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A chegada do futuro à Europa corta-nos a respiração!

“Take my breath away!” estreou em Viseu, no teatro Viriato, no dia 25 de fevereiro. Para quem não pôde assistir, deixo aqui um pequeno aperitivo, para não perderem outra oportunidade que espero que surja. A peça merece circular por todo o país! Artigo de Carlos Vieira.
“Take my breath away!”, cartaz da estreia no Teatro Viriato em Viseu
“Take my breath away!”, cartaz da estreia no Teatro Viriato em Viseu

Da luminosa cabeça de Cristóvão Cunha, mais conhecido por ser um brilhante desenhador de luz, mas que também já tem encenado, saiu o conceito desta peça produzida pela Ritual de Domingo, de que foi fundador, tal como Sónia Barbosa, responsável pela impecável direcção artística e encenação. A provocatória dramaturgia de “Take my breath away” fica a dever-se a Keli Freitas, conhecida actriz e escritora brasileira a residir em Lisboa. Este trio já seria garantia de um bom cozinhado, mas no cimo deste criativo bolo ainda colocaram duas grandes cerejas: Célia Fechas e Tiago Sarmento, intérpretes excepcionais. Não esquecemos os imprescindíveis ajudantes desta cozinha: Tomás Pereira (vídeo !!!), António Barbosa (assistente de produção e encenação), Nuno Rodrigues (design e comunicação), António Alvarenga (desenvolvimento do conceito). No palco, os técnicos são personificados em António, a personagem que não fala mas está sempre presente, desmultiplicando-se em múltiplas tarefas, como operador de câmera, maquilhador, cabeleireiro, faxineiro e pião das nicas do stress. Estreou em Viseu, no teatro Viriato, no dia 24 de Fevereiro, com sessão para o Ensino Secundário, Profissional e Superior, e no dia 25 para o público em geral.

Para quem não pôde assistir, deixo aqui um pequeno aperitivo, para não perderem outra oportunidade que espero que surja. A peça merece circular por todo o país!

Dois pivôs do Eurojornal, da TV Central Eurocêntrica, Maria da PAZ e Jorge GUERRA, anunciam o aumento dos preços dos bens alimentares, a crise da Educação, a crise da Sáude, a crise da Habitação e a chegada do futuro à Europa já amanhã de manhã. GUERRA faz a reportagem, em Bruxelas, sobre os preparativos do Parlamento Europeu para a chegada do futuro. PAZ pergunta-lhe se haverá futuro que chegue para todos e GUERRA responde que aguarda que Von der Leyen diga se haverá ou não “escassez futurista”. Convidado a comentar, António Alvarenga, “especialista em futuros possíveis”, surge em vídeo, fingindo um directo via skype, e diz coisas surpreendentes como: “O futuro sempre cá esteve, nós é que não víamos os seus sinais, as transformações que parece que irão abalroar-nos. Já está tudo feito, mas nós ainda temos uma pequena margem de manobra”. Esta réstea de optimismo é afectada pelas intermitências na transmissão e por vezes a imagem fica congelada.

Após um intervalo com publicidade não solicitada, GUERRA é apanhado a vociferar impropérios contra os chineses por causa do guarda-chuva que se desmanchou durante um directo e mais irritado fica ao cogitar sobre que notícias restarão do presente quando o futuro chegar. PAZ anuncia, perante as câmeras, a abertura da época de saldos. GUERRA, em reportagem de rua, aparece, em vídeo, a entrevistar pessoas que vão revelando que conseguiram comprar, a preços de saldo, coisas raras no mercado, como dignidade (“para guardar para os meus filhos”), emprego, justiça social, educação pública de qualidade, cultura.

