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Dengue no Brasil: mais de meio milhão de casos registados este ano

Os especialistas consideram extremamente preocupante a combinação com a pandemia do novo coronavírus. Quadro clínico inicial das doenças semelhante pode dificultar diagnóstico e tratamento adequado. Artigo de Marina Duarte de Souza para o Brasil de Fato.
Dia de sensibilização sobre o combate ao mosquisto Aedes aegyptina na Praça dos Três Poderes em Brasília, 2016. Foto de Agência Brasília/Flickr.
Dia de sensibilização sobre o combate ao mosquisto Aedes aegyptina na Praça dos Três Poderes em Brasília, 2016. Foto de Agência Brasília/Flickr.

No meio da pandemia do novo coronavírus, o número de casos de dengue continua a crescer no Brasil. De 2018 para 2019, o país já havia registado um aumento de 488% no número de casos e, este ano, só nas primeiras 14 semanas, o país já registou 525.381 casos prováveis de dengue e 181 mortes provocadas pela doença.

A informação sobre os casos registados este ano foi divulgada no boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, com informações até o dia 4 de abril.

O boletim divulgado pelo Ministério da Saúde não traz comparação em relação ao mesmo período do ano passado, mas o boletim da 12ª semana de 2019, registava 273.193 diagnósticos da dengue e 80 óbitos. Comparado com esses números o aumento dos casos este ano chega a 129% e o número de mortes é 226% maior.

O boletim aponta que, até à décima semana do ano, o ritmo de crescimento de casos foi superior ao observado em 2019, sem explicitar quantos, e afirma que depois houve uma diminuição nas últimas quatro semanas, mas reconhece que a queda registada pode ser em razão da sub-notificação, uma vez que os dados ainda estão em processo de atualização.

"A distribuição dos casos prováveis de dengue no Brasil, por semana epidemiológica de início dos sintomas, demonstra que, até a SE [semana] 10, a curva epidémica dos casos prováveis no ano corrente ultrapassa o número de casos do mesmo período para o ano de 2019. No entanto, a partir da SE 10, observa-se uma diminuição dos casos prováveis, mas vale destacar que os casos ainda estão em processo de atualização e digitação no Sinan Online e isto pode estar contribuindo para uma sub-notificação nesse período", diz o boletim.

Também foram registados este ano 15.051 casos e três mortes por chicungunha, e 2.054 casos de zika. As duas doenças, assim como a dengue, são transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti.

O Centro-Oeste é a região com maior incidência de casos (606,7 casos/100 mil habitantes), seguida das regiões Sul (589,9 casos/100 mil habitantes), Sudeste (226,9 casos/100 mil habitantes), Norte (76,6 casos/ 00 mil habitantes) e Nordeste (61,4 casos/100 mil habitantes). Neste cenário, destacam-se os estados do Acre, São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Distrito Federal e Goiás com incidências acima de 300 casos por 100 mil habitantes.

O infectologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, Evaldo Stanislau, explica que este aumento do número de casos de dengue pode ter até três causas e que elas podem ser concomitantes.

“Você tem primeiro uma sazonalidade normal, um período de aumento da dengue depois de alguns anos mais calmos, o aumento a partir de pessoas não expostas em áreas onde você já teve dengue anteriormente e a terceira hipótese é que, em lugares pontuais, tenham relaxado o controle do vetor. Estas três alternativas são possíveis e talvez, mais provavelmente, sejam as três juntas que expliquem esse aumento de casos”, descreve ele.

Dengue e covid-19

Embora para o especialista a dengue não tenha relação direta com o novo coronavírus, a existência de duas epidemias em paralelo, uma por vetor, no caso da dengue e a outra por transmissão pelo ar, a covid-19, num mesmo momento é “extremamente preocupante”, visto que o quadro clínico inicial das doenças é semelhante e pode dificultar ainda mais o diagnóstico e o tratamento adequado.
“A covid tem uma complicação clínica que, se ela não for completa no início ela pode ser muito parecida com dengue, porque ela dá febre, dor muscular e mal estar e dengue também dá febre, dor muscular e mal estar. Ambas tem algumas alterações laboratoriais que podem ser semelhantes. O que vai diferenciar clinicamente uma da outra? Quando o quadro respiratório ocorre desde o início, na covid você tem um quadro respiratório muito clássico que falta na dengue”, explica Stanislau.

Ele alerta que esta confusão pode trazer complicações, uma vez que a dengue também pode levar as pessoas a óbito em maior velocidade, se não tratada com hidratação e monitoramento adequado.

O especialista esclarece ainda que, em teoria, é possível que uma pessoa contraria as duas doenças ao mesmo tempo, mas que, na prática, é pouco provável uma vez que biologicamente há competição entre os agentes infecciosos.

Chicunguinha

Já a chicungunha não tem a taxa de mortalidade como a dengue, mas é uma “infeção terrível”, como define o médico, porque em torno de 70% dos infetados, sobretudo mulheres, vão ter uma forma crónica que é muito dolorosa e incapacitante, um quadro de dores que impendem que essa pessoa trabalhe ou mantenha qualquer outra atividade normalmente.

“Ter um cenário concomitante de uma epidemia de chicungunha com a pandemia de covid seria desastroso. Porque chicungunha é uma doença que realmente incapacita e, em número grande, pode interromper a cadeia produtiva da economia. Se tiver um surto numa empresa, você não vai trabalhar, porque vai ficar todo mundo afastado por alguns meses. Porque realmente não dá para pessoa trabalhar com chicungunha”, afirma Stanislau.

Segundo o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, o estado da Bahia concentra 25,2 % dos casos prováveis de chikungunha do país, o Espírito Santo concentra 21,8% dos casos e o Rio de Janeiro concentra 18,6% dos casos.

Prevenção: comportamento

O infectologista enfatiza ainda que, por enquanto, nenhuma das doenças são preveníveis por vacina e que tanto dengue, chicungunha, quanto a covid-19 são epidemias que a gente vai prevenir com comportamento de toda a sociedade e dos governantes.
“Com comportamento do setor público preservando nossas áreas comuns, combatendo o vetor e com medidas que dependem da pessoa e do poder público também. Então as pessoas aderindo ao distanciamento social, as boas práticas para evitar o contágio e ao poder público criando condições para que as pessoas possam ter adesão ao distanciamento social”, encerra.

Artigo de Marina Duarte de Souza para o Brasil de Fato. Adaptado para o português de Portugal por esquerda.net.

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