As contradições de Christine Lagarde

11 de July 2019 - 8:43

O que significa a passagem de Christine Lagarde do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o Banco Central Europeu (BCE)? Será difícil ela aplicar uma política monetária menos hostil aos povos da zona euro que ainda sofrem os efeitos da crise. Por Alejandro Nadal.

porAlejandro Nadal

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A designação de Christine Lagarde para dirigir o BCE coincide com a vitória eleitoral da Nova Democracia na Grécia, resultado eleitoral que é a consequência direta da política de austeridade imposta pela troika
A designação de Christine Lagarde para dirigir o BCE coincide com a vitória eleitoral da Nova Democracia na Grécia, resultado eleitoral que é a consequência direta da política de austeridade imposta pela troika

O clima da economia mundial é inquietante. As tempestades são sempre precedidas por um período de calma e em que as nuvens escuras se veem no horizonte. O mais grave é que não se encontra um novo motor que permita reativar a economia global. A guerra comercial é uma realidade, o investimento na economia real continua letárgico e a ameaça de uma nova recessão continua presente.

Neste contexto, o que significa a passagem de Christine Lagarde do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o Banco Central Europeu (BCE)? Para avaliar esta questão é importante observar as contradições de Lagarde face às políticas de austeridade que o FMI tanto promoveu no passado.

Durante décadas o FMI aplicou uma implacável política de austeridade fiscal nos países subdesenvolvidos. O objectivo foi sempre gerar um superávit primário nas finanças públicas para assegurar o pagamento da dívida externa, ainda que isso significasse condenar economias inteiras à estagnação, ao desemprego e à pobreza. Em países como o México o paliativo foram os programas focalizados na redução da pobreza, outra fórmula preferida do FMI. Os resultados estão à vista: desigualdade desenfreada e pobreza para 60 por cento da população.

A ajuda do FMI teve sempre o efeito de prolongar a agonia económica para garantir a servidão financeira de países inteiros. Mas na crise financeira de 2008 tudo mudou. O FMI descobriu os benefícios da política fiscal quando se trata de resgatar bancos e grandes empresas, e também acabou por aceitar que os bancos centrais injetassem quantidades astronómicas de dinheiro no sistema bancário e financeiro.

A gestão de Christine Lagarde à frente do FMI foi marcada desde o início pelos efeitos dessa crise. No princípio, o FMI aprovou os pacotes fiscais de resgate e estímulo ativados por Paulson (secretário do tesouro no governo de George W. Bush) e Geithner (no governo de Obama). Mas as vozes contrárias à ampliação do défice fiscal travaram essa política fiscal.

Depois a Reserva Federal percebeu que tinha que colmatar o vazio deixado pela retirada dos apoios fiscais. E a Fed inaugurou a sua política de flexibilidade quantitativa, que acabou por injetar mais de 4 biliões (milhões de milhões) de dólares no sistema financeiro norte-americano. Novamente o FMI aprovou esta abordagem de política monetária que ia contra os dogmas que o organismo tinha exaltado durante décadas.

Estes movimentos na política macroeconómica tiveram a sua réplica em Europa, com os resgates operados por vários países quando o contágio trouxe a crise para a UE. E quando Mario Draghi anunciou que o BCE faria tudo o que fosse necessário para manter o valor e a integridade do euro, o FMI novamente esteve de acordo.

10 anos depois do desastre financeiro, tanto a Fed como o BCE continuam presos a esta posição de generosidade extrema com o mundo financeiro e fria indiferença em relação à economia real. Assim, anunciaram a manutenção de taxas de juro baixas no futuro previsível. Enquanto, a bolha mais espetacular de todos os tempos continua a crescer na Bolsa de Valores de Nova York.

O fundo de tudo isto é que os bancos centrais não têm o controle da política monetária tanto nos países desenvolvidos como nos países subdesenvolvidos. Que Lagarde ou Draghi sejam diretores do BCE não muda as coisas. Os bancos comerciais privados na Europa, tal como em todo o mundo, são quem controla a oferta monetária. O papel do banco central é proporcionar a base monetária, de acordo com o funcionamento dos bancos comerciais privados. Se estes se excedem na criação de dinheiro (através das suas operações de crédito), ao banco central só resta acomodar-se à procura de reservas proveniente dos bancos privados. O BCE sabe que quando o sistema bancário precisa de reservas, o banco central não tem escolha senão emprestá-las (fixando a taxa de juro de curto prazo sobre essas reservas). O mecanismo não é suficiente para manter o controle sobre a oferta monetária. E a crise do euro é a melhor prova.

A designação de Lagarde para dirigir o BCE coincide com a vitória eleitoral da Nova Democracia na Grécia. Este partido representa os interesses da oligarquia corrupta e rentista nesse país e este resultado eleitoral é a consequência direta da política de austeridade imposta pela troika desde o início da crise. O FMI desempenhou um papel um pouco menos terrível que a Comissão Europeia em Bruxelas e no BCE. Para a senhora Lagarde era relativamente fácil aconselhar um pouco mais de moderação ao lidar com a economia grega porque sabia que, no final, Bruxelas e Frankfurt tinham mais peso na decisão. No seu novo posto, será difícil Christine Lagarde aplicar uma política monetária menos hostil aos povos da zona euro que ainda sofrem os efeitos da crise que irrompeu há 10 anos.

Artigo de Alejandro Nadal, publicado em “La Jornada” a 10 de julho de 2019. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Alejandro Nadal
Sobre o/a autor(a)

Alejandro Nadal

Economista, professor em El Colegio do México.