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Cuidados paliativos e morte assistida “não são antagónicos”

Um estudo realizado na Bélgica e publicado em 2017 diz que as pessoas que solicitaram a morte assistida foram as que mais acesso tiveram a cuidados paliativos, desmentindo assim o suposto antagonismo entre as duas medidas.
Foto Prachatai/Flickr

Na véspera de cada debate sobre a despenalização da morte assistida regressa o argumento dos opositores à medida, que lhe contrapõem a necessidade de investimento nos cuidados paliativos, mesmo que nada tenham feito por isso quando estiveram no governo. Mas serão as duas medidas antagonistas?

Um estudo publicado em 2017 na na revista internacional “Palliative Medicine” tira a conclusão contrária: a percentagem de pessoas que teve acesso a cuidados paliativos na Bélgica é superior entre os que solicitaram eutanásia do que na restante população.

Para o coordenador do Movimento Cívico Direito a Morrer com Dignidade, o resultado deste estudo mostra que “as duas coisas não são nada antagónicas e não são nada contraditórias”. “É curioso, ou seja, das pessoas que não quiseram cuidados paliativos ou que tiveram dificuldades no acesso, a maioria não queria eutanásia”, enquanto as que tiveram acesso a estes cuidados “a maior parte delas queria antecipar a sua morte”, afirmou o médico Bruno Maia à agência Lusa.

Júlio Machado Vaz: "Gostaria de ter o direito de ser ouvido no fim da minha vida, porque a morte sempre fez parte da vida”

A petição aberta à subscrição de profissionais de saúde a favor da despenalização da morte assistida já reuniu quase um milhar de assinaturas. Entre elas está a do psiquiatra Júlio Machado Vaz, que defendeu em declarações à Lusa que cada pessoa “tem o direito de, em determinadas situações, considerar que aquilo que lhe está a acontecer já não é viver, mas apenas sobreviver, e que nessas condições de vida prefere partir mais cedo”.

“Se eu não pude ser ouvido, por definição, no início da minha vida, em contrapartida, gostaria de ter o direito de ser ouvido no fim da minha vida, porque a morte sempre fez parte da vida”, conclui Júlio Machado Vaz, que também não vê a melhoria necessária nos cuidados paliativos como alternativa à morte assistida: “Pese embora todo o avanço que a medicina em geral teve e, por arrasto os cuidados paliativos, o facto de sermos hoje em dia capazes, por exemplo, de dominar como nunca a dor física, não é sinónimo de sermos capazes de dominar o sofrimento, sobretudo, no contexto, que eu e outros defendemos, de que a morte faz parte da vida”, sublinhou o psiquiatra.

As cinco propostas para despenalizar a morte assistida vão a debate parlamentar no dia 20 de fevereiro.

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