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Derrotar políticas neoliberais é crucial para a esquerda, diz Chantal Mouffe

“A questão crucial é saber se é possível, no interior da UE, tal como existe atualmente, transformar e por em prática políticas verdadeiramente anti-neoliberais e anti-austeridade”.
Chantal Mouffe, foto de Heinrich-Böll-Stiftung/flickr
Chantal Mouffe, foto de Heinrich-Böll-Stiftung/flickr

Chantal Mouffe, politóloga e teórica pós-marxista, falou esta quinta-feira numa conferência em Lisboa, no Teatro Maria Matos, sobre a atualidade política em Portugal e na Europa.  

Em declarações à Lusa, afirmou que “a questão fundamental é saber se é possível a um governo de esquerda fazer mudanças decisivas no quadro da União Europeia” porque, diz, “vimos o que se passou na Grécia, o Syriza de Alexis Tsipras chegou ao poder mas não conseguiram pôr em prática a sua política porque os dirigentes europeus disseram que as políticas de austeridade não podem ser questionadas”, assinalou, antes do início da sua exposição intitulada “O papel dos afetos na política agonística”.
 
“A questão crucial é saber se é possível, no interior da UE, tal como existe atualmente, transformar e por em prática políticas verdadeiramente anti-neoliberais e anti-austeridade”. 
 
Relacionando as políticas de austeridade implementadas por partidos sociais-democratas, disse que “em muitos países, o que designamos por social-democracia são de facto partidos que se tornaram social-liberais. No caso da França é a social-democracia de François Hollande, e a rutura que depois existiu no Partido Socialista francês com os militantes a optarem por Benoît Hamon, mais à esquerda”.
 
Em Portugal, esta realidade europeia poderá ser um dos principais “pontos de tensão” entre o Partido Socialista, por um lado, e o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, por outro, cujo apoio “não está garantido para sempre, poderá chegar-se a uma situação onde não conseguirão ir mais longe. Também depende se a UE vai forçar Portugal e pôr em prática as suas políticas de austeridade, ou não”, assinala.
 
Em caso de imposição anti-democrática, Chantal Mouffe considera que “a partir daí há duas posições, a que diz que é necessário sair da UE, com um partido de esquerda disposto a fazer essas transformações. Há outra esquerda que defende a perspetiva de reformar a Europa”, sintetiza.
 
“Ouso esperar ser possível modificar profundamente as relações de força que existem na Europa, na condição de que exista um conjunto de países que se unam para essa perspetiva. Caso contrário, poderá suceder o mesmo que aconteceu à Grécia”, reforça Chantal Mouffe, que em 1985 publicou com o seu companheiro e académico argentino Ernesto Laclau, já falecido, “Hegemony and Socialist Strategy: Towards a Radical Democratic Politics”, um ensaio de teoria política na tradição pós-marxista e que se mantém uma das suas obras de referência. 
 

Professora de Teoria Política no Centro para o Estudo da Democracia na Universidade de Westminster, em Londres, de origem belga, Chantal Mouffe foi a convidada da segunda conferência do Arquipélago dos Afetos no ciclo “Utopias”, que decorre no Teatro Maria Matos e revisita os muitos projetos utópicos alternativos (socialismo, comunismo, anarquismo) que surgiram entre finais do século XIX e início do século XX.

Numa referência ao tema da paixão e das emoções em política, assunto privilegiado nos seus trabalhos académicos, Chantal Mouffe considera que os partidos sociais-democratas tradicionais ainda não entenderam a sua importância.

“É por isso que na maioria dos casos, não entendem como se podem opor ao avanço dos partidos populistas de direita. Em França espanta-me como a maioria dos intelectuais e políticos do Partido Socialista creem que a forma de lutar contra Marine Le Pen é mostrar que é da extrema-direita, anti-republicana…”, o que não passa de uma “crítica de condenação moral. E com isso não compreendem que para poder lutar contra Marine Le Pen é necessário ver que ela, de facto, conseguiu mobilizar as paixões. E que a única forma e lutar contra isso é necessário criar outras paixões. De mobilizar as paixões.”

Por isso, reforça "a única forma de lutar contra o populismo de direita é desenvolver um populismo de esquerda, que mobilize as paixões mas numa direção que aponte para a justiça social, a igualdade… Infelizmente, os partidos sociais-democratas tradicionais não estão ainda nesta direção”.

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