Não, não me refiro ao dia após mais uma grande vaga de incêndios em Portugal que voltou a matar 41 pessoas, depois de em junho, recordo, já terem morrido 64 em Pedrogão Grande. Não, não me refiro às chamas porque essas tenho a certeza que voltarão daqui a menos de um ano e todo o ciclo se repetirá.
Estudando no Instituto Superior Técnico (IST), o dia 17 marca outro acontecimento: a primeira reunião que poderá estar na génese da criação da secção autónoma LGBTQIA+ do IST a ser aprovada em Assembleia Geral de Alunos. Esta reunião foi divulgada no grupo de facebook do IST e em menos de 24h caíram mais de 200 comentários. Perdi alguns minutos desse meu dia 17 para ler por alto muitos desses comentários e me embasbacar (sim, é mesmo esse o termo) com a inépcia e boçalidade de muitos daqueles que frequentam a faculdade com as médias de entrada mais altas no nosso país. Reflitamos:
“A faculdade devia ser para as pessoas estudarem e se formarem, politiquices, agendas lgbt, ideologias de género e qualquer tipo de lavagens cerebrais deviam ser fora da faculdade. Para centro de doutrinação politica já chega a FCSH”
Ai é? Então e a formação não passa por analisar e perceber os problemas que se passam com a nossa sociedade? Ou isso é um problema menor que se deixa para os das ciências sociais? Discutir problemas é lavagem cerebral?
“Cultura gay... Daqui a bocado há cultura para africanos, cultura para ricos, cultura para incendiários… Cultura é cultura independentemente da pessoa”
A perda de identidade cultural é a pior coisa que pode acontecer a um povo (e quem diz povo, diz etnia, grupo minoritário) já que é através dessa identidade que podemos até dar sentido ao conceito de povo. Ler Camões não é o mesmo que ler Homero. Ouvir Zeca Afonso não é o mesmo que ouvir Mercedes Sosa. E, claro, deixe-me dizer-lhe, caro comentador de facebook, que dançar flamenco não é o mesmo que dançar tango.
(estes são dos poucos comentários que se aproveitam – seja em termos de conteúdo, seja em termos de português – naquele mar de ódio desconstrutivo, por isso vejam bem ao nível a que se chegou).
E isto leva-me ao título: depois de dia 17 nada será o mesmo; nada será o mesmo porque te apercebes que o IST (aquele espaço onde passas mais de 50% do teu dia) é um espaço homofóbico onde a cultura de pensamento para além da engenharia civil, eletrotécnica, etc, ainda deixa muito a desejar. Por outro lado, admito que o verdadeiro problema de muita daquela gente tenha que ver com a criação oficial de um grupo que pretende discutir problemas da comunidade LGBT. Daí o também clássico comentário: “O objetivo desta luta era ser aceite na sociedade e vocês no técnico são. Que se fale dos problemas lgbtqia+ onde eles existem e que se pare de falar deles onde já passaram”. Tal como no caso das mulheres depois de décadas de luta pela emancipação e direito ao voto, poder-se-ia ter dito: “Vocês já votam. Então agora andam para aí a gritar só porque em média recebem menos 30% que os homens?”. É o conformismo burguês de quem acha que está tudo bem no mundo e que não gosta de ser incomodado/a por aqueles que se atrevem a tentar mudar alguma coisa.
Em suma, antevejo as minhas próximas semanas na faculdade desta forma: vou estar na fila do bar e pensar que a pessoa que está a pedir a sopa atrás de mim escreveu “metade do país acabou de arder e andam para aí a discutir géneros e orientações sexuais... sem se referirem aos ecossexuais!?”; e vou estar a almoçar no Social sabendo que inevitavelmente na mesma mesa onde estou sentado alguém contribuiu para esta discussão com o comentário “Eu não gosto de tomar banho, vou criar um núcleo de pessoas porcas que só tomam banho uma vez por ano“. Não, nada será o mesmo.
*António Coelho – Estudante do Instituto Superior Técnico (4º ano de Física).