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Desmemória: a roda dentada dos novos fascismos no século XXI

Por que razão deve o campo político da esquerda socialista resgatar socialmente o museu, estruturalmente visto como instrumento de opressão? Artigo de Luís Monteiro, publicado na revista Esquerda.
Fotomontagem de Tiago Tavares.

O debate público sobre «Políticas da Memória» ganhou expressão nos últimos anos. Ele projeta novos desafios progressistas em várias áreas das Ciências Sociais, desde a História à Sociologia ou Museologia. Esta reflexão, ainda que parta de uma base de análise que tenta encontrar em alguma produção académica contemporânea certas respostas, não é um Estado da Arte da relação da Academia e das Ciências e a necessidade de preservar a Memória Coletiva sobre algum período histórico em específico. O esforço da Academia no lançamento de problemáticas como a «descolonização dos museus» ou a patrimonialização dos espaços com um histórico antifascista permitiu alguns passos civilizacionais. Infelizmente, mantenho, ao longo destes vários anos, a convicção (progressiva) de que continuamos a desperdiçar massa crítica e produção científica relevante dado o afastamento entre as instituições que a produzem e a maioria da população. Na ausência de uma estratégia pública robusta de preservação da memória coletiva sobre os Fascismos do século XX e a História numa vertente mais alargada, esse aparente espaço vazio é rapidamente ocupado por quem a quer apagar.

Na política como na física, até os espaços aparentemente vazios mantêm um conjunto mínimo de partículas que interagem entre si, produzindo energia. Onde não há uma imprensa livre e rigorosa, há desinformação e mentira; onde não há memória da violência racial, há promoção do racismo, onde há relativização do papel das ditaduras fascistas, há uma ascensão desses valores.

«Temos de conhecer a verdade. Não quer dizer que foi uma maravilha, não foi maravilha regime nenhum. Qual casamento é uma maravilha? De vez em quando tem um probleminha, é coisa rara um casal não ter um problema, ‘tá certo? (…) E onde você viu uma ditadura entregar para a oposição de forma pacífica o Governo? Só no Brasil, então não houve ditadura nenhuma.»[1]

Talvez não precisemos de nos cingir ao discurso do presidente brasileiro. Basta ouvir o Ministro Brasileiro Ernesto Araújo que, baseando-se no pensamento de Olavo de Carvalho – um dos arquitetos políticos da nova extrema-direita brasileira e considerado o guru ideológico do atual Presidente – afirma que o nazismo foi um movimento de esquerda. Mas há um paralelismo incontornável: os comportamentos sociais da primeira metade do século XX e do século XXI e, por outro lado, a estratégia das Direitas dos novos Ultras após a crise financeira de 2008. A História repete-se e é uma tragédia se não a transformarmos com as nossas próprias mãos.

O discurso da nova extrema-direita tem sido categorizado, essencialmente, pela permanente produção de factos alternativos ou, evitando eufemismos, mentiras. As fake news são o prato do dia do debate político e a estratégia é simples e eficaz. O alcance de cada mentira proferida será sempre superior ao tempo da denúncia e reposição da verdade, a cacofonia das redes sociais e dos perfis falsos tratam do resto. Aqueles e aquelas que se perfilam do outro lado da barricada e resistem ao absurdo da produção de uma espécie de dissonância cognitiva coletiva têm um papel histórico. Para cumpri-lo, não basta assumir uma atitude de reação ao bombardeamento desinformativo permanente, combatendo as forças políticas e as grandes multinacionais da economia digital e da informação noticiosa que a promovem. Estruturalmente, urge resgatar o papel social do Estado como defensor das Liberdades e Garantias, alicerçando essa estratégia ao seu serviço público de Educação e Cultura.

