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A caminho da União Popular

Enquanto em França a esquerda negoceia a possibilidade de uma candidatura de unidade às próximas legislativas, Laurent Lévy equaciona o seu significado histórico, lembrando o que significava nos anos 1970 e o papel da esquerda social-liberal na crise política dos últimos anos.
Cartazes da campanha presidencial de Mélenchon. Foto de Caratello/Flickr.
Cartazes da campanha presidencial de Mélenchon. Foto de Caratello/Flickr.

No vocabulário político clássico da esquerda francesa, a União Popular é a dinâmica, iniciada em 1972, e implementada nas eleições legislativas de 1973, que culminou com a eleição presidencial de 1974 na qual este processo de unidade em torno de um programa muito avançado de medidas anti-capitalistas e democráticas obteve mais de 43% dos votos na primeira volta e mais de 49% na segunda, antes de ir definhando até à derrota eleitoral de 1978. Se ela era inicialmente limitada à aliança entre três partidos políticos (Partido Comunista Francês, Partido Social, Movimento dos Radicais de Esquerda), com o apoio de uma grande central sindical (a CGT), foi reforçada em 1974 por outros sindicatos (CFDT, FEN…), outro partido (o Partido Socialista Unificado) e numerosas personalidades externas a qualquer organização, num contexto de grande conflitualidade social, materializada por numerosas lutas em todos os setores e um crescimento regular do número anual de dias de greve.

Se a retoma atual desta expressão “união popular” por uma organização particular (a França Insubmissa) pode ter algo de paradoxal, de tal forma a sua iniciativa é diferente, é possível ponderar que a evolução da situação política possa transformar esta simples homonímia num processo da mesma natureza e, sem dúvida, será necessário revisitar a experiência do passado a fim de evitar as suas armadilhas ao mesmo tempo que se compreende o seu forte potencial político e – não tenhamos medo das palavras – revolucionário.

Há, com efeito, um paradoxo na existência de uma organização que se auto-denomina "União Popular". Na verdade, mais do que uma organização, é um projeto, uma afirmação, e o movimento que usa esta expressão, como evidencia o grande símbolo “phi” nos seus cartazes, não é outro senão a FI. Ora, este nome em si tem uma história: ao constituir uma organização que assim se auto-denomina, a "França Insubmissa" também apresentava um projeto: juntar à volta de um candidato a França que se recusa a se submeter à ordem existente. Que este candidato – o Jean-Luc Mélenchon de 2017 – tenha imaginado depois “construir o povo” e dito que esta organização – todos os grupos de apoio formados para as necessidades da sua candidatura – era a prefiguração disto é outra história.

Atualmente, se se renunciar a essa espécie de copyright aplicado a uma expressão que pertence ao domínio público, nada poderá impedir a UP de abrir caminho a uma verdadeira "união popular". E se isso acontecer, sem dúvida mudaria uma situação política que realmente precisamos que mude. As iniciativas a partir de cima raramente são bem-sucedidas, e se uma das fragilidades da dinâmica política da União Popular dos anos 1970 foi que ela nunca ter estabelecido um quadro organizacional, poder-se-ia, se não se tiver cuidado, observar um fracasso simétrico: que um quadro criado com este nome agora não corresponda à dinâmica política que se desenha. Mas, tal como no caso do seu antecessor histórico, este fracasso não é fatal: as bases existem para isso.

O facto é que, ainda que se possa condenar o método seguido, e embora seja fácil notar como em cada etapa ele semeou armadilhas a qualquer processo unitário – a qualquer verdadeira união popular – a OPA hostil de Jean-Luc Mélenchon à esquerda foi, em dez anos, coroada de sucesso, como tinha sido, sem que as épocas e as situações sejam exatamente comparáveis, a do seu mentor e modelo François Mitterrand nos anos 1970. É ainda mais importante tomar nota deste sucesso, materializado pelo seu resultado na primeira volta das eleições presidenciais, uma vez que surge numa situação de crise política de grande gravidade, com os fascistas da União Nacional às portas do poder e contando com uma situação hegemónica no seio da polícia e do exército, no quadro de uma reconfiguração geral da vida política.

