You are here

Cuidadores informais querem regulamentação do Estatuto

O Movimento Cuidar dos Cuidadores Informais fez um inquérito entre os cuidadores e conclui que a maior parte não conhece o Estatuto de Cuidador e que quem conhece pensa que é insuficiente.
Cuidadores informais em manifestação. Foto de Tiago Petinga/Lusa.
Cuidadores informais em manifestação. Foto de Tiago Petinga/Lusa.

Mais de um ano depois de aprovado, cerca de 60% dos cuidadores informais continuam a não ter conhecimento sobre o Estatuto do Cuidador Informal. Os que o conhecem, na sua esmagadora maioria, 77,2%, dizem que é insuficiente, “pouco abrangente”, de acesso “muito burocrático e limitado”. Perto de 81% dizem que não têm acesso a serviços e apoios suficientes.

Os números são avançados pelo Movimento Cuidar dos Cuidadores Informais, que nasceu dos esforços conjugados de 24 associações, e resultam de um inquérito a 1.133 cuidadores.

Do retrato das dificuldades que sentem, destaca-se a falta de apoio psicológico e emocional de que 64,6% se queixam, a falta de apoios sociais é referida por 59,1%. Mais de metade dos inquiridos indicam situações de dificuldades económicas (51,8%).

Há também uma maioria, 74,4%, que declararam ter interesse num apoio de voluntários que sejam especializados em cuidados. A maior parte dos cuidadores informais (mais de 63%) até responde que tem informação suficiente sobre a doença da pessoa de quem cuidam. Só que 41,2% pensam necessitar de mais formação e preparação específica para as tarefas de cuidado.

A condição de cuidador informal tem, na perceção dos próprios, impactos fortes na sua vida. Em média, numa escala até dez valores, as respostas dadas atingiram os 8,44 no item de desgaste emocional e 7,96 no desgaste físico. Apesar disso, só perto de 12% têm apoio emocional ou psicológico para o desempenho das funções.

Para além do desgaste, ser cuidador compromete outras situações de vida. 56,4% dos inquiridos diz que não tem tempo pessoal nem espaço para outros papeis sociais. O tempo para a família é pouco e em muitos casos, 87% dos indicados, perdem-se férias e fins de semana. E quase todos, 90%, gostariam de voltar a ter tempo para hábitos e rotinas anteriores.

O estudo permite ainda compreender que demências, AVC e diabetes são responsáveis pela maior parte das situações em que são necessários cuidados. E "cuidador" conjuga-se sobretudo no feminino: 86,6% são mulheres, na sua maioria têm entre 45 e 64 anos e cuidam de familiares diretos: pais, filhos, avós, cônjuges. Só 10% cuidam de alguém com o qual não existe parentesco.

Mão cheia de nada”

O estatuto está a ser implementado através de projetos-piloto em apenas 30 concelhos, nos quais os cuidadores já podem receber apoio financeiro caso o requeiram.

Face a este panorama, o Movimento Cuidar dos Cuidadores Informais defende que é necessário regulamentar o Estatuto do Cuidador Informal ou então este, que foi “um avanço indesmentível”, será “uma mão cheia de nada”. À Lusa, Nelida Aguiar, porta-voz da organização, explica que “foram feitas muitas promessas, mas na prática as coisas ainda estão muito aquém e longe do que foi devidamente legislado. Todas as medidas de apoio que já deviam estar devidamente orientadas ainda não estão e carecem urgentemente de uma apreciação muito mais profunda”.

Esta responsável aponta, por exemplo, a não concretização de “uma série de ações em termos de concertação social” que compromete a integração do estatuto de cuidador com a vida profissional. Ainda para mais, com a pandemia, várias respostas sociais fecharam, obrigando mais cuidadores informais a abandonar o emprego. Outras questões, como a saúde mental, também se tornaram mais problemáticas com o confinamento, o isolamento e o distanciamento social.

Nelida Aguiar aponta que, em algumas matérias, o ECI “pode aprender” com o aprovado nas regiões autónomas que, por exemplo, reconhecem como cuidadores pessoas sem grau de parentesco com a pessoa dependente. Para ela, como está, “é não ter noção da realidade. Nós temos muitos vizinhos a cuidar de vizinhos, pessoas conhecidas, pessoas que não têm qualquer grau de parentesco e que mesmo assim prestam este tipo de apoio. Neste momento, o estatuto como está regulamentado é extremamente limitativo e exclui a maior parte dos cuidadores”.

Termos relacionados Sociedade
(...)