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Cientistas pedem fim da queima de árvores para produção de energia

Na véspera da Conferência da ONU para a Biodiversidade, mais de 650 cientistas subscrevem o apelo e afirmam que atribuir a classificação de “neutralidade carbónica” à bioenergia foi um erro com consequências trágicas para as florestas.
Floresta amazónica. Foto colaroga/Flickr

A carta aberta dos cientistas é dirigida aos presidentes da China, Estados Unidos da América, Canadá, Reino Unido, União Europeia, Coreia do Sul e Japão. E começa por expressar a sua preocupação sobre a “ameaça crescente à biodiversidade que ameaça comprometer os objetivos” da conferência que tem início esta quarta-feira em Montreal, no Canadá. Trata-se do “uso em larga escala da bioenegia das florestas para produzir eletricidade e calor”, que estes cientistas querem ver substituído por energias renováveis como a eólica e solar.

Em defesa das florestas enquanto parte dos locais com mais biodiversidade do planeta, os subscritores lembram que até ao fim do século estão em risco de extinção cerca de um milhão de espécies por causa dos ataques aos seus habitats. E criticam a classificação de neutralidade carbónica ao uso da biomassa florestal, que levou muitos países a intensificarem o seu uso numa altura em que o planeta precisa mais do que nunca das suas florestas.

“Chamar a isto ‘energia verde’ é enganador e arrisca-se a acelerar a crise da biodiversidade global”, diz um dos primeiros subscritores, o professor Alexandre Antonelli, diretor de ciência do Jardim Botânico Real de Kew, no Reino Unido, citado pelo Guardian.

“Muitos dos pellets de madeira queimados em centrais para bioenergia vêm de árvores inteiras - não de sobras e resíduos florestais como alega a indústria”, acusam os cientistas, dando o exemplo da central britânica Drax, onde metade da biomassa queimada vem de árvores inteiras. Pior ainda, muitas destas árvores vêm de florestas antigas e com grande biodiversidade, incluindo de sítios protegidos nos EUA, Canadá, países bálticos, ou florestas integradas na rede Natura 2000 na União Europeia. E nalguns casos, como no Brasil, as florestas arrasadas para este fim são substituídas por monocultura florestal, levando à extinção de espécies e outros impactos ambientais no território.

Os cientistas alertam que estes impactos tendem a aumentar no futuro, à medida que os países recorrem cada vez mais à bioenergia para atingirem as metas das emissões “net zero”. Assim, “o objetivo de parar e inverter a perda global da natureza pode fracassar devido à pressão crescente desta indústria sobre as florestas”, apontam.

“O melhor para o clima e a biodiversidade é deixar as florestas em pé - e a energia da biomassa faz o contrário”, conclui esta carta aberta.

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