Se esta reconfiguração se faz discretamente ao longo da última década – e mesmo em alguns aspetos desde o início do século – ela conheceu uma aceleração, um verdadeiro salto qualitativo em 2017, com a eleição de Emmanuel Macron. O duopólio que, alternância após alternância, governava França desde 1974 desabou, revelando a que ponto tinha, ao longo dos tempos, minado as suas próprias fundações. O apoio espetacular dado pelo grande patronato entre as duas voltas a Emmanuel Macron, então um outsider na corrida ao Eliseu, tinha sido de certa forma um índice significativo desta reconfiguração ainda que tenha conhecido ao longo do seu mandato alguns ajustamentos.

A adesão de uma parte importante do Partido Socialista ao macronismo nascente, resultado da sua longa e irreprimível evolução social-liberal coroada pelo lamentável mandato de cinco anos de François Hollande, foi outra. De ambos os lados, cristalizava-se a prioridade dada às políticas neoliberais acima de qualquer outra consideração ideológica ou "de sociedade". Emmanuel Macron pretendia incarnar uma política que seria “de direita e de esquerda” como que espelhando os discursos que dizem ser “nem de direita nem de esquerda” e que sabemos bem que ao invés da velha pretensão de Giscard d’Estaing de se situar ao “centro” não são afinal “nem de esquerda nem de esquerda”.

De facto, ele jogava com a grande confusão e descrédito que se instalou relativamente à própria ideia de "esquerda", o que tinha sido acelerado pela prossecução de políticas de direita por parte de governos que se diziam de esquerda e que François Hollande tinha levado ao ponto de se tornar uma caricatura. Era a própria partição do mundo político entre direita e esquerda que estava então em causa.

Essa partição resultava já nos anos 1970 de uma involução da conceção dominante da política. Aquilo a que se tinha chamado “união de esquerda” como sinónimo de “União Popular” e que então se construía era antes de mais uma representação política do mundo do trabalho, do movimento operário e das categorias sociais que se juntavam à sua volta; mas se a sobreposição destes vocabulários permitia dar conta da dialética entre “ideias de esquerda” e “classes populares”, ela rapidamente daria lugar à noção de Mitterrand de “povo de esquerda”, expressão da mutação da vida política que se perfilava entâo: o que historicamente tinha sido confronto entre as classes possidentes e as classes trabalhadoras, a luta de classes, acabaria por se resumir a uma simples luta de ideias, ou até de morais: ideias de esquerda e ideias de direita tornavam-se noções separadas das suas raízes sociológicas em toda a sua riqueza e complexidade.

O “povo de esquerda” invocado por Mitterrand, uma massa informe e desprovida de estruturas internas, antecipava o “povo” mais tarde invocado por Mélenchon, e a palavra “esquerda” tinha sido esvaziada da sua substância ao ser separada da sua base social.

O episódio dos Coletes Amarelos, altamente significativo pela sua diferença específica relativamente a outros movimentos sociais saídos movimento operário e da sua crise, se surgiu como um momento de rutura sancionou também esta involução de longa duração: revelou a sua profundidade e ilustrou as consequências. O carácter ideologicamente díspare deste movimento social foi sublinhado frequentemente; é, entre outras, uma das consequências do enfraquecimento das ideologias emancipatórias que outrora irrigavam as classes trabalhadores mas também da desestruturação do mundo do trabalho e do enfraquecimento das estruturas sindicais.

Mas é também um efeito de um falhanço radical de uma conceção da política centrada na delegação de poderes numa “classe política” artificial e desacreditada. Ter confundido ao longo de décadas luta política e luta de ideias, política e batalhas eleitorais, poder e ocupação de lugares institucionais, movimentos políticos e dirigentes, teve as suas consequências. O impasse deste movimento espetacular está assim ligado à crise da política no seu conjunto. A revolta foi pensada e vivida nos termos de uma ideologia política tornada dominantes, de uma contestação incapaz de a ultrapassar. Não é surpreendente que nas presidenciais de 2022, o voto dos chamados Coletes Amarelos tenha sido polarizado entre, cerca de metade dos votos para Le Pen e metade para Mélenchon – para além de uma importante fatia para a abstenção.

