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A cortina de ferro do PCP

O PCP continua a correr uma cortina de ferro, não só em relação ao Bloco, mas às forças da sociedade civil, que Jerónimo de Sousa considera “inorgânicas”. Por Luís Nascimento.
Congresso do PCP
XIX Congresso do PCP. Foto PCP

“O Bloco de Esquerda valoriza o contributo que o PCP tem dado para uma política de recuperação de rendimentos, direitos e serviços públicos e está disponível para encontrar novas formas de diálogo e cooperação com o PCP para a solução dos problemas dos trabalhadores.” Este objectivo está consagrado nas linhas de orientação da “Moção A” aprovada por maioria na X Convenção do Bloco de Esquerda.

É o reconhecimento das soluções que o PCP tem preconizado para a actual maioria parlamentar de esquerda que suporta o Governo do PS.

Mas foi precisamente desde que PS, BE, PCP e PEV estabeleceram uma plataforma de reposição de direitos dos trabalhadores, dos pensionistas e das pessoas mais atingidas pela calamitosa gestão do Governo PSD/CDS, que os comunistas intensificaram os seus ataques sectários ao Bloco, tentando muitas vezes travar uma espécie de luta de protagonismo sobre matérias que o BE conseguiu negociar com o Governo, designadamente, em matéria de Orçamento de Estado. Se o Bloco foi mais ágil, mais moderado e mais flexível à mesa das negociações com os socialistas, isso é um problema do PCP. Só assim se compreendem as picardias de deputados como Miguel Tiago, João Oliveira e os já célebres editoriais do “Avante”. As tiradas irónicas de Jerónimo de Sousa, posteriores ao célebre discurso na noite das eleições presidenciais da “candidata engraçadinha” referindo-se a Marisa Matias.

Picardias e posições hostis à parte, eis que as Teses ao XX Congresso do próximo fim-de-semana, contêm as mesmas expressões de sectarismo, que em minha opinião, podem dificultar no futuro um entendimento mais sólido com o PCP, ou melhor com “este” PCP. Em minha opinião, o PCP ofende, esconde e mente, no que toca ao BE, no capítulo das Teses dedicado à forma como vê os outros partidos. Desde logo mente quando diz que o BE “continua a beneficiar de uma promoção e proteção mediáticas”queixando-se da pouca atenção que os jornalistas dão ao PCP. Não é verdade, sabendo-se que há muitos colunistas do PCP em jornais nacionais de referência, deputados nos canais de informação na TV, nas rádios. Quanto à notoriedade do PCP, estamos conversados. Talvez o PC gostasse de ter uma comunicação social domesticada como o “Avante!”, o velho “Pravda”, a Rádio Moscovo, etc.

Mente também, por ignorância e má-fé, e por não ter lido quer os Estatutos quer as Resoluções das Convenções e outros documentos do Bloco de Esquerda ao afirmar que o BE ”cultiva uma agenda e um posicionamento assentes num verbalismo que não altera o seu carácter social-democratizante”. Social-democrata? Bastava aos autores das Teses e aos membros do Comité Central lerem os Estatutos do BE que não deixam margem para dúvidas logo no seu 1ºArtigo: ”O Bloco de Esquerda defende e promove uma cultura cívica de participação e de ação política Democrática como garantia de transformação social, e a perspetiva do socialismo como expressão da luta emancipatória da Humanidade contra a exploração e opressão”. Além destes princípios consagrados, não é sério encostar-se o Bloco à família social-democrata, nem pela sua agenda e posições políticas e económicas a nível nacional, nem europeias. Verdade seja dita, o PCP é capaz de dizer e fazer tudo e o seu contrário, até mesmo alianças pós-eleições em municípios como Loures e Barreiro, só para se agarrar ao poder como uma lapa. PSD que nem sequer é “social-democrata”.

E prosseguem as teses com a sua manipulação, ao referir que o Bloco revela “diferenças nítidas, quer no plano da União Europeia e das conceções federalistas que o norteiam quer nas políticas e nas prioridades de ação no plano nacional". Federalismo? As posições do Bloco sobre o Euro, contra o directorio da UE, contra o Tratado Orçamental (com uma campanha nacional de recolha de assinaturas,de sessões informativas, debates, no ano passado que nem PCP, nem outra força realizaram), o BCE, a corrupção, a falta de transparência e democraticidade das instituições europeias, são precisamente a antítese de concepções federalistas, são antes a reafirmação de defesa da soberania nacional.

O PCP continua a correr uma cortina de ferro, não só em relação ao Bloco, mas às forças da sociedade civil, que Jerónimo de Sousa, considera “inorgânicas”. O XX Congresso vai também criticar (está nas Teses) esses movimentos sociais mobilizadores nos últimos anos de milhões de portugueses. Recupero o que escreveu em Outubro na “Visão”, João Semedo: “O PCP olha para a luta social com um filtro: só vê e valoriza o que existe por sua influência, o que traduz e acentua o seu afastamento do movimento social e das suas lutas, das novas realidades e forças que emergem. O movimento “Que se lixe a troika” (organizou as maiores manifestações dos últimos 40 anos) ou a associação APRe! (mobilizou os reformados para a luta social como nunca se tinha visto) são completamente ignorados e excluídos da dinâmica social”.

 

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