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"Candidatura Lula/Alckmin assume-se como o campo da democracia alternativo ao neofascismo"

Em entrevista ao Esquerda.net após ter participado no lançamento da candidatura Lula e Alckmin, Luís Fazenda aponta as principais preocupações das esquerda e refere que Lula não deixou de condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin.
Sete partidos apoiam a candidatura presidencial de Lula e Alckmin
Sete partidos apoiam a candidatura presidencial de Lula e Alckmin

Estiveste recentemente no Brasil e assististe à apresentação da candidatura de Lula e Alckmin...

Luís Fazenda – Sim, estive em São Paulo num Seminário Internacional do PT e no Ato Público de pré-candidatura às eleições presidenciais da lista de Lula e Alckmin. O Ato Público congregou lideranças partidárias e civis, ONGs as mais diversas, personalidades muito conhecidas, as mais aplaudidas foram a veterana Luíza Erundina, a ex-presidenta Dilma Rousseff, o ex-chanceler Celso Amorim, Fernando Haddad, candidato a governador paulista e Guilherme Boulos do PSOL.

A comunicação do PT aos partidos estrangeiros foi bastante concentrada e insistente na solicitação de uma observação permanente da campanha eleitoral e das eleições em si, dando denúncia internacional de quaisquer tentativas de golpe eleitoral, fraude, tentativas de envolvimento de militares ou policiais, motim, sondagens prefabricadas, grosseiras manipulações dos media, etc.

O PT tem elementos para recear que Bolsonaro e seus correlegionários procuram a confrontação, o assomo da violência e o ataque às instituições democráticas

O Supremo Tribunal Eleitoral não aceitou a presença no Brasil de equipas internacionais de observadores do sufrágio, sob a égide de vários estados e instituições internacionais. Nesta circunstância, impõe-se uma fiscalização cidadã internacional.

O PT tem elementos para recear que Bolsonaro e seus correligionários procuram a confrontação, o assomo da violência e o ataque às instituições democráticas. As expetativas do PT são de que a vitória de Lula confirmará uma vaga de retorno de governos progressistas na América Latina e isso é temido pela reação internacional.

Como analisas a candidatura Lula e Alckmin? Bolsonaro vai ser derrotado?

Luís Fazenda – As expetativas dos apoiantes de Lula são as mais altas. No dia da apresentação da pré-candidatura uma sondagem divulgada por todas os canais de tv apontava um score de 44% a Lula. 31% a Bolsonaro e eventualmente 8% a Ciro Gomes (ainda não é candidato a candidato). A melhor sondagem para Bolsonaro, cuja credibilidade foi contestada, dá uma diferença de 9 pontos a favor de Lula. De qualquer modo, as sondagens refletem uma enorme polarização política, impedindo objetivamente as tentativas de lançar um candidato liberal, dito de terceira via, que possa ter sucesso, sequer de passar a uma segunda volta.

Sete partidos apoiam a"chapa" Lula-Alckmin

A aliança entre Lula e Alckmin, duas vezes adversários em eleições presidenciais, configura a natureza da candidatura. Pretende-se que ela seja ampla, funcione como um movimento de redemocratização, que junte o centro e a esquerda para derrotar a extrema direita, assume-se como o campo da democracia alternativo ao neofascismo. Alckmin, conhecido popularmente como cabeça de chuchu, disse logo que "chuchu com lula é um prato que combina bem". Alckmin fez um discurso de intensa dramatização sobre a última oportunidade de salvar a democracia cuja única escolha possível recai em Lula.

O panorama partidário parece ter-se conjugado com esse objetivo. Sete partidos apoiam a "chapa" Lula-Alckmin, a saber, PSB, PSOL, Rede, Solidariedade, PV, PC do B e o PT. Em alguns deles houve contrariedade interna em aceitar como vice uma personalidade antes identificada com o neoliberalismo, mas tudo isso parece ter ficado para trás no combate ao neofascismo. Alguns dos partidos poderiam ter guardado o endosso de Lula para a segunda volta mas prevaleceu, segundo dizem, a gravidade do combate e a responsabilidade de tentar a vitória logo na primeira eleição.

Como é a relação entre os partidos e a candidatura presidencial de Lula e Alckmin? Que influência estão a ter as federações partidárias? Que perspetivas tem a esquerda?

Luís Fazenda – O panorama partidário está também ele muito diferente. Lula compromete-se "a subir no palanque" de candidatos a governadores dos Estados que o apoiem, mesmo que rivais entre si no seu próprio Estado. E isso poderá acontecer entre candidatos do PT, PSB e PSOL. Pode até acontecer com o candidato do PDT no Ceará, um gesto de Lula para com o partido de Ciro. A criação legal das "federações partidárias" mudou muita coisa. Cada federação partidária é um contrato de atuação conjunta sem quebra durante quatro anos nos parlamentos federal e estadual, no município, entre os partidos que se federem. Os partidos, contudo, mantém sua sigla e autonomia mesmo que em bancadas parlamentares conjuntas. Os orgãos internos da federação refletem a proporcionalidade atual dos partidos. Nesse sentido, formou-se a Federação Esperança para o Brasil com PT, PC do B e PV. Os dois últimos arriscavam ficar fora do Congresso de Deputados por eventualmente não alcançarem 2% dos votos ou 11 deputados eleitos. O mesmo processo federativo sucede entre PSOL e Rede (Rede Sustentabilidade), embora esteja a ser turbulento nos próprios partidos.

A esquerda espera claramente reforçar-se

A esquerda espera claramente reforçar-se em termos de governos dos Estados, aumentando o número de governadores do PT e aliados como o PSB. Igualmente, preveem aumentar o número de deputados mas sem ilusões quanto à necessidade de concessões a setores centristas nas câmaras, setores que se alforriam de Bolsonaro mas não apoiam Lula.

A pré-candidatura só pode ser oficializada depois das convenções partidárias, obrigatoriamente nos fins de julho, primeiros dias de agosto,

O que destacas na perspetiva política da candidatura de Lula?

Luís Fazenda - O importante no longo discurso de Lula situou-se na restauração da democracia constitucional e da soberania brasileira. A abordagem democrática sela-se na independência do judiciário e na convivência das instituições federais e estaduais hoje tão atacadas pelo governo federal. A abordagem soberanista veio pela necessidade de impedir a privatização das grandes empresas estatais e pela reafirmação do desalinhamento em relação à NATO, optando pela Carta das Nações e pela reativação dos acordos com China e Índia, embora não tenha deixado de condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin. A abordagem social foi vasta sob a necessidade de "pôr comida na mesa" foi afirmado um largo programa de bem estar social, a par de um grande investimento público em infraestruturas num grande plano ancorado numa significativa contração de dívida pública. Foi visível o ensaio de aproximação aos vários grupos religiosos e étnicos do Brasil.

As referências ao Brasil dilacerado pela pandemia e pelo regresso da fome, pela violência, pelo seguidismo de Bolsonaro a Trump e a Putin, são constantes no discurso de Lula e nos comentários das lideranças partidárias. A acusação de genocídio praticado por Bolsonaro ao desvalorizar completamente o vírus da covid e os meios de lhe fazer frente associa-se ao número de mais de 600 mil mortos como libelo da vida e da fraternidade social.

Entrevista realizada por Carlos Santos

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