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Coletes amarelos mutilados manifestaram-se em Paris

No dia a seguir à 29ª mobilização dos coletes amarelos em França foi a vez daqueles que ficaram feridos com gravidade nas manifestações saírem à rua. Dizem que não são estatísticas e exigem o fim do uso das armas que os mutilaram. O secretário de Estado do Interior respondeu-lhes que não tinha remorsos.
Foto de Patrice Calatayu/Flickt

Foi mais um fim de semana de manifestações dos coletes amarelos em França. No sábado, o ato XXIX desta mobilização foi apenas notícia de rodapé em vários dos principais meios de comunicação social franceses. Referiam, seguindo os dados do Ministério do Interior francês, que foram uns dez mil manifestantes um pouco por todo o país e que em Paris terão sido cerca de mil e quinhentos (alguns ousavam contabilizar mais), sublinhavam que esta terá sido a mobilização mais fraca desde o início do movimento e relacionavam o seu anunciado declínio com a pouca expressão eleitoral que supostamente terá tido.

Apesar desta morte anunciada do movimento, os presentes no ato XXIX recusam-se a acreditar. Os manifestantes citados pela agência francesa insistiam que “o movimento vai continuar” e que “a longo termo” surgirão “organizações de democracia direta ao nível local”, como diz Luca, de 48 anos. O mesmo acredita Jean-Marc, de 64 anos, que justificou a continuidade necessária do movimento com o facto de “o sofrimento continuar lá”. Testemunhos de resistência que se multiplicam.

Para o pouco interesse mediático também terá contribuído o facto de, ao contrário de em muitos dos outros 28 sábados, não serem conhecidos relatos de confrontos de monta ou de feridos. Ao todo, os números oficiais apontam para 2448 manifestantes feridos desde a primeira manifestação dos coletes amarelos.

E neste domingo foram precisamente muitos desses mutilados dos atos passados que saíram às ruas. Em Paris, juntaram-se entre 300 a 400 manifestantes para a chamada “marcha dos mutilados”. Estavam presentes coletes amarelos que perderam membros, olhos e que viram as funções cerebrais afetadas devido a armas utilizadas pelas forças de segurança. Os organizadores contabilizavam 24 pessoas que perderam olhos, cinco com mãos mutiladas, um com perda de testículo e três que perderam o sentido do odor a que se juntam dezenas de outros casos de ferimentos permanentes. Por isso estavam nas ruas exigindo que as armas flashball/LBD, as balas de borracha e granadas lacrimogéneas, sejam proibidas nas manifestações.

E se os representantes da justiça prometem agir, os responsáveis políticos nem por isso se mostraram sensibilizados. O procurador de Paris, Rémy Heitz, tinha anunciado esta quinta-feira que oito dos polícias envolvidos em agressões “mais pesadas e permanentes” nas manifestações serão julgados. Na mesma ocasião esclareceu ainda que 2907 manifestantes foram presos, 1304 dos quais foram depois libertados sem qualquer acusação e 1357 casos foram enviados para os tribunais, apenas cerca de cinquenta envolvendo “violência contra a polícia, pilhagem de lojas de luxo ou danificar o Arco do Triunfo”.

Já o secretário de Estado do Interior, Laurent Nuñez, sacudiu as responsabilidades governamentais afirmando que não tinha quaisquer remorsos por ter mandado a polícia utilizar estas armas contra manifestantes desarmados e insistindo que a polícia deverá continuar a utilizá-las: “só porque uma mão foi decepada ou um olho foi vazado isso não significa que esta resposta seja ilegal,” afirmou. Tentou ainda minimizar o problema afirmando que “o número de casos a serem investigados [pela Procuradoria de Justiça] é fraco em relação ao envolvimento dos polícias” e que “uma investigação não quer dizer que venha a existir uma condenação”.

Ainda sem conhecer o teor desta intervenção, na “marcha dos mutilados”, um dos intervenientes, Antoine Boudinet, que perdeu a mão direita devido a uma granada GLI F4 a 8 de dezembro em Bordéus, dizia na concentração: “juntamo-nos e tomamos a palavra porque queremos mostrar que não somos estatísticas mas cidadãos cujas vidas foram destruídas. É positivo se polícias forem julgados mas devemos ainda subir na escala de comando. Por detrás dos tiros, há ordens e uma estratégia de manutenção da ordem que é da responsabilidade dos escalões mais altos do Estado.”

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