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China: triunfo do setor financeiro

O FMI decidiu incorporar a moeda chinesa no cabaz de moedas que aquela organização internacional usa como referência. Esta decisão do FMI coincide com um verdadeiro vendaval de más notícias sobre o desempenho da economia chinesa. Por Alejandro Nadal
Christine Lagarde e XI Jinping, Foto de International Monetary Fund/flickr

Enquanto o mundo estremecia com a notícia dos atentados em Paris, na sede do Fundo Monetário Internacional tomava-se uma decisão importante sobre o sistema monetário internacional. A moeda chinesa, o yuan, era incorporada no grupo de divisas usadas como referência para determinar o valor dos direitos especiais de saque (DES).

Os DES foram criados em 1969 para proporcionar maior flexibilidade em caso de emergência da balança de pagamentos. Hoje os DES têm pouca importância na estrutura e dinâmica do sistema internacional de pagamentos, mas fazer parte do cabaz de moedas que se utiliza para fixar o seu valor tem implicações significativas para essas divisas. Esse cabaz de moedas inclui o dólar, o euro, a libra esterlina, o iene japonês e agora o yuan.

O FMI justificou a sua decisão assinalando que a moeda chinesa é de livre disposição, querendo dizer com isto que se trata de uma moeda que se utiliza numa proporção significativa de transações internacionais.

Desde há muito que Pequim tem procurado este estatuto especial para o yuan. Pertencer ao seleto grupo de moedas escolhidas pelo FMI estimula o uso da moeda chinesa como meio de pagamento internacional e que mais bancos centrais recorram a ela no momento de constituir as suas reservas internacionais. Tudo isto, por sua vez, constitui um poderoso incentivo para que grandes operadores e administradores do setor financeiro (fundos de pensões e de cobertura, fundos soberanos, por exemplo) transfiram parte dos seus ativos para títulos denominados em yuan.

A decisão do FMI surpreende por duas razões. Por um lado, até há pouco tempo um setor importante nos Estados Unidos acusou as autoridades monetárias da China de manter o yuan sistematicamente subavaliado para fortalecer a competitividade dos produtos chineses nos mercados internacionais.

A batalha de vários comités do congresso norte-americano para que o executivo imponha sanções sobre a China é uma velha história. No último episódio, vários candidatos republicanos à presidência declararam que se ganhassem as eleições designariam a China como um país “manipulador da taxa de câmbio” e aplicariam sanções, desde o primeiro dia da sua administração. A verdade é que nos últimos anos o yuan tem passado por etapas de subavaliação, seguidos por fases de uma apreciação importante.

Por outro lado, o uso da moeda chinesa em transações internacionais e como reserva é ainda muito limitado. Por exemplo, há apenas quatro meses um relatório do FMI determinou que o yuan ocupava o sétimo lugar no ranking de moedas usadas como reserva internacional. Superavam-na as quatro divisas usadas no regime dos DES e, também, o dólar canadiano e o australiano. Além disso, o yuan ainda não figura entre as cinco divisas mais utilizadas no mercado mundial de divisas. Algo semelhante acontece no caso de títulos de dívida denominados na divisa chinesa.

Finalmente, a decisão do FMI coincide com um verdadeiro vendaval de más notícias sobre o desempenho da economia chinesa. A queda na taxa de crescimento é o sintoma mais conhecido, mas há outros indicadores como o colapso das importações chinesas que já atinge magnitude semelhante à de 2009. Talvez o mais grave é que a síndrome da deflação parece ter-se consolidado na China: o índice de preços ao produtor caiu 5,9 por cento em outubro, o quadragésimo mês em que o dito indicador se mantém em queda.

Além disso, o crédito mal-parado no sistema bancário chinês supera hoje 20 por cento do crédito total. Pior ainda, a expansão do crédito na China continua a superar em quase 200 por cento o crescimento do PIB. Há fortes indícios de que os empréstimos correntes na China superam em 40 por cento as necessidades de crédito dessa economia. E agora o pior de tudo: as bolsas de valores não estão ligadas à economia real. Em muitos casos os empréstimos de capital que os bancos concederam às empresas foram investidos nas bolsas. E quando as bolsas têm mau desempenho (como no verão passado) os sintomas de uma crise generalizada sentem-se por todo o lado.

A decisão do FMI pode estar mais relacionada com a intenção de travar o aprofundamento da crise na China. Em especial, espera-se que modere a saída de divisas que já afeta a China e, se for possível, inverta a fuga de capitais. Muitos bancos centrais procurarão manter parte das suas reservas em yuan e não poucos operadores de fundos de pensões transferirão recursos para títulos denominados na divisa chinesa.

Em troca da medida do FMI espera-se que o espaço económico chinês se abra por completo aos caprichos do sistema financeiro. À data subsistem na China controlos sobre os movimentos de capitais e a decisão do Fundo destina-se a acelerar o desmantelamento deste tipo de barreiras no gigante asiático. O mais delicado será o fortalecimento da economia de casino que acarreta o triunfo do setor financeiro na China.

Artigo de Alejandro Nadal, publicado no jornal mexicano La Jornada, em 9 de dezembro de 2015. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Economista, professor em El Colegio do México.
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