e volátil.

Mercê da necessidade primária da sobrevivência, há um dia em que tudo deixa de ser conjuntural para passar a fazer parte da estrutura e sabemos que estamos impregnados de precariedade em todas as esferas da nossa vida que a do trabalho contaminou.

Andamos a empatar, preencher vazios sem perspectivas de futuro, antecipando a morte profissional e uma pegajosa desumanização.

A inconstância própria da precariedade altera-nos os valores mais elementares.

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