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Cazaquistão: "situação estabilizada" numa "luta de elites"

O presidente Tokayev tinha autorizado as forças de segurança a atirar para matar sem aviso e pedido ajuda aos aliados internacionais. Há dezenas de mortes, centenas de feridos e milhares de presos. A possibilidade de uma luta na elite política está a ser avançada para explicar como manifestações pacíficas foram instrumentalizadas.
Confrontos em Almati, no Cazaquistão. Foto de ALEXANDER KUZNETSOV/EPA/Lusa.
Confrontos em Almati, no Cazaquistão. Foto de ALEXANDER KUZNETSOV/EPA/Lusa.

A situação está “estabilizada” e a ordem foi restaurada no Cazaquistão, garante o regime. As forças de segurança dizem estar na fase de realizar “operações de limpeza”. Mas com milhares de prisões, algumas no próprio círculo interno do poder, como a do chefe dos serviços secretos e ex-primeiro-ministro Karim Masimov, acusado de traição, e com o afastamento político daquele que era visto como o homem forte do país, o ex-presidente Nursultan Nazarbayev, a incerteza política permanece. Assim como as dúvidas sobre as origens dos tumultos registados durante as manifestações contra a subida dos combustíveis no início deste ano.

O que começou como uma série de protestos pacíficos terá sido depois instrumentalizado por grupos armados. Já no quadro de uma revolta com edifícios incendiados, o aeroporto ocupado e polícias mortos, o presidente Tokayev pediu ajuda aos seus aliados regionais da Organização do Tratado de Segurança Coletiva. O pedido foi aceite em horas e a Rússia enviou imediatamente tropas. Atualmente os militares da OTSC estão a controlar as “instalações estratégicas” do país. No meio da tensão o chefe de Estado anunciou que tinha dado ordens para “disparar para matar sem qualquer aviso”. Os dados oficiais, não confirmados independentemente, apontam para mais de 160 e cerca de 5.800 presos.

Depois de um apagão, a ligação à Internet voltou mas o acesso está restringido à página do presidente e a alguns sites noticiosos do país adensando as questões sobre o que se está a passar.

Ao Guardian, uma fonte dos círculos empresariais do país avança com a possibilidade de se tratar de uma guerra interna no seio da elite política dado que as tensões entre o lado favorável a Nazarbayev e o favorável a Tokayev se vinham acumulando no último ano. Este não poupou nas palavras atribuindo os motins a “bandidos bem preparados, locais e estrangeiros” e prometendo “destruí-los”.

Também o New York Times encontra “sinais de elites a lutar entre si”. O jornal norte-americano falou com o ativista dos direitos humanos Galym Ageleulov que participou nas manifestações em Almati e que explicou que, por volta da hora do almoço, a polícia que enquadrava o protesto desapareceu e surgiu um grupo de bandidos “claramente organizado” do qual fazia parte Arman Dzhumageldiev, conhecido como um dos chefes criminosos mais poderosos e que acabou por ser preso. O mesmo jornal cita Danil Kislov, um perito russo na região da Ásia Central que acredita que isto foi “artificialmente organizado por pessoas que tinham poder nas suas mãos e que na base do que se passou está uma “luta desesperada pelo poder”.

Apesar disto, não se conhece o que se está a passar nos meandros destes grupos. Se é verdade que Tokayev demitiu o seu predecessor do cargo de chefe do Conselho de Segurança que este ocupava, junto com o sobrinho dele, Samat Abish, que era vice-chefe deste organismo e vários outros elementos desta fação, também é verdade que nunca foi explicado se a saída daquele que comandou os destinos do país durante cerca de 30 anos foi feita com o seu consentimento nem nunca Nazarbayev foi criticado publicamente pelo grupo no poder nestes dias. Apesar disso, não foi visto ainda em público.

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