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"As classes médias são o principal excitante do discurso político dominante"

O Observatório das Desigualdades entrevistou João Teixeira Lopes sobre o novo livro “Classes Médias em Portugal: Quem são e como vivem”, em co-autoria com Francisco Louçã e Lígia Ferro.
João Teixeira Lopes.
João Teixeira Lopes. Foto de Paula Nunes.

Classes Médias em Portugal: Quem são e como vivem é o novo livro de autoria de João Teixeira LopesFrancisco Louçã e Lígia Ferro. Este volume finaliza um trilogia iniciada com Os Burgueses, ao qual se seguiu As Classes Populares. No âmbito desta recente publicação, o Observatório das Desigualdades entrevistou João Teixeira Lopes sobre um conjunto de temas e problemáticas abordadas ao longo livro.  


Este livro fecha uma trilogia sobre as classes sociais em Portugal que se iniciou com a publicação de Os Burgueses, seguindo-se As Classes Populares. Como enquadra este último livro em relação aos anteriores?

João Teixeira Lopes: Este livro surge por três razões. A primeira, mais chã, prende-se com uma pressão por parte da editora para completarmos a análise da estrutura de classes em Portugal. A segunda, mais substantiva, liga-se a uma certa vontade dos autores em abordarem esta constelação heterogénea que alimenta tanto a retórica do discurso político hegemónico (“as classes médias são o motor da sociedade, o símbolo do elevador social, o cimento que une, etc., etc.”) como a dos poderes económicos (segundo um empresário português recentemente falecido, a missão dos “empreendedores” seria de transformar os pobres em classe média…). Finalmente, apesar da dualização muito forte da estrutura de classes em Portugal, pareceu-nos que as classes médias mereciam uma análise que não se limitasse ao “nem, nem” (nem burguesia, nem classes populares) e que procurasse, nos diversos domínios de ação (política, cultura, estilos de vida…), conhecer as lógicas da sua formação.

À semelhança do que referem ao longo do livro, o termo “classe média” surge recorrentemente no espaço público incorporando diferentes e contraditórias conotações. Em seu entender, até que ponto este tem sido alvo de disputa e despique político-ideológico?

As classes médias são o principal excitante do discurso político dominante. Contudo, tal como o recente estudo da OCDE mostra, a auto-percepção dos portugueses afasta-os do universo simbólico das classes médias. Em clara divergência com a média dos países que fazem parte da organização, apenas um terço dos nossos cidadãos/ãs se posicionam como pertencendo a essa classe, o que revela uma forte incorporação dos constrangimentos, perdas e vulnerabilidades.

Como interpreta o recente debate científico internacional nas ciências sociais em torno das temáticas das desigualdades e das classes sociais?

É o debate. Vivemos em sociedades de classe (apesar de as classes médias terem surgido, a dada altura, como a superação, pela atitude gestionária, das divisões de classe – uma espécie de “pós-classe”) que estruturam não só as nossas vivências, como os campos desiguais de constrangimentos e possibilidades. As classes estão tão intrincadas nas questões do nosso tempo (políticas distributivas, interseccionalidade, serviços públicos e Estado Social) que, ainda que o discurso hegemónico pretenda obliterá-las, elas ressurgem a cada momento, qual retorno em força do recalcado. Não afirmo que tudo se esgote na lógica das classes, mas reitero a sua centralidade na compreensão das relações sociais e dos comportamentos humanos. São como que um revelador das tendências societais mais enraizadas e um guião dinâmico de análise.

Em Portugal as desigualdades de classe persistem e reproduzem-se em várias esferas e setores da sociedade. Segundo a vossa análise, qual o setor onde verifica um maior nível de reprodução social?

Digo-o com um amargo de boca (e sem esquecer o muito que se fez na aceleração dos ritmos e processos de escolaridade), mas salientaria a educação. Desde logo, Portugal é um dos países da OCDE onde os percursos escolares são mais marcados pelas origens sociais. E, também, porque há ainda muito a fazer para além do domínio estritamente escolar (educação artística, formação profissional, educação ao longo da vida). Repugna-me, particularmente, a apropriação das escolas públicas por lógicas de segregação e relegação internas, que o livro também refere.

Como avalia a evolução da análise científica sobre a estruturas de classe e as formas de recomposição social em Portugal?

Portugal resistiu muito bem às tendências globais que, a uma dada altura no final do século passado, viveram na ilusão (no interesse?) de uma superação do poder explicativo das desigualdades de classe. Realço o grupo do ISCTE-IUL, em torno de João Ferreira de Almeida, António Firmino da Costa e Fernando Luís Machado, mas também o setor do CES mobilizado por Elíseo Estanque e José Manuel Mendes e, no Porto, o grupo de investigação de José Madureira Pinto e José Virgílio Pereira. Esta resistência permitiu que não houvesse um hiato no interesse pelo estudo aprofundado das estruturas e recomposições sociais, favorecendo a acumulação de conhecimento e a diversificação de domínios de análise.

Gostaria de destacar nesta entrevista outra questão ou tópico abordados no livro?

As mobilizações políticas geradas no interior das classes médias. Falo, em particular, do ciberativismo e da ação coletiva gerada em espaços híbridos (onde não há separação entre on e off). Analisámo-las sem deslumbramento e com forte consciência da sua permeabilidade ao individualismo em rede e suas intermitências, que isola em silos informacionais e dificulta a aquisição de um capital consolidado de militância.


Entrevista publicada no site do Observatório das Desigualdades, 5/12/2019

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