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A COP27 foi dominada pelos lóbis do fóssil e a COP28 vai ser pior

Dos 636 lóbistas dos combustíveis fósseis presentes em Sharm el-Sheik, 70 estavam ligados às empresas de gás e petróleo dos Emirados Árabes Unidos, o próximo anfitrião da Cimeira do Clima. No regresso do Egito, Joana Mortágua diz que o recorde vai ser batido na cimeira do Dubai.
Foto UNclimatechange/Flickr

A COP27 que terminou este domingo no Egito cedo chamou a atenção pela a presença redobrada de lóbistas e representantes da indústria dos combustíveis fósseis, que não terão sido alheios ao desfecho da cimeira: uma desilusão para quem esperava maior ambição para conter o auento da temperatura global.

O caso mais caricato terá sido a inscrição do CEO da petrolífera BP por parte da delegação da Mauritânia como seu delegado, a par de outros quatro altos funcionários da empresa. A empresa esclareceu que Bernard Looney e os restantes quadros da BP tinham sido convidados pela delegação da Mauritânia para uma reunião e a assinatura de um projeto de hidrogénio e essa era a razão para estarem inscritos e poderem ter acesso à "zona azul", a área reservada aos representantes governamentais e onde têm lugar as negociações. "De todos os lugares no mundo onde a BP poderia fechar um negócio com a Mauritânia, é difícil entender a razão para o fazer na COP27", reagiu à BBC Alice Harrison, da ONG Global Witness, considerando "bizarro" que os executivos tivessem de integrar a delegação daquele país para assinarem um acordo comercial.

Ao todo, contabilizou a Global Witness, a Corporate Accountability e o Corporate Europe Observatory, a presença dos lóbistas do fóssil na COP27 aumentou 25% em relação à COP26 de Glasgow. Agora, o número destes lóbistas no Egito foi de 636 e ultrapassou a soma dos delegados dos dez países que mais sofreram o impacto das alterações climáticas, incluindo Moçambique, Paquistão ou Bangladesh.

Se o panorama não é agradável para os que entendem que a solução para a crise climática passa pela rápida substituição da energia fóssil, tudo indica que a próxima cimeira será ainda mais marcada pela influência das empresas de petróleo e gás. Os Emirados são um dos maiores exportadores mundiais de petróleo e foram agora a maior delegação presente em Sharm el-Sheik, com 1.073 pessoas, das quais 70 têm ligação a esta indústria.

"Os Emirados são um país com algumas das maiores reservas de petróleo do planeta e têm intenção de continuar a alargar a sua produção de combustíveis fósseis. Farão um esforço para mostrar empenho na produção de renováveis, em especial energia solar e nuclear, mas terão de ser confrontados com a forma como levam a cabo estas ações que conflituam entre si", afirmou ao Guardian Matthew Hedges, um especialista em política económica que durante a investigação do seu douturamento esteve preso e foi torturado durante seis meses em Abu Dhabi.

"COP28 deve bater recordes de representação do lóbi do fóssil”

A deputada bloquista Joana Mortágua participou na cimeira do Egito e disse ao Esquerda.net não ter dúvidas de que “a próxima COP no Dubai, a avaliar pelos países que registaram os lobistas do fóssil no Egito e as suas ligações às petrotiranias, deve bater recordes de representação do lóbi do fóssil”.

Da COP 27, a deputada destaca o acordo para o fundo de compensação por perdas e danos, uma “grande reivindicação dos países mais afetados pelo desastre climático”, mas que se arrisca a ser mais uma promessa adiada destes grandes eventos político-mediáticos.

“Mesmo que o acordo desta COP refira a possibilidade de um fundo por compensação por perdas e danos para os países mais pobres, a definição sobre o funcionamento e quem o vai financiar ficou para as calendas, para uma futura COP”, sublinha a deputada. E lembra que mesmo os 100 mil milhões que estavam estabelecidos para um fundo de adaptação e transição energética das economias dos países mais pobres não foi ainda totalmente pago pelos países ricos. Ou seja, “há já dinheiro em dívida para com os países pobres” e estes acham que o fundo de compensação de perdas e danos “será muito abaixo do que é necessário e virá cheio de condicionalismos, se é que chega”.

Para Joana Mortágua, “o problema deste fundo é que ele é já hoje uma emergência para muitos países que já estão a lidar com o desastre climático. É importante mas virá tarde demais, tal como o fundo atual”, conclui.

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