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A contaminação do povo Yanomami

Um estudo inédito da Fiocruz e do Intituto Socioambiental (ISA) revela a presença de altos níveis de mercúrio em habitantes da Terra Indígena Yanomami devido à extração de ouro.
Mulheres e crianças assistem à apresentação dos resultados do estudo sobre contaminação por mercúrio de garimpo. Terra Indígena Yanomami, região do Papiú. Foto: Marcos Wesley/ISA, 2016

Viver num território que tenha no seu subsolo grandes reservas de ouro pode parecer uma benção e um sinónimo de riqueza. Infelizmente, para os Yanomami, esta situação tem sido a sua maior maldição. Um estudo recente conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), mostra que a contínua invasão ilegal de garimpeiros no seu território tem trazido graves consequências: algumas aldeias chegam a ter 92% das pessoas examinadas contaminadas por mercúrio.

“São muitos os garimpeiros que trabalham ilegalmente nos nossos rios e além do desastre ambiental e social que causam, nós desconfiamos que nosso povo está ser envenenado com o mercúrio utilizado pelos garimpeiros” (Davi Kopenawa Yanomami, março de 2013)

O caso mais alarmante foi o da comunidade Yanomami de Aracaçá, na região de Waikás, onde 92% do total das amostras apresentaram um alto índice de contaminação. Esta comunidade, entre todas as pesquisadas, é a que tem o garimpo mais próximo. Já na região do Papiú, onde foram registados os menores índices de contaminação — 6,7% das amostras analisadas — a presença garimpeira é menos acentuada.

Como se dá a contaminação por mercúrio

O uso do mercúrio faz parte do processo tradicional utilizado no garimpo para viabilizar a separação do ouro dos demais sedimentos. Uma parte dele é despejada nos rios e igarapés e a outra é lançada na atmosfera. Uma vez na atmosfera, acaba por cair nas proximidades das áreas de exploração. As águas dos rios e os peixes que ingerem o mercúrio podem levá-lo para regiões mais distantes. A contaminação de seres humanos dá-se especialmente através da ingestão de peixes contaminados, sobretudo os carnívoros e de tamanho maior.

O mercúrio é um metal altamente tóxico e os seus danos costumam ser graves e permanentes: alterações diretas no sistema nervoso central, causando problemas de ordem cognitiva e motora, perda de visão, doenças cardíacas entre outras debilidades. Nas mulheres gestantes, os danos são ainda mais graves, pois o mercúrio atinge o feto, causando deformações irrecuperáveis.

Garimpo na Terra Indígena Yanomami

O garimpo já deixou marcas profundas no povo e no território Yanomami. Entre 1986 e 1990, estima-se que 20% da população (1.800 pessoas) morreu em função de doenças e violências causadas por 45 mil garimpeiros que invadiram suas terras.

A invasão e a tensão crescente do garimpo culminaram, nos anos de 1990, num episódio de grande repercussão mundial devido à sua barbárie. Em julho de 1993, garimpeiros invadiram uma aldeia Yanomami e assassinaram a tiros e golpes de facão 16 indígenas, entre eles idosos, mulheres e crianças. Conhecido como o Massacre de Haximu, foi o primeiro caso julgado pela Justiça brasileira no qual os réus foram condenados por genocídio.

O garimpo continua a ser uma ameaça à vida dos Yanomami e Ye’kwana. Desde 2014, a invasão dos seus territórios por garimpeiros cresce assustadoramente. Hoje, estima-se que cinco mil garimpeiros atuam ilegalmente na Terra Indígena Yanomami. As diversas denúncias feitas pelos índios não têm resultado em ações efetivas dos órgãos governamentais responsáveis. Se nada for feito de concreto, um novo Haximu pode estar a caminho.

Para acabar com o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami é preciso que se descubra os seus financiadores, que são os que realmente lucram e sustentam esta atividade. É preciso descobrir a rota do ouro, ou seja, por onde passa e qual o seu destino final.

Neste sentido, a Polícia Federal realizou duas operações que levantaram apenas a ponta do véu que encobre esta atividade ilegal: a operação Xawara, em 2012, e a operação Warari Koxi, em 2015. Além de descobrirem alguns comerciantes e donos de avião em Roraima, também descobriram que o ouro chega a uma Distribuidora de Valores e Títulos Imobiliários (DTVM), na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo. Fica o alerta: o ouro comercializado nos grandes centros financeiros do Brasil pode carregar com ele o sofrimento do povo Yanomami.

As coletas feitas em novembro de 2014 foram precedidas por consultas aos indígenas, que autorizaram a retirada de amostras dos seus cabelos, com a condição de que após a análise elas seriam devolvidas. Este pedido deve-se à obrigação de que, para os Yanomami, todos os pertences e partes corporais devem ser cremados após a morte. É também uma precaução adotada depois de terem tido conhecimento do caso de roubo do seu sangue por pesquisadores norte-americanos na década de 1970.

Tanto as consultas para autorização como a apresentação dos resultados foram feitas em língua indígena, com o auxílio de intérpretes e material explicativo bilíngue, visando garantir a compreensão por parte de todos os envolvidos na pesquisa.

Denúncia juntos dos poderes públicos

Uma comitiva formada por lideranças Yanomami e Ye'kwana, e representantes da Fiocruz e do ISA, foram a Brasília, em março de 2016, para divulgar o diagnóstico junto dos órgãos responsáveis. A comitiva entregou cópias às Presidências da Funai e do Ibama, ao coordenador da Secretaria Especial de Saúde Indígena, ao Ministério Público Federal e à Relatora Especial sobre Direitos Indígenas da ONU, que estava de visita ao Brasil. As lideranças indígenas também exigiram a retirada imediata dos garimpeiros da Terra Indígena Yanomami e cuidados especiais de saúde para as pessoas que estão contaminadas.

Publicado no site do ISA em 23 de Março de 2016.

O Povo Yanomami está contaminado por mercúrio de garimpo

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