Esta eleição baralhou as cartas. Ou melhor, distribuiu jogo a partir das cartas baralhadas a seguir ao colapso da velha estrutura da vida política. Como se a areia lançada para o ar pela borrasca de 2017 que varreu a herança de quarenta anos de vida política tivesse finalmente assentado, tornando visível, pouco a pouco, a nova paisagem.

As relações de forças no país foram fotogradas na primeira volta. Uma fotografia desfocada e parcial, uma vez que deixava na sombra os milhões de abstencionistas, mas que, no entanto, dava uma imagem aproximada válida do estado das coisas: o corpo eleitoral surgia, em grandes traços, dividido em três terços. Um terço à esquerda, essencialmente para Jean-Luc Mélenchon; um terço para a extrema-direita, representada por Marine Le Pen e Eric Zemmour; um terço para a direita, representada por Emmanuel Macron que juntou a maior fatia, beneficiando, tal como a extrema-direita, do afundamento da direita tradicional.

Este resumo teria de ser aperfeiçoado, em parte tendo em conta as pontes que existem aqui e ali. Assim, convém qualificar de extrema-direita uma parte dos votos de Valérie Pécresse, apoiada entre outras por correntes como a de Eric Ciotti – o que cria subdivisões. O terço da direita está segmentado, entre alguns restos da direita tradicional com os outros a virar-se para a extrema-direita e para o macronismo agora dominante por ter unificando um extremo-centro assumindo o lugar de uma direita sem fronteiras.

Os votos de Jean-Luc Mélenchon, por seu lado, não podem na sua totalidade serem qualificados sem discussão como sendo “de esquerda”, uma parte dificilmente mesurável mas que alguns inquéritos situam à volta de 17% decidiu mesmo, apesar da palavra de ordem explícita do candidato, de votar em Marine Le Pen na segunda volta, comportamento dificilmente atribuível a um eleitorado sobre o qual se possa apoiar a construção de uma alternativa emancipatória. Porém, a dinâmica que se criou à volta da sua candidatura, apesar das suas ambivalências, foi uma dinâmica claramente de esquerda: foi mesmo a única dinâmica significativa à esquerda – se se considerar a pasokização em grande escala do partido socialista, o falhanço do PCF de constituir uma alternativa à França Insubmissa e o apagamento eleitoral da extrema-esquerda.

Facto notável, a campanha de Jean-Luc Mélenchon recebeu um apoio considerável do eleitorado dos bairros populares, estimulado pela contribuição de muitos setores destes bairros, nomeadamente com a emergência de um importante “voto muçulmano” (as aspas impõem-se) para o único candidato em posição de obter um resultado significativo que tinha tomado posição contra a islamofobia e igualmente o apelo lançado sob o título “Misturamo-nos” por figuras políticas saídas da imigração entre outras antigos quadros do MIB, herdeiros do Movimento dos Trabalhadores Árabes. Os militantes provenientes do Partido dos Indígenas da República também deram o seu contributo, este reforço, externo à França Insubmissa, de meios sociais e correntes políticas que, apesar de várias tentativas anteriores, permaneciam tradicionalmente à marga da política institucional é sem dúvida um dos acontecimentos mais significativos da construção de uma nova união popular.

Talvez haja ainda um longo caminho a percorrer. E constatar a amplitude desta dinâmica não basta para compreender a sua dimensão. Sem tentar fazer aqui uma análise mais completa, não é rebaixá-la dizer que ela é antes de mais uma dinâmica eleitoral, herdeira de décadas de redução das principais apostas políticas a questões eleitorais. Mas é um fenómeno decisivo e sem equivalente recente. Estão assim abertas as possibilidades de construir uma nova união popular: uma agregação de forças políticas diversas e de movimentos sociais mais diversos ainda, cujo ponto em comum é recusar as política dos últimos vinte anos seja o neoliberalismo e capitalismo selvagem, o autoritarismo, o tropismo securitário e o racismo sistémico.

