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Capitalismo VS Clima

Este texto resulta da compilação das minhas notas de leitura do livro de Naomi Klein, This Changes Everything – Capitalism vs Cimate (2014). Esta obra assume especial importância para ativistas e cidadãos que ambicionam a preservação de recursos naturais. Por Ricardo Vicente.
A obra This Changes Everything – Capitalism vs Cimate de Naomi Klein assume especial importância para ativistas e cidadãos que ambicionam a preservação de recursos naturais
A obra This Changes Everything – Capitalism vs Cimate de Naomi Klein assume especial importância para ativistas e cidadãos que ambicionam a preservação de recursos naturais

Num momento em que emerge em Portugal um movimento social de contestação à prospeção e extração de petróleo em todo o país e após a cimeira do clima em Paris, onde representantes de muitos Estados acordaram desenvolver esforços para limitar o aquecimento global a 2ºC, esta obra assume especial importância para todos nós, ativistas e cidadãos que ambicionam a preservação de recursos naturais.

 

Da nossa amnésia inconveniente

Um avião que tenta levantar voo e não consegue porque tem as rodas soterradas no asfalto derretido, consequência das emissões de gases com efeito de estufa e do aquecimento global, passageiros impacientes contam os segundos a passar na angústia da espera. O problema percecionado é o tempo de espera. Vem um veículo pesado que reboca o avião, emite mais CO2 e é aplaudido pelos passageiros. Assim começa o livro de Naomi Klein, afirmando que somos todos passageiros deste avião, pois confrontados com as alterações climáticas todos mantemos o nosso estilo de vida, sofremos uma espécie de “amnésia ecológica”.

Segundo a autora, a marcha da mudança já iniciou e será imparável, o nosso mundo, tal como o conhecemos, não será o mesmo. Se continuarmos o rumo atual, destruindo recursos naturais e emitindo gases com efeito de estufa, avançamos para o “futuro sombrio”, em que a mudança será imposta e determinada pelo sistema climático. Se pretendermos um caminho diferente, teremos de assumir o leme dessa mudança, e isso implicará também mudar o mundo radicalmente, no sentido de estancar o aquecimento global e compatibilizar as atividades humanas com o ambiente. Assim surge o título do livro: “This Changes Everything”.

A batalha ideológica

Resolver o problema das alterações climáticas obriga a construção de intervenções planeadas como tratamento de crise por parte dos Governos, resolução que a história já conheceu em diversas circunstâncias e que é muitas vezes impulsionada pelos movimentos sociais (ex: racismo, machismo, escravatura, etc.). Pela via institucional Klein dá o exemplo do Plano Marshall, que possibilitou em boa parte a reconstrução da Europa após a segunda guerra mundial e que resultou de acordos intergovernamentais. Sublinha ainda que em torno do sistema financeiro já foram aplicadas as maiores engenharias de transformação sócio-económica à escala global, o que demonstra que é possível fazê-lo também a favor do clima.

A redução das emissões de gases com efeito de estufa à escala global e com intensidade adequada ao combate às alterações climáticas exigem decisões que entram em conflito com o “capitalismo desregulado”, que atualmente é ideologia dominante

A redução das emissões de gases com efeito de estufa à escala global e com intensidade adequada ao combate às alterações climáticas exigem decisões que entram em conflito com o “capitalismo desregulado”, que atualmente é ideologia dominante. O sistema económico está em guerra com o sistema planetário, de um lado está a necessidade de redução do consumo de recursos, do outro a ambição de expansão económica sem limites. Justifica-se desta forma o subtítulo: “Capitalism VS The Climate”.

Entre 2007 e 2011 a proporção da população americana que acreditava que a queima de combustíveis fósseis provoca o aquecimento global do planeta baixou de 71% para 44%, por ação das campanhas negacionistas que defendem os interesses de mercado dos seus promotores em detrimento do ambiente. No final da década de 80, após dez anos de bombardeamento ideológico por Margaret Tatcher, Reino Unido, e por Ronald Reagan, EUA, o fundamentalismo de mercado hasteou bandeira de vitória e conduziu a história até aos dias de hoje. A ideia de que não há alternativa à “magia do mercado” terá dificuldade em manter-se perante as evidências das alterações climáticas, pois o seu reconhecimento exige planeamento e gestão em função dos objetivos e dos valores das sociedades.

