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Como Trump aconteceu

O apoio a Donald Trump é baseado na raiva que vem da perda de confiança no governo. Mas as políticas propostas por ele fariam com que a situação piorasse. Por Joseph Stiglitz, Project Syndicate.
"O apoio a Trump é baseado, pelo menos parcialmente, na raiva disseminada que vem dessa perda de confiança no governo", escreve Joseph Stiglitz
"O apoio a Trump é baseado, pelo menos parcialmente, na raiva disseminada que vem dessa perda de confiança no governo", escreve Joseph Stiglitz

Viajei à volta do mundo nas últimas semanas, e fizeram-me repetidamente duas perguntas: é concebível que Donald Trump possa ganhar a presidência dos EUA? E como é que essa candidatura chegou tão longe atingindo o primeiro lugar?

Sobre a primeira pergunta, mesmo a previsão política sendo ainda mais difícil do que a previsão económica, as chances são favoráveis a Hillary Clinton. Ainda assim, a intensidade da corrida (pelo menos até há pouco tempo) foi um mistério: Clinton é a candidata à presidência mais qualificada e bem preparada que os EUA já tiveram, enquanto Trump é um dos menos qualificados e com mais deficiências na sua preparação para assumir o cargo. Além disso, a campanha de Trump sobreviveu mesmo com o seu comportamento, que já teria sepultado as possibilidades de qualquer candidato no passado.

Então porque é que os norte-americanos estariam a brincar à roleta russa? Os que estão fora dos EUA querem saber a resposta, porque o resultado também os afeta, mesmo não tendo influência sobre ele.

E isso leva-nos à segunda questão: porque é que o Partido Republicano nomeou um candidato que até o seu líder rejeitou?

Obviamente, muitos fatores ajudaram Trump a derrotar 16 candidatos nas primárias para chegar tão longe. A personalidade é importante, e algumas pessoas realmente parecem gostar do personagem de Trump no reality show.

Mas vários fatores parecem também ter contribuído para a intensidade da corrida à Casa Branca. Para início de conversa, muitos norte-americanos estão economicamente pior do que estavam há um quarto de século. A renda média de assalariados homens em tempo integral é menor do que há 42 anos, e é cada vez mais difícil para aqueles com educação limitada conseguirem empregos em tempo integral que paguem um salário decente.

Crescimento para os mais ricos

De facto, os salários reais (ajustados à inflação) com base na distribuição de rendimentos não estão onde estavam há 60 anos . Então não é surpresa que Trump encontre uma grande e receptiva audiência quando diz que o estado da economia está apodrecido. Mas Trump está errado não só no diagnóstico como na prescrição. A economia dos EUA como um todo deu-se bem nas últimas seis décadas: o PIB aumentou quase seis vezes. Mas os frutos desse crescimento foram direcionados para alguns selecionados no topo – pessoas como Trump, devido, parcialmente, a grandes cortes de impostos que ele iria expandir e aprofundar.

Ao mesmo tempo, reformas que líderes políticos prometeram que assegurariam prosperidade para todos – como a liberalização financeira e do comércio – não foram entregues. Longe disso. E aqueles cujo padrão de vida estagnou ou decaiu chegaram a uma conclusão simples: os líderes políticos da América ou não sabem do que estão a falar ou estão mentir (ou ambos).

Trump culpa o comércio e a imigração por todos os problemas da América . Ele está errado. Os EUA teriam enfrentado a desindustrialização mesmo sem um comércio mais livre: o emprego global em manufatura tem estado em declínio, com ganhos de produtividade que excedem o crescimento da procura.

Interesses corporativos

Os acordos de comércio falharam mas não foi porque os EUA tenham sido ultrapassados pelos seus parceiros de comércio, mas sim porque a agenda comercial dos EUA foi montada para responder a interesses corporativos. As companhias norte-americanas deram-se bem, e foram os Republicanos que bloquearam os esforços para assegurar que os norte-americanos que não se tiveram benefícios nos acordos iriam partilhar as suas vantagens.

Portanto, muitos norte-americanos sentem-se traídos por forças que estão fora do seu controle, levando a resultados que são injustos. Presunções de longo-prazo – que a América do Norte é a terra das oportunidades e que cada geração será melhor que a passada – foram postas em questão. A crise financeira global pode ter representado um ponto crítico para muitos eleitores: o seu governo salvou os banqueiros ricos que quase arruinaram o país, enquanto não fez quase nada pelos milhões de cidadãos que perderam os seus empregos e casas. O sistema não somente produziu resultados injustos, mas pareceu que estava equipado para o fazer.

O apoio a Trump é baseado, pelo menos parcialmente, na raiva disseminada que vem dessa perda de confiança no governo. Mas as políticas propostas por ele fariam com que uma situação má fosse ainda pior. Claro, outra dose de economia do tipo que ele promete, com corte de impostos concentrados quase inteiramente nos cidadãos ricos e nas corporações, produziria resultados que não seriam melhores do que da última vez.

Na realidade, lançar uma guerra comercial com a China, México e outros parceiros comerciais dos EUA, como promete Trump, deixaria a generalidade dos cidadãos mais pobres e criaria novos impedimentos à cooperação global necessária para olhar para os problemas globais críticos como o Estado Islâmico, o terrorismo global e as mudanças climáticas. Usar dinheiro que poderia ser investido em tecnologia, educação ou infraestruturas para construir um muro entre os EUA e o México, é um troféu em termos de gastos inúteis de recursos.

A “revolução” Thatcher-Reagan

Existem duas mensagens que as elites políticas dos EUA deveriam estar a ouvir. As teorias fundamentalistas simplistas do mercado neoliberal que moldaram tantas políticas económicas durante as últimas quatro décadas são enganosas, com o crescimento do PIB ancorado numa desigualdade alarmante. Economia de redistribuição não tem e não irá funcionar. Os mercados não existem num vácuo. A “revolução” Thatcher-Reagan, que reescreveu as regras e reestruturou o mercado para benefício do topo, teve êxito no aumento da desigualdade, mas falhou na sua missão de aumentar o crescimento.

Isso nos leva à segunda mensagem: precisamos reescrever as regras da economia novamente, desta vez para garantir que os cidadãos comuns sejam beneficiados. Os políticos nos EUA e em qualquer lugar que ignoram essa lição serão responsabilizados. O risco é inerente à mudança. Mas o fenómeno Trump – e mais alguns desenvolvimentos políticos similares na Europa – revelou os piores riscos da falha em dar atenção à essa mensagem: a divisão de sociedades, as democracias menosprezadas e as economias enfraquecidas.


Artigo do Project Syndicate publicado no site Carta Maior em 17 de outubro de 2016.

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