Isto é tanto mais urgente quanto o sistema eleitoral, centrado na eleição presidencial e multiplicando os sufrágios uninominais em duas voltas, produz necessariamente a bipolarização. Qualquer outra repartição das forças fica desequilibrada, mesmo que este desequilíbrio possa durar muito tempo. O que explica, por exemplo, porque é que as direitas sempre se quiseram agrupar e porque que é que a união das forças de esquerda surgia de uma forma ou de outra como uma necessidade. Em presença de três polos eleitorais, a questão passa a ser saber quem in fine assumirá a posição dominante e quem se afundará, entre uma união popular que continua por construir entre a sua abertura e o seu alargamento, um bloco fascista dividido e uma direita em reconstrução acelerada à volta do presidente reeleito.

Dito de outra forma, a bipolarização futura passará pela destruição do pólo fascista ou pelo desaparecimento do pólo de esquerda. As duas tarefas que daqui resultam são claras: construir uma verdadeira união popular e suscitar uma verdadeira cultura antifascista. Para estas duas tarefas, o papel dos bairros populares – cuja importância se viu nos últimos escrutínios – será decisivo.

O desafio de desenvolver, reforçar e difundir uma cultura anti-fascista, com o objetivo de enfraquecer e desmantelar o pólo que hoje se apresenta como uma alternativa ao poder de Macron e de arrancar dele milhões de apoios mal orientados, é de uma urgência que nunca foi tão evidente como no final destas eleições presidenciais. Numa situação necessariamente instável e que não pode – nem deve – escapar ao recrudescimento de vários movimentos sociais refletindo por sua vez as divisões ideológicas e fraturas que se refletiram nos resultados eleitorais, num altura em que a extrema-direita nunca foi tão poderosa desde a Libertação – mesmo na altura do OAS que provocou uma resposta popular em larga escala – este combate assume uma importância prioritária, determinando qualquer possibilidade de avanço das perspetivas emancipatórias. De certa forma, é uma condição de possibilidade da própria união popular.

Ora, falar de união popular é falar de uma frente suscetível de vir a obter a adesão de milhões de pessoas não apenas ao nível pessoal mas também enquanto militantes das forças organizadas por um movimento social multiforme, cujas numerosas organizações, grandes e pequenas, assumindo o lugar anteriormente ocupado pelo que o Partido Comunista chamava de "organizações de massas", estruturando a vida pública muito para além das suas organizações políticas clássicas. Nesta Frente, é claro que de um ponto de vista eleitoral a força principal é atualmente a França Insubmissa, ainda que esta hegemonia de facto não possa ser dada por adquirida.

Mas para além do facto de não poder ser uma frente inerte, um alinhamento de cada uma das organizações, seja qual for a sua natureza, e de qualquer pessoa que a ela se junte, numa linha pré-definida e traçada por completo, mas, pelo contrário, um lugar complexo e contraditório de debates, mesmo de confrontos sobre todo o tipo de questões, em suma uma estrutura viva e dinâmica dentro da qual a luta e o debate ideológico e político continuam necessariamente na perspetiva de vitórias comuns, não se pode considerar esta união popular como limitada a questões eleitorais, por mais importantes que sejam, não poderíamos considerar essta união popular limitada às questões eleitorais, por mais importantes que obviamente sejam.

Será necessário, a cada etapa, lutar passo a passo para ganhar pontos de apoio no caminho para a emancipação. Que cada organização desta frente continue a ter a sua agenda própria, conserve a sua personalidade, não apenas deve ser considerado um problema mas deve ser uma das forças da união popular. A união forja-se e reforça-se através dos confrontos: o seu centro de gravidade não está definido a priori nem de uma vez por todas.

As vitórias polítcas serão, em primeiro lugar, vitórias ideológicas e sociais, para as quais todos os intervenientes da nova União Popular, cada um à sua maneira, darão a sua contribuição. As vitórias eleitorais só podem vir somar-se-lhe.


Laurent Lévy é autor de livros como Le Spectre du communautarisme (Éditions Amsterdam, 2005), "La gauche", les Noirs et les Arabes (Editions La Fabrique, 2010) e Politique hors-champ, Contribution à une critique communiste de la politique (Éditions Kimé), 2012.

Artigo publicado originalmente na revista Contretemps. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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