Após um enorme desenvolvimento do sistema capitalista e de um processo de globalização e tendencial perda de domínio dos Estados sobre os recursos naturais, com brutal liberalização de todos os mercados e privatização das esferas públicas em muitos países, temos de nos questionar sobre a capacidade de intervenção dos governos e das sociedades como um todo para realização de investimentos públicos de carbono zero. Dado que há conhecimento disponível para realizar grandes e urgentes transformações no imediato, Klein assume que a sua principal preocupação não é a mecânica dessas transformações, mas sim as “barreiras de poder e ideológicas” que estão globalmente implementadas e que impedem a sua aplicação. Deste problema tem resultado ainda o acentuar das assimetrias sociais, com crescimento de desigualdades nacionais e internacionais, o que levanta a questão da equidade. A autora defende que os países mais pobres sejam auxiliados pelos mais ricos, que mais responsabilidade histórica têm no processo de aquecimento global – contraíram uma elevada dívida climática – e que têm capacidade para transferir recursos e tecnologia para impulsionar as mudanças necessárias, “combatendo a pobreza através de instrumentos de baixo teor em carbono”.

Os fundamentalistas do mercado livre continuam a ter eco na sociedade porque as suas ideias continuam a dar lucros a multimilionários apesar do comprovado conflito com a realidade

Os fundamentalistas do mercado livre continuam a ter eco na sociedade porque as suas ideias continuam a dar lucros a multimilionários apesar do comprovado conflito com a realidade. Apesar de, até agora, escudados pelas retóricas negacionistas das alterações climáticas e na apatia geral da sociedade, novas linhas de argumentação têm vindo a emergir entre quem pretende manter o atual modelo de desenvolvimento, com elevadas emissões de gases com efeito de estufa. Desde a ideia de que as alterações climáticas geram novas oportunidades de negócio (novas rotas marítimas, tecnologias e serviços de adaptação, etc.), ao reforço geopolítico da posição dos países mais ricos ou às ideias mais xenófobas que, por exemplo, afirmam que as alterações climáticas afetam essencialmente os países mais “conflituosos”, tratando-se por isso de uma espécie de castigo natural com utilidade pública.

Com o estalar da crise financeira, em 2008, os governantes dos EUA tiveram de tomar decisões imediatas. O atual sistema económico e financeiro expôs algumas das suas fragilidades e o momento poderia ter sido aproveitado para o transformar e impulsionar a ação climática, mas não foi essa a escolha. “O que impediu Obama de aproveitar o seu momento histórico para estabilizar a economia e o clima ao mesmo tempo não foi a falta de recursos ou a falta de poder. Tinha bastante dos dois.” O que o impediu foi estar preso a uma visão ideológica neoliberal.

Isto anda tudo ligado, não estamos sozinhos

A atual cultura empresarial, com base no individualismo e na hierarquia, no lucro e no poder, “lança-nos contra o mundo natural”. O movimento ideológico negacionista está a perder terreno no campo das ciências das alterações climáticas, mas ainda é vitorioso no campo dos valores que regem as nossas sociedades. Esta cultura hegemónica deve ser razão para a edificação de movimentos sociais, capazes de defender valores “fora do âmbito do capitalismo”, apresentar alternativas e estabelecer relações entre lutas aparentemente díspares (dos direitos laborais aos serviços públicos).

A crise ambiental não supera nem nos distrai das causas socioeconómicas e políticas mais prementes: “sobrecarrega cada uma delas com urgência existencial”. A luta por justiça climática “é a luta por por uma nova economia, um novo sistema de energia, uma nova democracia, uma nova relação com o planeta e com os outros, por terra, água e soberania alimentar, pelos direitos indígenas, pelos direitos humanos e pela dignidade para todas as pessoas” (Miya Yoshitani, citada por Klein).

É necessário assumir que “as soluções reais para a crise climática são também a nossa melhor esperança de construir um sistema económico muito mais estável e equitativo, que fortaleça e transforme a esfera pública, promova o trabalho em abundância e digno e controle radicalmente a ganância empresarial”.

A negligência no cerne do sistema económico extrativista

Abundam os episódios onde o sistema de segurança dos equipamentos de extração falharam e causaram autênticas catástrofes ambientais, da explosão de uma plataforma offshore da BP, no Golfo do México, em 2010, ao rebentamento do oleoduto da Enbridge, no Michigan, 10 dias depois de se estancar a fuga do primeiro. O maior derramamento offshore da história mundial e o maior derramamento onshore da história dos EUA aconteceram com 10 dias de intervalo, ambos vieram a ser comprovados como consequência de cortes nas despesas de manutenção e segurança decididos por administrações de empresas com lucros anuais milionários.

