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Como a Syngenta perseguiu cientistas para abafar alertas sobre riscos de agrotóxicos

Entrevista a dois cientistas que avisaram a multinacional sobre os perigos dos pesticidas Atrazina e Paraquate. Por Pedro Grigori, Agência Pública/Repórter Brasil.
Syngenta. Foto de Fruitnet.com/Flickr.
Syngenta. Foto de Fruitnet.com/Flickr.

Quando um Tribunal dos Estados Unidos tornou públicos os arquivos usados em processos da Syngenta, líder do mercado mundial de agrotóxicos, o público teve um vislumbre de até onde a multinacional vai para manter os seus valiosos (e perigosos) produtos no mercado. E o que ela se presta a fazer: atacar a ciência e os cientistas.

“Aqueles que têm o privilégio de saber têm o dever de agir”, disse, parafraseando Albert Einstein, o biólogo e professor da Universidade da Califórnia Tyrone Hayes, que foi alvo de uma campanha de perseguição da empresa, em entrevista à reportagem.

“O problema é que a empresa era dirigida por comerciantes interessados apenas no lucro. Se eles tivessem ouvido toxicologistas, não estariam nesta posição muito difícil tentando defender os erros cometidos no passado”, diz o cientista britânico Jon Heylings.

A Agência Pública e Repórter Brasil tiveram acesso e-mails, documentos internos, anotações e atas de reuniões apresentadas no processo e conversaram com Heylings e outro cientista que protagonizaram disputas durante décadas com a empresa suíça, e explicam como a gigante dos pesticidas ignorou evidências científicas para continuar lucrando.

Alerta sobre a Atrazina

Por mais de uma década, Tyrone Hayes dizia estar a ser perseguido pela Syngenta, alegando que a multinacional ouvia as suas ligações, monitorizava as suas palestras e trabalhava para desmoralizá-lo. Ninguém acreditava nele.

A história teve início em 1997. A Novartis Agribusiness, uma das empresas que mais tarde formariam a Syngenta, contratou o biólogo para fazer experiências com o herbicida Atrazina. O produto é o principal agrotóxico utilizado nas plantações de milho dos Estados Unidos. É também o quinto agrotóxico mais vendido no Brasil, com 23,4 mil toneladas comercializadas em 2019, segundo o Ibama.

O objetivo da investigação de Hayes era identificar os efeitos da Atrazina em anfíbios, área de perícia do cientista, que na época tinha 31 anos e mais de 20 artigos publicados sobre endocrinologia de anfíbios. Hayes descobriu que a Atrazina poderia retardar o desenvolvimento sexual de sapos. O resultado desagradou a Novartis, que o proibiu de publicar o estudo.

Com isso, Hayes decidiu deixar a empresa em novembro de 2000. Ele conseguiu um novo financiamento, concluiu o trabalho e publicou estudo revelando que a Atrazina cria sapos hermafroditas.

Em entrevista à reportagem, Hayes conta que desde os primeiros testes no laboratório era possível ver como a Atrazina atingia os espermatozoides dos sapos africanos com garra, anfíbio usado nas experiências. “Mostrei os resultados à EPA [Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos] porque achei que estariam interessados, já que é o produto número um em vendas. Mas disseram que não era um ‘efeito adverso’ que os forçaria a reavaliar aquele produto químico”, diz.

Então Hayes decidiu ir mais fundo, agora trabalhando com outros cientistas para identificar o efeito do agrotóxico em humanos. Ao comparar a urina de homens de Columbia, nos Estados Unidos, que tiveram contacto com Atrazina, o novo estudo identificou baixa contagem de espermatozóides num nível que traria dificuldades para a reprodução. “O nível de Atrazina na urina desses homens era a mesma que usávamos para castrar quimicamente os sapos da nossa experiência”, explica.

Numa nova fase da pesquisa, mediram o nível do pesticida na urina de homens que trabalhavam em plantações na Califórnia que aplicavam atrazina. Os resíduos detetados foram 24 mil vezes maiores do que o dos homens de Columbia. “Um trabalhador desses poderia fazer xixi nsum balde e diluir 24 mil vezes, e mesmo assim a Atrazina na sua urina poderia ser usada para castrar quimicamente girinos”, diz o cientista.

Esse trabalho é o motivo da perseguição da Syngenta, segundo o biólogo. Na época, ele sentiu-se distante de outros cientistas e sentia que a empresa tentava isolá-lo. Em 2010, a multinacional entrou com uma queixa de ética contra Tyrone Hayes na Universidade da Califórnia, Berkeley. O motivo era a criação de um site contrário à Atrazina e e-mails de reclamações que o cientista enviou à empresa. A queixa de ética foi considerada sem mérito.

