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Centeno e Lagarde alinhados: restrição salarial é para manter no próximo ano

A julgar pelas declarações recentes dos líderes do Banco de Portugal e Banco Central Europeu, o foco deve ser um: manter a restrição dos salários neste ano e no próximo.
Christine Lagarde e Mário Centeno na reunião do Eurogrupo em fevereiro de 2020. Foto Uniao Europeia.

O Banco Central Europeu (BCE) e o Banco de Portugal parecem estar alinhados no que diz respeito às prioridades da política económica nos países da Zona Euro. A julgar pelas declarações recentes dos líderes de ambas as instituições, o foco deve ser um: manter a restrição dos salários neste ano e no próximo.

Numa audição realizada no Parlamento Europeu, a presidente do BCE, Christine Lagarde, defendeu que os salários negociados pelos patrões e os sindicatos no próximo ano não devem acompanhar a inflação deste ano, uma vez que, na sua opinião, isso teria um efeito subsequente no nível geral de preços, que voltaria a aumentar.

“As expetativas de inflação, como sabem, têm uma importância crítica de modo a evitar os chamados efeitos de segunda ordem, onde temos preços a subir, salários negociados mais altos e preços que continuam a subir na sequência desses níveis salariais superiores”, argumentou a líder do BCE.

Recorde-se que o BCE antecipa que a inflação na Zona Euro chegue aos 6,8% neste ano, um valor bastante mais elevado do que o que se tem registado ao longo da última década. Lagarde considera que as remunerações não podem ser aumentadas em linha com esta evolução dos preços, o que, na prática, significa que os trabalhadores devem aceitar cortes significativos nos seus salários reais e perder poder de compra.

Mário Centeno, presidente do Banco de Portugal, alinha pelo mesmo diapasão: é preciso garantir que as negociações salariais no próximo ano “não geram pressões inflacionistas com as subidas de salários", pelo que será necessário que os eventuais aumentos “sejam no máximo em termos nominais idênticas ao nosso objetivo de inflação no médio prazo [2%], idealmente acrescidos de ganhos de produtividade”.

Cortes nos salários reais não resolvem o problema da inflação

Apesar dos avisos de Centeno e Lagarde, a verdade é que há bons motivos para crer que a compressão dos salários não vá resolver o problema da inflação. No relatório “Inflação: uma crítica de esquerda aos argumentos e medidas do governo”, divulgado no Esquerda.Net, é explicado que a realidade desmente esta tese.

Por um lado, não são os salários que têm contribuído para a inflação, mas sim o impacto da guerra e a expansão dos lucros das empresas (sobretudo as maiores). Por outro lado, a experiência histórica não nos permite afirmar que existe uma relação direta entre aumentos salariais e aumentos do nível geral de preços, como concluem alguns estudos empíricos.

Como facilmente se percebe, a compressão salarial em Portugal não ajudará a baixar o preço da energia e de outras matérias-primas nos mercados internacionais. O resultado desta política será uma quebra do consumo interno, com impactos negativos na atividade económica e no emprego, como aconteceu no período da Troika.

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