This Changes Everything – Capitalism vs Cimate

This Changes Everything – Capitalism vs Cimate, livro de Naomi Klein

Atualmente, a indústria extrativista move-se numa atividade de maior risco do que no passado e, ao contrário do que seria de esperar, o aumento de conhecimento e tecnologia disponível não gerou melhorias, pois foi esse acréscimo tecnológico que possibilitou a exploração de areias betuminosas e a extração de gás de xisto, via fracking, atividades com danos ecológicos maiores do que a tradicional extração de petróleo. A história ensina-nos que as avaliações de risco entregues aos mercados priorizam sempre os lucros empresariais e, por isso, à irresponsabilidade organizada e ao experimentalismo deve-se responder com o princípio da precaução, exigindo certezas científicas absolutas previamente às decisões.

A ilha de Naurau, com 21 km2 e 10 mil habitantes foi considerada um dos lugares mais prósperos do mundo. A prosperidade foi suportada durante algumas décadas pela extração de fósforo, a partir de um sistema frágil, para exportação. A ilha e a sua prosperidade foram assunto de revista durante as décadas de 70 e 80. Atualmente, depois de um século de extração em que o interior da ilha se transformou num deserto à medida em que os seus recursos desapareciam, a ilha está a desaparecer também na sua periferia devido à extração de petróleo que, por via das emissões globais de CO2, provoca o aquecimento global e a subida das águas do mar. Enquanto a ilha degradava e percorria os trilhos da insustentabilidade, com a extração de fosfatos, os habitantes da ilha que viviam a prosperidade eram todos passageiros do voo que Klein relata no início do livro.

A visão de curto prazo e economicista que levou ao colapso de Naurau pela excessiva extração de fosfatos pode ser hoje observada a nível planetário com a extração e consumo de combustíveis fósseis. Os resultados parecem previsíveis, mas não deixamos de manifestar surpresa quando somos confrontados com as consequências. “Extraímos e não repomos e perguntamo-nos porque é que os peixes desaparecem e o solo exige cada vez mais aditivos”. Ocupamos países, traficamos armas, expulsamos pessoas e depois perguntamo-nos “porque nos odeiam”. Baixamos salários, degradamos o estado social e depois questionamo-nos sobre a contração da economia. Damos espaço à especulação financeira e depois questionamo-nos porque terá colapsado um sistema alicerçado em crédito malparado. Ao dar estes exemplos, Klein parece sugerir que vivemos sobre um estado de ignorância organizada com o qual temos alguma cumplicidade, de forma mais ou menos consciente, mas acima de tudo, o que se entende e é expressamente afirmado pela autora é que a negligência está no cerne do sistema económico extrativista que hoje é base de governos de todo o espectro ideológico.

Klein define extrativismo como uma relação não recíproca baseada no domínio, que “única e exclusivamente tira”. É o oposto à gestão ambiental, “é a mentalidade de quem remove o cume da montanha”, é a “redução da vida em objetos” e a “redução de seres humanos em mão de obra destinada a ser brutalmente explorada”. A crise climática coloca em causa o extrativismo e desafia o capitalismo mas também “as narrativas civilizacionais subjacentes sobre o crescimento interminável e o progresso nas quais estamos todos, de uma maneira ou de outra, aprisionados”.

Para vencer o extrativismo é necessário acabar com a crença generalizada de que por pior que as coisas fiquem, seremos salvos no último instante por um toque de magia, “seja pelo mercado seja por milionários filantrópicos ou por magos tecnológicos”.

Não há mão invisível que nos salve

Dando o exemplo de uma situação em que os interesses económicos venceram as expectativas ambientalistas, relata-se a história da organização ambientalista Nature Conservanci, em 1995, na baía de Galveston, no Texas, que após a dádiva de uma propriedade que representava a última reserva de galos-da-pradaria – ave em vias de extinção, altamente afetada pela indústria extrativa de petróleo – e que pertencia à empresa petrolífera Mobil (atualmente ExxonMobil), decidiu avançar com um plano falhado para preservação da espécie e, simultaneamente, iniciar extração de petróleo no interior da reserva, contra todas as expectativas dos seus apoiantes, revertendo milhões de euros para os cofres desta organização que habitualmente recebe fundos de várias petrolíferas. A autora afirma que parte substancial do movimento ambientalista fundiu-se com os interesses económicos. Muitas destas organizações verdes que angariam fundos para preservação ambiental reinvestem esses fundos no mercado energético fóssil.

