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De Magistris: a união popular à moda italiana

Ex-magistrado que combateu a máfia, ex-presidente da Câmara de Nápoles e ex-deputado europeu é agora o rosto de um novo processo unitário na esquerda italiana e explica as suas propostas em entrevista a Anthony Brondel.
Luigi De Magistris. Foto do seu Facebook.
Luigi De Magistris. Foto do seu Facebook.

Nas eleições gerais italianas de 2018, cinco formações políticas do centro à extrema-direita obtiveram a maior parte dos deputados (600 em 630): o Movimento Cinco Estrelas de Luigi Di Maio totalizou 228 deputados, a extrema-direita 157 (125 para a Liga de Matteo Salvini, 32 para os Irmãos de Itália), o centro do Partido Democrata 111, e a direita da Força Itália de Silvio Berlusconi 104.

Desde então tanto a Liga como o Movimento Cinco Estrelas tem vindo a cair na sua popularidade em benefício do movimento de extrema-direita “Irmãos de Itália”; herdeiro do Movimento Social Italiano, um partido fascista cujo símbolo inspirou Le Pen na altura da criação da Frente Nacional.

O resultado das eleições gerais que foram marcadas para junho de 2023 [e antecipadas agora para setembro deste ano, nota da tradução] é mais que incerto. O Partido Democrata e os Irmão de Itália encontram-se com cerca de 20% segundo as sondagens, enquanto que Liga e Movimento Cinco Estrelas continuam a afundar-se abaixo dos 15 [na altura em que esta entrevista foi feita].

Neste contexto, o desafio para a esquerda italiana é conseguir eleger parlamentares para poder levar uma voz popular, ecológica e social ao Parlamento, dirigir-se ao país e ganhar credibilidade para propor uma alternativa capaz de governar a Itália.

Quem é De Magistris, o renovador da esquerda italiana?

Antigo magistrado, conhecido pela sua luta contra a máfia e a corrupção, Luigi de Magistris envolveu-se na política em 2009. Foi então eleito deputado europeu. Em 2011, tornou-se presidente de Câmara de Nápoles, a terceira maior cidade do país.

Reconhecido por ter acabar com a crise dos lixos, implementou durante os seus dois mandatos, de 2011 a 2021, uma política de relançamento da atividade turística e de desenvolvimento dos serviços públicos, bem como projetos sociais e culturais. Autarca popular, foi reeleito em 2015 na lista “Nápoles em comum à esquerda” com 42,82% dos votos na primeira volta, depois 66,85% na segunda.

Em 2021, liderou a lista “Democracia e autonomia” às eleições da Calábria e obteve um resultado surpreendente de 16,17% dos votos.

Encontrámo-lo na sede do seu movimento em Nápoles. O homem de 54 anos trabalha atualmente com o movimento de esquerda Potere al Popolo na construção de uma “coligação popular de espírito pacifista, ambientalista e constitucional” para as próximas eleições gerais [uma coligação que acabou por juntar a Refundação Comunista, o grupo parlamentar ManifestA e diversos outros atores sociais e culturais].

 

Anthony Brondel : Alguns observadores dizem que a esquerda desapareceu em Itália, que pensas sobre isso?

Na realidade, aquilo a que antes tínhamos chamado de esquerda na Itália e na Europa já não o é. Este é o caso do Partido Democrático na Itália que ainda é qualificado pelos meios de comunicação social como sendo de centro-esquerda mas que virou as costas às aspirações populares e assim não tem mais nada de esquerda.

Aqui a palavra esquerda foi totalmente esvaziada de substância porque está assimilada ao Partido Democrático que implementou uma política de direita. Existem pequenos partidos de esquerda na Itália que continuam a mostrar a foice e o martelo e que apresentarão candidaturas de testemunho. Não se colocam numa estratégia de dimensão maioritária ao contrário de nós que apresentamos a perspetiva de governar o país.

Mas não seria justo dizer que já não há mais esquerda no país. Ela existe no seio da sociedade civil, através das ideias que são partilhadas por um grande número dos nossos compatriotas mas não encontram ainda uma saída política institucional. Existem experiência políticas de esquerda organizadas no sei do meio associativo ou em algumas coletividades como em Nápoles. Estas radicalidades concretas desenvolveram-se numa pequena escala. Falta ainda credibilidade para um desenvolvimento à escala do país.

 

Antes de começarmos esta entrevista dizias buscar inspiração na campanha presidencial de Jean-Luc Mélenchon. Que lições tiras da sua campanha de 2022?

Seguimos as presidenciais em França e a atividade de França Insubmissa desde 2017. Pensamos que a mensagem de radicalidade proposta por Jean-Luc Mélenchon corresponde ao momento político em que nós estamos. Essa radicalidade fala mais às pessoas do que o discurso da esquerda tradicional.

O que me agrada em Mélenchon é que ele soube adaptar o seu discurso para se dirigir diretamente ao povo, bem além da esquerda tradicional, dirigindo-se nomeadamente à juventude.

