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Desobedoc: encher de gente o cinema; encher o cinema de gente

A terceira edição do Desobedoc, no Cinema Batalha, retomou o espírito de Abril e entrou pelo 1º de Maio dentro. E porque toda a ocupação gera ocupação, o Desobedoc terá uma extensão em Torres Vedras, já no próximo fim-de-semana. Por Hugo Monteiro e Ada Pereira da Silva.
Foto de Zeza Guedes da III Edição do Desobedoc, do album Desobedoc 2016, publicado no facebook
Foto de Zeza Guedes da III Edição do Desobedoc, do album Desobedoc 2016, publicado no facebook

Em todas as suas dimensões, mostrou a muitos e a muitas mais (só o primeiro dia contou com mais gente do que o somatório de toda a edição anterior), que é possível haver cinema no Porto. E que o cinema possibilita intervenção e concretiza resistência, abre possibilidades à política, no e na Batalha.

Cheio de passado e cheio de presente, o Desobedoc foi há mais de uma semana – mas é hoje, e promete-se amanhã. O ponto de situação… para já!

1ª Vaga: Fomos no Batalha!

Nenhuma ocupação se resume num ato. Toda a ocupação consequente se desdobra em vários atos, em vagas plurais e em etapas diversas. E o Desobedoc, consequente desde a sua primeira edição, teve vários momentos de ocupação, entre a mais meditada das ações e a mais espontânea das contingências. A primeira vaga de ocupação está na deslocação do Desobedoc para o Cinema Batalha, esse, cujo primeiro andar abre para a praça e se deixa invadir pela mesma praça, entre o planeamento e o acaso, entre a espontaneidade da rua e as razões que dão razão à rua.

Reabrimos o Batalha. Como escreveu o José Soeiro, na abertura do Jornal do Desobedoc, sabíamos que “reabrir este cinema por três dias é um gesto concreto de resistência e de solidariedade”. E três dias concretizaram um trabalho militante de meses, entre seleção e pedidos de autorização de filmes, tradução e legendagem, elaboração de folhas de sala, impressão e distribuição de jornais, formação de equipas de voluntários. Houve a preparação do cinema, a gestão logística delicada ao lidar com a degradação de um equipamento monumental, entregue ao abandono e ao silêncio.

2ª vaga: quebrar silêncios

E a segunda vaga de ocupação foi a do barulho. Da mistura de vozes que se encontram no cinema e com o cinema. Das frases que comentam os filmes e que comentam o comentário dos filmes, dos aplausos que partilhamos com espectadores/as ou que ouvimos, quase perdidos, quando passamos entre uma sala e outra. O som das palavras que, mesmo sem ver filmes, retomam as memórias do Batalha e entram só para estarem ali, dizendo com olhos brilhantes que já ali não entram há anos, entre a memória cinéfila e, eventualmente, a evocação de um beijo transgressor revivido – sortilégio digno de filme! – num festival de cinema desobediente. Em suma, a 2ª vaga de ocupação esteve na voz diversa de um festival com tanta gente e com tanta cidade, que transforma o Batalha num bastião ululante de desobediência: à lógica de mercado, ao fatalismo do abandono, à cidade a preto e branco de quem compra e de quem vende. O Batalha, no Desobedoc, documenta do avesso a cidade gentrificada ao encher-se de cinema– e é tão bom encher o cinema de gente como encher de gente o cinema!

3ª vaga: tantos filmes numa praça!

Com sarcasmo quanto baste, Jorge de Sena disse um dia que “o cinema é, no mais alto grau, uma forma de comunicação inconveniente”. Deslocando o foco e o contexto, concordamos com a sentença. Esta inconveniência erige, no interior e no exterior da tela, uma insurreição criadora com memória, ora homenageando, implícita e explicitamente, a aliança entre cinefilia e intervenção na resistência ao Estado Novo, ora recordando o quanto essa insurreição se requer, no contexto de uma sociedade apodrecida. O racismo, a ciganofobia, a violência fronteiriça de uma Europa subjugada ao neocolonialismo capitalista, passando pela homo/lesbo/transfobia, pela habitação, pelo trabalho com direitos… desfilam num convite à construção de alternativas, de formas outras de organização coletiva, de expressões pluralizadas que o próprio Desobedoc abre.

Sabendo que nunca o cinema foi apenas cinema, o Desobedoc esteve nos seus corredores, com livros de editoras independentes, com bancas de espaços insurgentes, com festas programadas de portas abertas, com instalações artísticas que reabitaram em intensidade e pluralidade a desolação do dia anterior, tornando possível e abrindo possíveis. E porque, como diz Sérgio Godinho, desobedecendo ao adágio popular, “de pequenino se torce o destino”, dedicamos o Domingo de manhã às crianças, num desobedoquinho carregado de futuro.

O Desobedoc esteve no Batalha e tem estado na batalha. Com o vigor de sempre e com mais adesão do que nunca, o Desobedoc é, cada vez mais, uma porta aberta e uma casa habitada: gente com cinema; cinema com gente.

E porque toda a ocupação gera ocupação, o Desobedoc terá uma extensão em Torres Vedras, já no próximo fim-de-semana. Que se repercuta, lá como cá, em todo o lado. De vaga em vaga, sem dispensar nada.

Artigo de Hugo Monteiro e Ada Pereira da Silva, para esquerda.net

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