De forma oposta às estratégias de intervenção no mercado que se tornaram dominantes desde os anos 80, Klein afirma que os grandes avanços na proteção ambiental iniciaram por via da intervenção direta, após o lançamento do livro Primavera Silenciosa (1962) e o derramamento de petróleo em Santa Bárbara (1969), com cientistas e advogados combativos que impulsionaram o movimento ambientalista dos anos 70 e possibilitaram que durante esta década os EUA promulgassem 23 leis ambientais federais. Esta foi a forma que permitiu ao mundo ver-se livre do DDT, retirar as partículas de chumbo da atmosfera, o estrôncio 90 do leite das vacas, entre outras vitórias que resultaram de proibições absolutas.

Na década de 90, quando os “contornos da batalha climática estavam a ser definidos”, com o delineamento das primeiras estratégias coletivas, foi exatamente o momento em que os grupos verdes se tornaram mais pró-empresariais e mais crentes nos mercados, tendo-se possibilitado assim uma enorme desregulamentação ambiental a nível global, com grande crescimento das emissões

Na década de 90, quando os “contornos da batalha climática estavam a ser definidos”, com o delineamento das primeiras estratégias coletivas, foi exatamente o momento em que os grupos verdes se tornaram mais pró-empresariais e mais crentes nos mercados, tendo-se possibilitado assim uma enorme desregulamentação ambiental a nível global, com grande crescimento das emissões. Não se definiu o aquecimento global como uma crise consequente dos consumos desmesurados, da indústria poluidora ou por um sistema de comercio liberalizado que permite a qualquer mercadoria viajar meio mundo para ser utilizada, mas como “um problema técnico limitado com um sem-número de soluções lucrativas no seio do sistema de mercado”.

O mercado e os seus entusiastas estão neste momento a produzir novas formas de extração de combustíveis alternativos ao petróleo e ao gás natural tradicionais, como o gás de xisto, através do “fracking”, que geram enormes problemas ambientais, em vez de investirem em energias renováveis. Klein cita diversos investigadores que afirmam que as fontes energéticas convencionais, com os atuais pontos de extração, são mais do que suficientes para assegurar a transição para energias limpas, logo esta expansão não tem justificação plausível. Contestando este comportamento, emerge um novo movimento social a nível internacional que exige o desinvestimento nas energias fósseis, afirmando que há demasiadas operações de extração em curso, com potencial para ultrapassar largamente os tetos máximos de aquecimento global estabelecidos em todos os acordos internacionais para o combate às alterações climáticas.

Richard Branson, fundador do grupo Virgin, depois de uma exposição de Al Gore, em 2006, descobriu o potencial destrutivo das alterações climáticas e avançou imediatamente com um plano: investir 3 mil milhões de dólares, durante uma década, para desenvolvimento dos biocombustíveis e atribuição de um prémio de 25 milhões de dólares ao primeiro investigador que descobrisse como sequestrar mil milhões de toneladas de CO2 por ano sem danos ambientais. Para Branson, a solução para a crise climática passava por descobrir alguma forma tecnológica que permitisse a manutenção dos modos de vida atuais e os seus lucros nas companhias de transportes. Branson não está sozinho, a Royal Society, por exemplo, entidade científica britânica muito reconhecida, defende que os governos devem preparar planos B tecnológicos, dado que não se conseguem avanços significativos ao nível da redução de emissões globais. Quem pensa neste plano B chega a hipóteses de combate à poluição com mais poluição: fertilizar os oceanos com ferro para aumentar o sequestro de carbono; cobrir desertos com lençóis brancos, injetar partículas na atmosfera ou aplicar espelhos espaciais para aumentar o albedo da terra e evitar o aquecimento.

Nem a mão invisível do mercado nem a autodeterminação de eventuais messias milionários é capaz de enfrentar as formas extrativistas que são atualmente ferramenta de acumulação de riqueza. Os detentores de riqueza e de poder não são convencíveis a abdicar das ferramentas que lhes permitem a ascensão e a manutenção da distinção social e económica, nem a abdicar a sua riqueza para salvar o mundo.