Partilhamos orientações programáticas com ele sobre questões como a justiça social, o aumento dos salários, uma melhor repartição das riquezas, a bifurcação ecológica ou ainda o pacifismo.

O que nos falta em comparação a França Insubmissa é mais organização. Temos liderança, pessoas que estão connosco, credíveis, incorruptíveis e que trabalham com seriedade mas não temos uma estrutura suficiente forte como tem a França Insubmissa.

Para nos podermos apresentar às eleições gerais italianas precisamos de recolher 80.000 assinaturas de cidadãos. Isto supõe apoiar-se numa organização estruturada no conjunto do território. Esse será um dos nossos objetivos nestes próximos meses.

 

Como juntar pessoas para além da esquerda tradicional?

Quando era presidente da Câmara de Nápoles falava dos problemas concretos das pessoas sem utilizar os símbolos ou a retórica da esquerda tradicional. Na sequência de um referendo nacional, organizado em 2011, fomos os únicos a respeitar o mandato popular municipalizando a água. Eis como juntámos pessoas para além do campo tradicional da esquerda.

Dada a crise ambiental e social, as consequências do aquecimento climático, a concentração das riquezas nas mãos de alguns e a pauperização que se acelera devemos tomar medidas radicais que mudarão a vida das pessoas. Para mim, a radicalidade não é fechar-se numa simbologia que não diz nada às pessoas é antes de mais recusar qualquer compromisso sobre os valores.

Devemos também encontrar pessoas que sejam credíveis pelo fizeram e não pelo que querem fazer, mesmo no norte do país.

O discurso da Liga Norte e do Movimento Cinco Estrelas já não é credível porque estiveram juntos no governo de Mario Draghi. Sobre as questões ligadas ao trabalho, ao ambiente, à saúde e aos serviços públicos, implementaram a mesma política que o Partido Democrata ou os partidos de direita e de centro-direita.

Atualmente não há uma oposição real no Parlamento porque estão todos de acordo na aplicação da política liberal da União Europeia.

Quando fui presidente da Câmara de Nápoles, tive a oposição do conjunto dos partidos do sistema: PD, M5E, la Liga Norte, etc. E conseguimos ter um governo popular no seio da terceira maior cidade de Itália. É um sinal que fala às pessoas e sobre o qual conto apoiar-me. Mesmo as pessoas politicamente moderadas mas que atribuem importância aos valores democráticos, de probidade e humanistas votaram em mim porque viram na minha candidatura um meio de defender os seus valores. Sendo os meus únicos aliados as organizações da esquerda radical e sobretudo o movimento cidadão. Não temos outra escolha senão apoiar-nos no povo se quisermos levar a cabo uma política transformadora.

 

Tens aliados de peso em que te possas apoiar?

Trabalho para ter candidatura de pessoas que possam dar uma imagem credível do movimento, com intelectuais, artistas, etc. Os eleitores querem votar em pessoas credíveis. Acreditam mais nas personalidades do que nos partidos políticos.

 

Qual é o teu lugar neste projeto de coligação?

É uma grande responsabilidade pessoal. O meu papel é, antes de mais, juntar pessoas que são diferentes mas estão de acordo nos valores fundamentais. A demonstração de que não faço parte do sistema está já feita aos olhos da maioria. Estou numa posição em que sou capaz de realizar esta unidade.

 

Falas muito de valores. Porque é que isso é tão importante?

Falo muito de valores porque na minha história pessoal, antes de me envolver na política, fui magistrado e combati a máfia tanto no sul de Itália quanto no seio das grandes empresas do norte de Itália. Revelei ligações e a presença da máfia mesmo no seio do aparelho de Estado. Os italianos não querem mais corrupção porque sofrem as suas consequências quotidianamente.

Eu denuncio esse sistema. Esse sistema considera-me como um inimigo. A máfia que está presente no aparelho de Estado e na finança é um problema democrático. Esta problemática não se limita ao sul de Itália. A probidade e a virtude são qualidades políticas esperadas pelo povo italiano.

 

Quais são as propostas que vais avançar?

Como revelou a pandemia do coronavírus, o sistema de saúde deve ser reconstruido porque foi desmantelado. Devemos reverter a privatização dos serviços públicos essenciais que sucessivos governos organizaram. Para nós, as pessoas são mais importantes que os lucros.

Na Itália temos um grande problema de redistribuição das riquezas, com os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres e uma pauperização das classes médias. Estamos confrontados com um aumento do custo de vida como não acontecia há muitos anos. Contudo, os salários continuam os mesmos, os direitos são postos em causa e o Governo aplica políticas que contribuem para multiplicar as desigualdades, alimentando o risco de graves conflitos sociais.

É preciso acabar com a política de privatização que dura em Itália há três décadas e colocar no centro do discurso a ideia de que temos bens comuns que não se limitam apenas aos bens públicos mas também a coisas maiores como o espaço, a água, o ar, os recursos naturais que estão à disposição de toda a gente. Quando fui presidente de Câmara de Nápoles apliquei políticas de requalificação da água e do ar como bens comuns.

