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Com epidemias como o coronavírus, crescem os discursos xenófobos

Em entrevista ao jornal espanhol El Diário a antropóloga norte-americana Adia Benton, analisa o padrão de discurso “tóxico” que surge quando há uma epidemia como a do coronavírus. Alarmismo, desinformação, busca de bodes expiatórios, xenofobia e teorias da conspiração circulam viralmente.
Coronavírus: ilustração de chiplanay no Pixabay.
Coronavírus: ilustração de chiplanay no Pixabay.

Aconteceu com o SARS, com o ébola e agora acontece com o coronavírus. Os discursos xenófobos têm sido um sintoma social que acompanha as epidemias que causam alarme global. É o que explica Adia Benton, professora de Antropologia da Universidade de Northwestern, em entrevista ao El Diário esta quinta-feira.

A especialista, autora do livro Excecionalismo do VIH: desenvolvimento através da doença na Serra Leoa, analisou os padrões de alarmismo, desinformação, de busca de bodes expiatórios e de denegrir “os outros” que se têm repetido no âmbito de algumas das mais recentes epidemias. Conclui que, neste caso, se repete o mesmo “padrão habitual de discurso tóxico”.

Apesar de, em muitos destes casos, as características da doença poderem “acabar estigmatizando qualquer pessoa suspeita de a sofrer” se há grupos que, por alguma razão, são mais associados à doença ou suscetíveis de a contrair “acabam por sofrer dupla marginalização e discriminação”. O que no presente acontece pela proliferação de discursos como: “como os chineses comem isto ou acreditam naquilo, é claro que sofrem desta coisa e agora as suas más práticas culturais estão a por o mundo em perigo”. Fala-se do plano “cultural” mas também de “presumidas características inatas” que predisporiam a um certo tipo de vírus, o que justificaria a exclusão e o seu isolamento.

A antropóloga acredita que os meios de comunicação social convencionais podem alimentar este tipo de discurso, até porque dão voz a políticos que expressam ideias xenófobas ou racistas, mas o papel das redes sociais é fundamental na circulação destas ideias. “Há muitos analistas de sofá a especular sobre as origens da doença e recorrendo a fontes díspares para apoiar certas teorias sobre o seu surgimento”.

Benton diz que “a desinformação e os rumores são omnipresentes durante os surtos” porque “as pessoas procuram encontrar sentido para a doença e para a morte”. Desenvolvem-se na “ausência de uma informação clara”. Assim como teorias da conspiração como: “fabricaram a doença em laboratório” ou “desencadearam-na intencionalmente para dizimar um grupo em particular”

Para a antropóloga, a questão não é meramente discursiva: têm existido no surto atual situações de “violência psicológica e física anti-asiática”.

Confessando não saber como combater o fenómeno porque “está muito enraizado”, sublinha a importância de consciencializar “como circulam estas mensagens” e de chamar a atenção de que “têm consequências materiais, físicas e psicológicas”.

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