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Curdistão: O Estado que tarda em chegar

O Esquerda.net publica a introdução de José Manuel Rosendo ao painel que o jornalista irá apresentar no dia 27 de agosto, sábado, pelas 15h30, no Fórum Socialismo 2016, a ter lugar em Santa Maria da Feira.

Desde logo uma constatação: a região curda está repartida entre territórios de Estados de maioria árabe (Iraque e Síria), persa (Irão) e turca (Turquia). Nestes quatro países, estima-se que a população curda seja entre 25 a 35 milhões de pessoas. É fácil deduzir que é uma questão que influencia todo o Médio Oriente e se isso não se notou muito até agora, depois do terramoto chamado Estado Islâmico vai certamente notar-se com mais intensidade.

Os árabes chamam os curdos de “árabes do Iémen”; os turcos chamam-lhes “turcos das montanhas” e os persas consideram-nos os seus alter egos étnicos – um eu diferente. Aliás, recordo-me de ser proibido utilizar a palavra “curdo” (ou Curdistão…) no sudeste da Turquia. 

Precisamente por causa do envolvimento de países tão importantes (e poderosos) apenas parece possível pensar na criação de um Estado-nação para os curdos através de um acordo internacional altamente improvável na situação política que se vive na região. Aliás, o actual Sistema Internacional está a caminho de uma rigidez que aponta em sentido contrário. 

Os curdos (no Iraque, Síria e Turquia) não reivindicam abertamente, neste momento, a criação de um Estado curdo. Falam de maior autonomia, de federalismo, de reconhecimento da língua e da cultura. É óbvio que a ausência de referências a um Curdistão independente é estratégica. Os dirigentes políticos curdos (incluindo o líder histórico do PKK – Partido dos Trabalhadores do Curdistão – Abullah Öcalan) sabem que é preciso criar condições para aspirar a um território unificado e independente. Neste momento as prioridades são outras.

Para além da situação no terreno, que aconselha à prudência política, há diferenças substanciais entre os territórios curdos no Iraque, Síria, Turquia e Irão. E também há grandes diferenças em relação às forças políticas curdas. No Iraque, os curdos têm um Estado que apenas não é independente em termos formais e são os únicos que ousam falar de independência; Na Turquia, são alvo de forte repressão e o PKK é considerado uma organização terrorista; na Síria, a minoria curda, reprimida por Bashar al Assad, hesitou em tomar partido nos movimentos da Primavera Árabe, mas com a ameaça do Estado Islâmico acabou por ver uma oportunidade que tenta agarrar seguindo o exemplo dos curdos iraquianos.

É extraordinariamente difícil pretender abordar a questão curda sem ter em conta toda a realidade do Médio Oriente. A verdade é que passou um século desde a assinatura do acordo Sykes-Picot. Um acordo que retalhou o Médio Oriente numa perspectiva colonialista e também vestefaliana (a que não correspondia o Império Otomano). Para os curdos, o Tratado de Sevres previa um referendo sobre a independência dos territórios. Nunca se efectuou.

Com todas as grandes potências envolvidas no Médio Oriente, até podemos admitir um novo “Sykes-Picot”, mas só à escala internacional poderá ser encontrada uma solução minimamente sustentável. E, porventura, dentro dessa solução poderá nascer um Estado curdo. É certo que também poderá nascer pela via das armas, mas a região já tem guerras suficientes. Até agora, durante cem anos, o referido acordo outra coisa não provocou do que guerra atrás de guerra. O acordo sempre foi visto como um legado imperialista e foi o grande motivo da desconfiança árabe em relação ao “ocidente”. Sunitas, Xiitas, curdos, e outros, viram as fronteiras dividir-lhes os territórios. Neste momento, com a deslocação forçada de populações, há uma enorme confusão em toda a região do Médio Oriente.

Depois das tentativas frustradas do Pan-arabismo, foi o Estado Islâmico quem ameaçou de facto as fronteiras estabelecidas há um século. Não será arriscado admitir que, mais tarde ou mais cedo, vai ser necessário falar com o Estado Islâmico, ou com o que dele restar após a guerra que varre o Iraque e a Síria.

1 de Agosto de 2016
José Manuel Rosendo

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