A situação só mudou em 2013, quando uma reportagem do site Environmental Health News em parceria com a organização 100 Reporters revelou documentos internos detalhando uma campanha cara e agressiva contra cientistas, que incluía até a contratação de detetives e profissionais para traçar o perfil psicológico dos perseguidos. E o principal alvo era Tyrone Hayes.

Memorandos provavam que o departamento de comunicação da Syngenta tinha criado um grupo de trabalho na empresa para falar sobre o cientista. O objetivo do grupo era “evitar que os dados de TH (Tyrone Hayes) fossem citados, mostrando que ele não era confiável”, segundo anotações do Departamento de Comunicação. No mesmo documento, a ex-chefe de comunicações da Syngenta, Sherry Duvall Ford, listou estratégias contra o cientista, entre elas a “publicação de críticas de terceiros sobre a sua ciência”, “refutações sistemáticas de todas as aparições do TH”, “tornar públicos e-mails” e até mesmo “investigar a esposa”.

Ele relembra que a empresa sempre negou persegui-lo. “Mas veja os documentos, o primeiro objetivo do programa de ciência era ‘desacreditar Hayes”, conta.

Os documentos também mostram que a empresa encomendou um perfil psicológico do cientista, onde o classificaram como “esquizo-paranóico e narcisista”.

Outro arquivo mostra que a Syngenta estudou comprar o termo “Tyrone Hayes” em sites de busca na internet, levando quem pesquisasse o nome do cientista a encontrar primeiro conteúdos produzidos pela empresa.

Os documentos vieram a público durante um processo judicial que buscava forçar a Syngenta a pagar por filtros para limpar a Atrazina da água potável em seis estados norte-americanos. A ação coletiva foi encerrada em 2012, e apesar de não admitir a culpa pela contaminação, a Syngenta concordou em pagar 105 milhões de dólares para custos de filtragem de mais de mil sistemas de água.

E Tyrone Hayes não era o único alvo. No seu depoimento ao Tribunal do Condado de Madison em Illinois, Sherry Duvall Ford, ex-chefe de comunicações da Syngenta, leu um memorando enviado por e-mail no qual contava que a empresa contratou uma agência de detetives para investigar membros de um Painel Consultivo Científico da EPA, que na época reavaliavam a Atrazina.

Os documentos do tribunal revelaram ainda um banco de dados com 130 pessoas e organizações que a empresa pretendia pagar para apoiar a Atrazina. Segundo o documento, as pessoas da lista eram treinadas para defender o agrotóxico e os pagamentos pelos serviços não seriam divulgados publicamente.

Duas décadas depois da publicação da primeira pesquisa sobre a Atrazina, Tyrone Hayes continua a trabalhar em salas de aula, em laboratórios e a dar palestras. Em abril, recebeu uma das maiores honras da carreira: foi eleito para a Academia de Artes e Ciências dos Estados Unidos, que homenageia artistas e cientistas que ajudaram a resolver os desafios mais urgentes do país.

A Syngenta também recebeu recentemente uma das maiores honras da sua trajetória, quando passou a liderar o mercado mundial de agrotóxicos. De acordo com a FAO/ONU, o mercado mundial de agrotóxicos movimenta 34,4 mil milhões de dólares por ano e a Syngenta é dona de um quarto dessa fatia. Desde 2017, quando a empresa foi comprada pela ChemChina por 43 mil milhões de dólares, o aglomerado estatal chinês tornou-se responsável por 24,3% do mercado mundial. Junto das empresas alemãs Bayer e Basf, e da norte-americana Corteva Agriscience, o chamado “Big 4” responde por 65,8% do mercado mundial.

Cientista alertou sobre composição do Paraquate

O caso de Tyrone Hayes não foi o único em que a Syngenta teve problemas com um cientista que ela mesma contratou. Um investigador britânico veio a público este ano para denunciar uma irregularidade no principal produto da empresa, o Paraquate.

O cientista britânico Jon Heylings trabalhou 22 anos na Syngenta e hoje é professor de toxicologia na Universidade de Keele, no Reino Unido. Na Syngenta, ele atuava no desenvolvimento de fórmulas mais seguras para o Paraquate e está há mais de três décadas a alertar a empresa sobre a ineficácia das medidas de segurança no produto.

Jon chegou a criar para a Syngenta uma fórmula mais segura para o Paraquate, que custava mais, e acabou removida do mercado logo após o lançamento no começo dos anos 2000.

Em entrevista à Agência Pública e a Repórter Brasil, Heylings garante que está apenas a cumprir o seu dever como cientista. “Fui trazido para a empresa em 1986 para liderar um projeto sobre fórmulas mais seguras. Foi por uma boa investigação científica onde descobri que o emético adicionado aos produtos de paraquate tinha um nível ineficaz”, diz o cientista.

