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Clive Sinclair: Até os seus fracassos foram invenções visionárias

Conhecido mundialmente como o inventor do ZX Spectrum, o recém-falecido pioneiro deixou outras invenções que não convenceram os consumidores na altura, mas estão de volta décadas depois. Artigo de Mike Reddy.
Sir Clive Sinclair
Imagem de Charis Tsevis/Flickr

Sir Clive Sinclair, inventor do primeiro computador pessoal do mercado de massas do Reino Unido, morreu aos 81 anos de idade. Pioneiro de minúsculos dispositivos portáteis, computadores verdadeiramente acessíveis e formas inovadoras de transporte elétrico, deixou-nos o que alguns chamam de historial de tentativa e erro nas suas invenções.

Mas a contribuição de Sir Clive para a tecnologia britânica, e por conseguinte para a economia britânica, é indiscutível. Um ícone da informática doméstica, criou dispositivos que foram apreciados por milhões, a maioria dos quais teria sido incapaz, nos anos 1980, quando os seus computadores foram lançados, de comprar os modelos caros no mercado.

Até os chamados fracassos de Sinclair revelam um inventor que procurou resolver problemas quotidianos em vez de acumular uma fortuna pessoal. E muitos foram prescientes. Antecipando o transporte pessoal eletrificado, Sinclair desenvolveu um carro elétrico, depois uma bicicleta elétrica - muito antes da moda de que ambos hoje desfrutam.

Estas invenções posteriores podem ter sido um fracasso comercial, mas foram um triunfo da vontade e da imaginação. Sinclair assegurou há muito tempo o seu legado como o "pai do computador doméstico", mas o tempo só agora está a vindicar as suas outras criações. Agora, pelo menos, temos a oportunidade de recuperar o atraso.

Os sucessos iniciais

A primeira contribuição de Sinclair para a eletrónica de consumo foi o Sinclair Executive, a primeira calculadora de bolso do mundo, que foi posta à venda em 1972. Embora não tenha comparação com as calculadoras atuais, a Executive confirmou Sinclair como um pioneiro da tecnologia.

Mais tarde, desviou a sua atenção para desenvolver uma série de computadores domésticos realmente acessíveis, começando com o lançamento do Spectrum ZX80, em 1980. Numa altura em que os computadores ainda eram considerados como uma tecnologia exclusiva e acessível apenas às empresas e aos ricos, Sinclair visou o mercado de massas, com um preço inferior a 115 euros - 505 euros no dinheiro atual.

Este período de inovação deu origem ao ZX Spectrum, o icónico computador doméstico em que muitas pessoas de uma certa idade dispararam sobre os seus primeiros alienígenas pixelizados. Este dispositivo, com a sua marca registada das riscas arco-íris, ainda é carinhosamente lembrado por milhões de primeiros utilizadores de computadores, cujos pais podem ter tido a esperança de os ver usar o novo aparelho para prosseguirem experiências mais educativas.

 ZX Spectrum. Foto pilot_micha/Flickr

Para Sinclair, o lugar de destaque do Spectrum na história como principal máquina de jogos deve tê-lo amargurado, dada a sua conhecida ambição de levar os computadores às massas como meio de os expor à tecnologia que ele sabia que viria a definir o futuro.

Ainda assim, colocado nas mãos do público em geral, o ZX Spectrum inspirou uma geração de designers de software, incluindo algumas das principais figuras das atuais indústrias de jogos e tecnologia do Reino Unido. A beleza destes computadores estava na sua capacidade de apoiar todo o tipo de criatividade - incluindo aqueles que queriam construir jogos.

Os chamados fracassos

Mais tarde na sua carreira, Sinclair foi visto por muitos como tendo entrado em rota descendente. Lançou uma oferta fracassada para fazer do ZX81 o computador oficial da BBC (e não o Spectrum, como muitos acham). Acabou por se tornar muito mais bem sucedido do que a escolha da BBC, o BBC Micro.

O contrato da BBC foi adjudicado à Acorn, fundada pelo antigo funcionário da Sinclair Research, Chris Curry. A rivalidade entre Sinclair e Curry foi maravilhosamente - se bem que apocrifamente - relatada no Micro Men da BBC 4. O programa foi descrito como "na sua maioria verdadeiro" pelos que estavam presentes na altura, embora o próprio Sinclair tenha declarado que "era uma fantochada. Simplesmente, não tinha qualquer relação com a verdade. Era terrível".

O estilo "mockumentary" fazia referências sarcásticas ao carro eléctrico C5 de Sinclair, lançado em 1985 com a promessa de fornecer uma "nova potência no transporte pessoal". O C5 registou vendas desanimadoras, com os condutores compreensivelmente nervosos no trânsito, sentados a poucos centímetros da estrada. O programa também faz referência ao Quantum Leap, a tentativa abortada de Sinclair de entrar na computação empresarial, incluindo uma paródia aos saltos exagerados de Sir Clive no anúncio televisivo do computador QL.

Sinclair QL Vintage computer Advert (VHS Capture)

Micro Men mostra como alguns dos meios de comunicação se voltaram contra Sinclair após os seus primeiros triunfos em informática, concentrando-se nas suas invenções subsequentes, que rapidamente consideraram como fracassos. Mas essa perspetiva não reconhece a influência oculta que o trabalho de Sinclair continuou a ter na última parte da sua carreira.

A empresa que ganhou o contacto com a BBC, Acorn Computers Ltd, foi em si mesma um ramo da visão e inovação de Sinclair. Continuou, sob o novo nome Advanced RISC Machines, ou ARM, a criar as unidades centrais de processamento (CPUs) que comandam a maioria dos dispositivos que utilizamos hoje em dia.

Sinclair também possuía uma presciência assustadora. Os veículos eléctricos estão preparados para tomar conta das nossas estradas na próxima década ou na seguinte, mas o C5 da Sinclair, fabricado em Merthyr Tydfil em meados da década de 1980, poderia ter começado o impulso para os carros eléctricos há décadas. Não foi o que aconteceu.

Sinclair não tardou a insistir, desta vez com a Zike, lançada pela primeira vez em 1992. Uma bicicleta eléctrica com uma velocidade máxima de 19km/h, a Zike também não conseguiu entusiasmar os consumidores. Contudo, esta invenção também parece ter antecipado tendências futuras no transporte pessoal, dada a proliferação de bicicletas eléctricas e scooters nas nossas ruas hoje em dia.

Clive Sinclair and the Zike on Tomorrow's World

O objetivo de Sinclair não era necessariamente ser o melhor, mas sim o mais acessível. Trata-se de um modelo de negócio que muitas empresas tecnológicas ainda imitam. Todas as suas invenções ostentam as características dos produtos concebidos para resolver problemas quotidianos. Muitas procuraram colocar a tecnologia de ponta nas mãos de pessoas comuns.

O verdadeiro legado de Sir Clive é o impacto duradouro dessas motivações fundamentais. Milhões de pessoas lembram-se carinhosamente dos primeiros computadores de Sinclair com mais do que nostalgia retro. Eram a primeira oportunidade para muitas pessoas experimentarem o poder dos computadores, proporcionado por um inventor que valorizava o acesso em detrimento da exclusividade.

Apesar das críticas e mesmo do escárnio nos meios de comunicação, Sinclair nunca desanimou, seguindo antes os seus próprios conselhos, muitas vezes citados e de forma cativante e simples: "Não desista. Continue a fazê-lo".


Mike Reddy é professor na Faculdade de Informática, Engenharia e Ciência, University of South Wales. Artigo publicado no portal The Conversation. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.

 

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