A peça tem vários quadros hilariantes, mas um dos mais saborosos é o programa de “extrema-culinária” de Donatella Liberano que surge em vídeo (com Georgia Meloni em fundo) a ensinar a receita da “pizza fascista”. Eu resumo: sova-se a massa fogosamente, enquanto se vocifera contra o imigrante, o homossexual, o transexual, o aborto, o casamento gay, os direitos civis das minorias, etc, continua sempre a amassar-se “conforme a necessidade da pessoa” e, por fim, tapa-se com um paninho e deixa-se repousar durante 100 anos. Passado um século, sem aprender nada, retira-se o pano e a massa fascista, mais volumosa, está pronta para ir ao forno com os ingredientes obrigatoriamente de origem italiana (os estrangeiros não são bem-vindos!). A nova pizza fascista, a escorrer molho de tomate (cor de sangue!), está pronta a servir, mais uma vez.

Lá mais para o fim da peça, PAZ e GUERRA conversam sobre o Titanic que se ia afundando enquanto a orquestra continuava a tocar até à consumação da tragédia. No Titanic que custou uma colossal fortuna não havia botes salva-vidas para todos. PAZ conta que teve um “déjà vu”: “Estou a eurover na Europa o que eu já eurovi na Europa”. E eu lembro-me de “O Eterno Retorno do Fascismo”, do filósofo Rob Riemen.

A Previsão do Tempo (Histórico) na Europa leva PAZ e GUERRA a filosofarem sobre a relatividade do tempo, as alterações climáticas e a precariedade das nossas vidas. PAZ e GUERRA vestem coletes salva-vidas. PAZ proclama que a única salvação está na Educação. Para que Auschwitz nunca mais se repita. GUERRA empunha um violino e começa a dar-nos música. Black out! O público retoma o fôlego e irrompem prolongados e merecidos aplausos.

A caminho de casa, reflito: que Europa estamos a construir? Ou a destruir?... E recordo-me do livro de Paul Hazzard, “Crise da Consciência Europeia”, onde o historiador e ensaísta francês, em 1934, se interrogava repetidamente: “Que é a Europa? Um encarniçamento de vizinhos que se batem (…) os exércitos movem-se em campanha a cada Primavera. (...)Uma confusão de barreiras (…) todos os entraves possíveis opostos às comunicações fraternas.(...) Estas fronteiras apertadas são incertas, porque mudam de acordo com as conquistas, os tratados, ou até simples tomadas de possessão”. Lembro-me da Ucrânia, da Sérvia, da Bósnia e do Kosovo. Ouço Borrel, que os europeus não elegeram para os representar em Negócios Estrangeiros ou Segurança Europeia, a dizer que “a Europa é um jardim e a maioria do resto do mundo é uma selva, e a selva pode invadir o jardim”. Filho de uma grande...xenofobia! Abascal, Meloni, Le Pen, desVentura bem representados! Recolho-me em Eduardo Lourenço que, em “Nós e a Europa”, critica a arrogânia de um filósofo francês que atribuiu ao “espírito europeu” a invenção e o monopólio da prática científica, “numa manifestação de eurocentrismo hoje impensável”, porque “não tinha consciência de subalternizar ou de excluir, por assim dizer, da racionalidade, o resto dos homens...”

Ainda hoje, ao escrever estas linhas, ouço na rádio que Sunak anunciou uma lei que permite deter e deportar imigrantes e refugiados que arriscam a vida para atravessar o Canal da Mancha e pedem asilo ao Reino Unido, ignorando os protestos das organizações de Direitos Humanos e humanitárias, do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e do Alto Comissário da ONU para os Refugiados, uma vez que segundo a Convenção das Nações Unidas “não existem requerentes de asilo ilegais”. Déjà Vu! Salazar recambia para o Luxemburgo ocupado pelos nazis um comboio com judeus que acabariam nos campos de concentração. O futuro já chegou à Europa em forma de pizza Meloni e eu sinto um nó na garganta! Apetece-me gritar Torga: “Ar livre que não respiro!/ ou são pela asfixia?/ Miséria de cobardia./ Que não arromba a janela/ da sala onde a fantasia/ Estiola e fica amarela!”

Take my breath away!

Artigo de Carlos Vieira

Sobre o/a autor(a)

Ativista associativo na defesa dos Direitos Humanos. Militante do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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