A mobilização social e a democracia contra o extrativismo

Sente-se um novo folgo dos movimentos ambientalistas de ação direta que se opõem, um pouco por todo o mundo, com bases locais, à exploração de novos recursos energéticos, das tradicionais formas de exploração de petróleo ao fracking. Estas zonas de conflito ganharam um nome desde 2012, Blockadia. A reação governamental e institucional ao conflito instalado tende a ser militarizada e a posicionar-se do lado do negócio extrativista, concedendo zonas de sacrifício ambiental e humanitário a favor da manutenção dos negócios energéticos poluentes. Locais onde os residentes habitualmente são gente marginalizada e sem poder político e sócio-económico.

As empresas extrativistas e seus mandantes distinguem-se de quem vive os locais onde pretendem implementar atividades extrativas, não só pelas diferenças de poder e pelos interesses pessoais e coletivos, mas também pela relação que têm com os territórios e a forma como valorizam os seus recursos. Os habitantes de Bella Bella, no Alasca, rejeitam a passagem de um oleoduto e o abastecimento de petroleiros nas suas águas, pois não querem arriscar florestas e recursos aquáticos que suportam as suas vidas e as suas identidades, têm uma expectativa futura e intergeracional ligada ao território, já a Embrige, empresa petrolífera, age apenas com interesse extrativista, com uma visão de curto prazo em busca do lucro imediato. A ação dos primeiros é regida por critérios multi-escala, enquanto os segundos se reduzem à escala de mercado. Este é motivo pelo qual a ameaça do extrativismo cria identidades coletivas com forte capacidade de resistência a um inimigo comum e difíceis de prever pelos seus estrategas. Quem confronta a expansão da indústria petrolífera luta pela democracia.

Muitos dos territórios com elevado valor de conservação são também zonas de elevado interesse para a indústria extrativista. As batalhas pela democracia que se travam entre os povos indígenas, que vivem alguns destes territórios, e as multinacionais petrolíferas, quando apoiadas pela ação direta (judicial e contestativa) aparentam ser um dos obstáculos mais fortes “que nos protegem a todos do caos climático”.

A mobilização social e a democracia contra o capitalismo

“As energias renováveis exigem que nos adaptemos aos ritmos dos sistemas naturais, por oposição a moldar esses sistemas a nosso bel-prazer através da força bruta da engenharia.” “(…) mudar para energias renováveis representa não só uma mudança de fontes de energia como também uma mudança fundamental das relações de poder entre a humanidade e o mundo natural do qual dependemos”. Mas podemos ir mais longe, dependendo dos sistemas de produção e distribuição de energia, as energias renováveis poderão permitir também o caminho da autonomia, a várias escalas, através da maior aproximação ou mesmo da sobreposição, entre os locais de produção e de consumo energético. A maior afronta ao negócio dos combustíveis fósseis é a criação de alternativas concretas. Este caminho encontra várias dificuldades, as energias fósseis avançam com a disponibilidade das empresas petrolíferas para realizar investimentos enquanto as energias renováveis só avançarão significativamente à custa de investimento público. Para que tal aconteça, a solução poderá passar por taxar a extração para investir diretamente em energias renováveis. A transformação futura tem de desligar a melhoria dos padrões de vida da poluição e das emissões de gases com efeito de estufa. Precisamos de uma cosmovisão com base na “regeneração e renovação” em detrimento da “dominação e exaustão”. Este caminho não é compaginável com a atual tendência de estratificação maciça da riqueza e de poder para onde nos conduz o capitalismo.

O movimento social com raízes fora da cultura dominante, que se mova pelos trilhos da ação direta e que acumule capacidade de provocar insurreições populares massivas, representa a melhor ferramenta de ignição e a nossa maior esperança para travar um sistema económico desastroso que nos leva ao abismo

“O capitalismo global tornou o esgotamento de recursos tão célere, prático e sem barreiras que os sistemas Terra-humanos estão a tornar-se perigosamente instáveis como resposta.”

O movimento social com raízes fora da cultura dominante, que se mova pelos trilhos da ação direta e que acumule capacidade de provocar insurreições populares massivas, representa a melhor ferramenta de ignição e a nossa maior esperança para travar um sistema económico desastroso que nos leva ao abismo. Na verdade, a história é prova do grande poder transformador desta via. Quando as “classes governantes” tiveram de abdicar do direito legal de exploração de escravos como fonte de obtenção de riqueza e transformação societal, tratou-se de um golpe sócio-económico que assumiu dimensões idênticas ao confronto que é hoje necessário realizar com a indústria petrolífera.

Artigo de Ricardo Vicente para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro agrónomo. Deputado do Bloco de Esquerda
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