A mercantilização dessa ideia, processo levado a cabo pelo Neoliberalismo desde o final da década de 1980, foi a autoestrada que faltava percorrer para a desvalorização da Memória Coletiva como património essencial à Democracia. Enquanto o Capitalismo prometeu progresso e melhoria nas condições de vida, os seus representantes mantiveram-se na esfera do «campo democrático». Quando o sistema deixa de prometer uma vida melhor, só há uma última tentativa de o perpetuar. O auxílio ao jargão da inevitabilidade torna-se a justificação dos principais responsáveis políticos e a austeridade como política da solução não é mais do que a autoestrada para a ascensão da proposta antidemocrática e fascizante.

Não há diferença entre a conceção liberal pós-crise, quando apresenta a austeridade como solução única para a crise que gerou, e a conceção do Estado Securitário, que se constrói a partir de um sentimento de insegurança que ele próprio fomenta e para o qual pretende dar todas as respostas. Tanto num caso como no outro, abandona-se a essência do debate democrático, da disputa dos contrários.

O esforço de preservar a Memória Coletiva tem como primeiro obstáculo a própria democratização do Museu enquanto instituição que, historicamente, preservou a narrativa dos vencedores e das elites. Segundo Pierre Bordieu,

«O museu fornece a todos, como se tratasse de uma herança pública, os monumentos de um esplendor passado, instrumentos da glorificação suntuária dos grandes de outrora: liberalidade factícia, já que a entrada franca é também entrada facultativa, reservada àqueles que, dotados da faculdade de se apropriarem das obras, têm o privilégio de usar dessa liberdade e que, por conseguinte, se encontram legitimados em seu privilégio, ou seja, na propriedade dos meios de se apropriarem dos bens culturais ou, para falar como Max Weber, no monopólio da manipulação dos bens de cultura e dos signos institucionais da salvação cultural».[2]

Aparentemente, podemos estar perante uma contradição. Por que razão deve o campo político da Esquerda Socialista resgatar socialmente o museu, estruturalmente visto como instrumento de opressão? A resposta pode ser dada pela negativa. Se não o fizermos, estamos a perpetuar violências, silêncios e invisibilidades culturais, sociais e étnicas. A disputa sobre a memória histórica é, hoje, um dos campos da luta de classes. Faltar a essa chamada não é abandonar o passado, é desistir de combater a hegemonia conservadora dos tempos que vivemos.

Apesar do papel histórico do museu enquanto espaço de legitimação das elites como representantes de uma certa organização social hierarquizada, ou de um certo regime da verdade na Modernidade, é desejável ensaiar outros modelos de representação. Vários países iniciaram esse processo. A devolução de obras de arte aos seus países de origem não é um debate novo, nem tampouco tem como únicos intervenientes os ativistas afetos à causa. Se em Portugal, o debate já pode contar com um envolvimento académico capaz de influenciar o debate sobre o tema, em França, é (também) pela voz de Macron que o debate se faz.

Há, de facto, um problema de representação de outras culturas no museu. E, quando representadas a partir da exposição da sua produção artística ou cultura material, é feita sempre na ótica de quem pensou a exposição e nunca dos e das que a produziram. Descolonizar, aqui, tem um duplo significado: devolver e dignificar.

Alguns dos mais aguerridos defensores do «museu tal como ele é», aqueles que se opõem a uma política de descolonização do património, são os mesmos que acham que não é o papel do Estado alocar dinheiro em políticas culturais. A inevitabilidade da austeridade como perpetuação da crise, promoção de um estado de normalidade regressiva, de cortes nos direitos sociais e ataque às liberdades individuais, de incentivo à violência sobre os de baixo (com especial enfoque sobre as minorias não representadas) é a impossibilidade de imaginar um Mundo melhor.

Há uma ligação direta entre inevitabilidade e desmemória. A falta de alternativa à austeridade é a primeira fase da grande campanha de desinformação e revisionismo histórico a que assistimos na última década. Por isso, é tão decisivo enquadrar as Políticas da Memória numa estratégia cultural emancipadora, como serviço público que é. Será um dos instrumentos de médio-prazo contra a Desmemória: roda dentada dos novos Fascismos do século XXI.

Sobre o/a autor(a)

Museólogo. Deputado e membro da Comissão Política do Bloco de Esquerda.
Termos relacionados Revista Esquerda, Cultura
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