Vendido pela Syngenta pelo nome comercial de Gramoxone, o Paraquate é usado em diversas plantações, como algodão, cana-de-açúcar, milho, café e banana, desde a década de 1960. No Brasil, é o sétimo ingrediente ativo mais vendido, com mais de 16,3 mil toneladas comercializadas apenas em 2019, segundo o Ibama.

Cerca de 10 anos depois da criação, o produto teve que passar por uma mudança na formulação devido à toxicidade aguda: um gole era suficiente para matar uma pessoa.

A empresa então adicionou ao herbicida um emético, substância que causa vômito, para diminuir o risco de envenenamentos. Com a promessa de maior segurança, o produto foi mantido no mercado.

Acontece que, segundo Heylings, a concentração de emético recomendada por um estudo pago pela Syngenta em 1976 estava “provavelmente bem abaixo de uma dose efetiva no homem”. Ele sugeriu um aumento na concentração de emético para “reduzir o número de fatalidades atribuídas ao envenenamento por paraquate”.

Jon informou a Syngenta que o estudo que definiu a concentração do químico teria sido manipulado e pressionou a empresa para uma revisão independente, o que nunca foi autorizado. Em 1991, quando a Syngenta estudava um novo nível de emético, Heylings insistiu mais uma vez. “Considero bem vinda a proposta de uma análise independente da situação para confirmar minhas descobertas”, diz o cientista em um e-mail enviado em 9 de abril de 1991.

Os e-mails de Jon Heylings, assim como diversos outros documentos internos da Syngenta, foram publicados há dois meses pelos sites Unearthed e da PublicEye na série “Paraquate Papers”. Eles provaram que a empresa recebeu memorando internos com alertas do cientista desde os anos 1990, mas decidiu ignorá-los.

Um documento interno da Syngenta determinou que “nenhuma das formulações alternativas atualmente disponíveis oferecem uma solução economicamente aceitável para o problema do suicídio”.

Em 2018, quando já trabalhava na Universidade de Keele, Jon descobriu que a Syngenta cancelou o registro do Inteon, versão com mais emético do Paraquate, criado por ele nos anos 1990. “Eles nem me avisaram”, diz.

Após isso, Jon fez diversas pesquisas sobre o Paraquate e descobriu que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO/ONU) seguia a mesma concentração emética determinada pela Syngenta para o Paraquate na década de 1970. Jon denunciou o erro à EPA e a FAO/ONU, mas não teve retorno.

Em março de 2020, uma equipe de advogados dos Estados Unidos entrou em contacto com o cientista após ler os memorandos sobre o emético de 1991. O grupo estava a levar a Syngenta aos tribunais em nome de agricultores que desenvolveram a doença de Parkinson após usar o Paraquate nas plantações.

Stephen Tillery, principal advogado do processo, disse à Unearthed e à Public Eye que a “questão emética” era parte de seu caso porque demonstrava “até onde esta empresa irá para manter o Paraquate no mercado”.

“O Paraquate estava prestes a ser banido na década de 1970 por causa do número de pessoas que morreram de forma agonizante por ingeri-lo. Ao alegar que o emético tornaria o uso do Paraquate mais seguro, eles conseguiram mantê-lo no mercado.”, disse o advogado ao site.

Agora, a denúncia de Jon fará parte do processo, que será julgado no próximo mês. De acordo com a Syngenta, “o argumento de Heylings de que aumentar o nível de emético melhora a segurança do produto é excessivamente simplista; a realidade é complexa e a opinião médica e científica moderna não apóia o ponto de vista de Heylings”.

Jon Heylings afirma que a Syngenta continua a desconsiderar as suas denúncias. “Eles não têm interesse em tentar entender ou lidar com a questão emética porque sabem que estou certo”, conta o cientista.

O paraquate acabou por ser banido no Brasil no ano passado, apesar do forte lóbi da Syngenta, que liderou uma task force que tentava reverter a proibição.

Até ser banido, o Gramoxone era vendido com a mesma concentração de emético que a Syngenta estipulou nos anos 1970. E ela não evita que as pessoas se matem com o Paraquate.

No Brasil, pelo menos 138 pessoas morreram envenenadas por Paraquate na última década, de acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde. Número que pode ser muito maior, devido a subnotificação dos casos.

Procurada pela Agência Pública e Repórter Brasil, a Syngenta Brasil não quis comentar os documentos divulgados e nem o processo de banimento do Paraquate do país.


Texto publicado na página da Agência Pública.

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