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Cordões sanitários face ao Vox?

A Transição negou a rotura democrática e agora o velho franquismo chega de novo às nossas portas. Reclamar hoje ao PP e ao C’s que façam um “cordão sanitário” à volta do Vox é pedir algo impossível. Artigo de Sabino Cuadra.
Concentração de protesto na apresentação dos candidatos municipais do Vox em Barcelona. Foto Fotomovimiento/Flickr

Com o pacto PP-Ciudadanos e os seus truques iniciais com o Vox para instalar na Andaluzia instituições claramente de direita, há quem os critique por não criarem como noutros países (França, Suécia…) um cordão sanitário à volta desse partido. Rafael Simancas, porta-voz adjunto do PSOE no Congresso, disse que isto é vergonhoso porque serve para legitimar “os herdeiros do franquismo”, ou seja, o Vox. Mas entregar ao Vox a herança franquista é mais do que um simples erro de julgamento.

Quando dizemos que durante a chamada Transição não houve rotura democrática, não nos referimos a algo politico-concetual, mas a algo bem mais material. Dizemos que toda a rede político-policial-militar-eclesial-judicial-económica do franquismo passou intacta ao novo regime, reconvertidos os seus membros, isso sim, em fervorosos “democratas”.

Refiro-me em primeiro lugar a Juan Carlos I, designado por Franco como seu sucessor em 1969, e que reconheceu na altura “a legitimidade política surgida do 18 de julho de 1936, através de tantos sacrifícios, de tantos sofrimentos, tristes mas necessários para que a nossa Pátria voltasse a orientar o seu destino”. E apesar disso, a Constituição nomeou-o Chefe de Estado, deu-lhe o comando supremo do Exército e ofereceu-lhe uma imunidade civil e penal absoluta.

Falo também dos milhares de fascistas do Movimento, Falange, Frente de Juventudes, Sindicato Vertical, Secção Feminina…, escolhidos a dedo e logo transportados para os novos espaços democráticos, sem que nenhum deles tenha sido demitido pela sua cumplicidade com o criminoso regime franquista. Lembro igualmente a conversão do Tribunal de Ordem Pública na moderna Audiência Nacional, a da sinistra Brigada Político-Social franquista que passou a dirigir a nova Policia Nacional e o grosso daquela hierarquia militar, fardada agora com roupagens constitucionais e da NATO.

Noutro âmbito, os banqueiros e empresários que financiaram o golpe de 18 de julho foram premiados com leis sindicais e laborais  com que sobreexploraram a classe operária durante décadas. Uma classe que fez o que quis com o uso e abuso da mão de obra escrava formada por 400 mil presos políticos que levantaram estradas, pântanos e obras públicas. E que logo se converteu na moderna casta empresarial que hoje detém o IBEX-35.

Finalmente, e preciso apontar essa Igreja que apesar de ter abençoado o gole militar-fascista de 18 de julho, qualificando-o como cruzada e apoiado durante quarenta anos a Ditadura, manteve a grande maioria dos imensos espaços de poder que possuía (religiosos, educativos, assistenciais, civis…) em troca de dar as suas mais santas bênçãos àquela Transição.

Não por isso um acaso, bem pelo contrário, que a direita estatal que conhecemos nas últimas décadas, ou seja, o PP, seja herdeira direta da Aliança Popular de Fraga e tenha nascido após absorver a UCD reformista de Suárez, e não o avesso. E foi assim que o PP se cimentou sociológica e politicamente sobre o espectro mais direitista e franquista de todos os que apostaram por aquela leopardiana Transição. Por isso é que nunca existiu desde então no Estado espanhol uma direita que fosse minimamente liberal ou democrática (de republicana, é melhor nem falarmos).

Após as recentes eleições andaluzas e o crescimento do Vox, muita gente, com razão, apontou a influência que tiveram a era Trump e o importante crescimento do fascismo europeu. Falou-se bastante menos, no entanto, do poder que todas essas centenas de milhares de pessoas acima referidas, que continuaram a manter nos diferentes espaços políticos, policiais, administrativos, episcopais, militares e mediáticos, permitindo a continuidade de um franquismo que agora emerge eleitoralmente. Espaços esses em que à sua volta, durante os últimos quarenta anos, os franquistas recauchutados teceram pacientemente novas teias de poder.

Que fique claro que não se pretende fazer tábua rasa destes três partidos, PP, c’S e Vox, e dizer que é tudo o mesmo. Não, não é disso que se trata. Se os C’s e o Vox apareceram nos últimos anos pela mão de importantes centros de poder económico, empresarial e fático, foi porque o PP, abalado pela crise e a corrupção, estava a ser incapaz de tapar as rachas que se estavam a abrir no edifício institucional nascido na Transição.

A Transição negou a rotura democrática e agora o velho franquismo chega de novo às nossas portas. Mas não é só o Vox que bate as suas aldrabas, como afirma Rafael Simancas. Reclamar hoje ao PP e ao C’s que façam um “cordão sanitário” à volta do Vox é pedir algo impossível, pois o ADN destes três partidos é comum. Por isso, os cordões sanitários que irão colocar serão à volta dos de sempre: os independentistas, a esquerda alternativa, o sindicalismo de confrontação, a juventude insubmissa, as feministas…, mas não para o Vox nem para as centenas de generais, almirantes e coronéis na reserva (os do quadro ativo ainda não levantaram a pata) que acabam de reivindicar há apenas uns meses a figura de Franco, sem que nenhum procurador tenha iniciado qualquer ação sobre eles por apologia do terrorismo.

Que fique claro que não se pretende fazer tábua rasa destes três partidos, PP, c’S e Vox, e dizer que é tudo o mesmo. Não, não é disso que se trata. Se os C’s e o Vox apareceram nos últimos anos pela mão de importantes centros de poder económico, empresarial e fático, foi porque o PP, abalado pela crise e a corrupção, estava a ser incapaz de tapar as rachas que se estavam a abrir no edifício institucional nascido na Transição. “Para rapar hoje o fundo do tacho, é melhor usar três colheres pequenas do que uma grande”, parece dizer o IBEX-35 e o generalato.

O franquismo, embora em grande medida sem visibilidade, sempre esteve presente durante estes anos agrupado em torno de diversas fundações, círculos privados, seletos clubes, salas de oficiais e reduzidos grupos fascistas. Mas hoje saiu para a rua, para os media e as redes e começa também a entrar nas instituições. É preciso por isso enfrentá-lo em todos e cada um destes espaços. Mas a estratégia a seguir não passa por colocar a extrema-direita do Vox como referência central nesta tarefa, mas por colocar de novo em cima da mesa a exigência daquela rotura democrática que a Transição nos roubou. A luta contra o novo franquismo e a extrema direita não passa então por recuperar o seu espírito, mas por romper amarras com aquilo que ela deixou amarrado e bem amarrado.


Sabino Cuadra é advogado, sindicalista e foi deputado da coligação basca Amaiur ao Congresso espanhol entre 2011 e 2015. Artigo publicado no portal Viento Sur. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net

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