A preservação do ambiente é assim um desafio: lutar contra a privatização e a destruição do ambiente, parar com as energias fósseis… A bifurcação energética tem um lugar central no nosso projeto. No sul do Mediterrâneo temos o sol, o vento e o mar, temos um território propício ao desenvolvimento das energias renováveis. Se fizermos esse tipo de investimento público, poderíamos criar milhares de empregos e libertar-nos ao mesmo tempo da dependência das multinacionais que possuem e distribuem as energias fósseis. Devemos proteger as nossas florestas e as nossas montanhas. É preciso igualmente relocalizar a nossa economia. O sistema capitalista liberalizado é por essência predador da natureza e dos recursos naturais. É preciso não apenas mudar o modelo político mas sobretudo o modelo económico e reavaliar a nossa maneira de produzir e consumir.

Há em Itália uma concentração do poder cada vez mais forte e as práticas políticas são cada vez mais autoritárias. Para mim, o povo não deve apenas ser escutado, deve decidir e ser ator, isso é fundamental. Sem me apoiar no povo nunca teria conseguido aplicar políticas de transformação social na cidade de Nápoles.

 

Porque não propor uma Assembleia Constituinte?

Há uma grande diferença entre a França e a Itália. Aqui a nossa Constituição é progressista. Ela parte de um certo número de valores que permitem o viver em comum. Algumas partes do texto foram esvaziadas do seu conteúdo pela aplicação de políticas por sucessivos governos mas o desafio é voltar ao espírito inicial do texto fundamental e aplicá-lo plenamente. Não esqueçamos que a Constituição italiana nasceu da luta contra o fascismo e portanto da resistência comunista. É um manifesto muito atual. A título de exemplo, o artigo 41 da Constituição prevê que a propriedade privada pode ser colocada em discussão e em causa se o interesse geral o necessitar.

 

Que política europeia defendes?

Quando foi deputado europeu dei-me conta de que aquilo que contava eram os tratados. Nos tratados europeus não se fala das coisas mais importantes da vida, fala-se no objetivo de defender interesses privados precisos.

A União Europeia é antes de mais a moeda comum e a livre circulação de mercadorias, o que reforça as máfias daqui. Mesmo a livre circulação das pessoas não está protegida porque quem não tenha a nacionalidade europeia não pode beneficiar dela. Quando fui presidente da Câmara de Nápoles, fui duramente atacado pelo governo italiano por acolher dignamente refugiados de origem subsahariana.

Esta Europa é a da finança. Interessa-se pouco pelos direitos das pessoas. Não recuarei face a possíveis pressões por parte da União Europeia para aplicar o meu programa. Quando fui presidente da Câmara de Nápoles, o governo italiano queria obrigar-me a vender o património da cidade para sanar as dívidas dos governos municipais anteriores. Privou-nos das receitas da parte do Estado italiano, de que precisávamos mas não cedemos. Ceder é capitular e depois disso eles esmagam-te. Quiseram voltar o povo de Nápoles contra mim mas ele percebeu bem o que se estava a passar. Como dizia, o apoio do povo é fundamental. Não pode haver medo de entrar em conflito com a Europa, são eles que têm de ceder. Nós temos a legitimidade democrática do nosso lado.

Devemos parar com estas lógicas de submissão como que aquela a que assistimos da Grécia face à Alemanha.

Defendo a construção de uma Europa dos povos, uma Europa que se dê como objetivo uma política de defesa, de paz, ecologia, saúde e luta contra as máfias. É preciso trabalhar a partir do espírito de solidariedade e com mecanismos de reciprocidade e de cooperação para criar uma Europa mais rica e diversa, em vez de uma Europa dos blocos, da divisão e do nacionalismo. Devemos também olhar mais longe, para além das nossas fronteiras, interessar-nos pelo que se passa no Médio Oriente e em África.

É preciso para isso construir um movimento europeu de esquerda forte porque penso que há problemas que não podemos resolver à escala nacional. A título de exemplo nas questões ligadas à guerra e ao ambiente devemos ter uma estratégia comum.

 

Como encaras as próximas eleições gerais?

É preciso dar a volta à Itália, ir ao encontro dos italianos em todo o lado, nas cidades, nas aldeias, até nos locais menos acessíveis. Vamos fazer passar a nossa mensagem de rutura com a antiga vida política italiana, de radicalidade dos nossos valores e provar a nossa capacidade de governa. As sondagens não estão a nosso favor. Vamos fazer o máximo e veremos. “Quem combate pode perder mas quem não combate já perdeu”. Não temos outra escolha.

 

Como resumirias o vosso projeto numa frase?

A humanidade ao poder!


Entrevista publicada originalmente em Le Journal de L’Insoumission em 8 de julho.

Traduzida por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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